Os riscos e as vantagens para quem busca investir em crédito privado

Opções de renda fixa, títulos de crédito privado possibilitam bons rendimentos e são uma alternativa ao investimento em empresas, mas tem cenário desafiador no Brasil

Quando o investidor quer investir por meio de uma empresa, comprar ações dela não é a única opção. O crédito privado é uma categoria de ativos em renda fixa que também possibilita rendimentos vindos das companhias.

Os investimentos chamados de créditos privados nada mais são do que títulos de dívidas emitidos por empresas e instituições não-públicas. Os CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), os CRAs (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) e as debêntures são os tipos de investimentos que se encaixam nessa definição.

Ativos do crédito privado

  • CRA: títulos emitidos por securitizadoras, que transformam dívidas de produtores, cooperativas ou empresas ligadas ao agronegócio em créditos a receber (recebíveis) para financiar suas atividades.
  • CRI: mesmo processo realizado pelo CRA, porém, para financiamento de empresas voltadas ao ramo imobiliário. 
  • Debêntures: títulos de dívidas de empresas em geral, que são emitidos para financiamento, expansão e investimentos nas companhias.

Cenário atual do crédito privado no Brasil

Para quem busca investir em crédito privado no Brasil, o cenário está, no mínimo, desafiador. Para Isabela Raposo, relações com investidores da Trópico Investimentos, o momento atual requer mais conservadorismo dos investidores. 

Isso porque o mercado de crédito privado no Brasil enfrenta um período de turbulência e algumas empresas se encontram em situação de default. Com as taxas de juros elevadas, como a que estamos vivenciando agora (13,75%), as empresas acabam se endividando ainda mais e têm cada vez mais dificuldades para honrar as dívidas contratadas anteriormente.

“A taxa de juros real (juros nominais descontados à inflação), aliada a fatores como contração da renda, elevado desemprego e endividamento das famílias, tem pressionado o caixa das empresas que é intenso em capital de giro. A captação se tornou mais cara para estas empresas que precisam fazer elevados investimentos em estoque, mas que, ao mesmo tempo, não conseguem repassar o aumento de custo ao já famigerado consumidor. Com margens em queda, não é de se estranhar que tantas exibam problemas para honrar seus compromissos”, explica ela.

Estudo é fundamental

Esse cenário só reforça a importância do investidor fazer o dever de casa e se informar para entender como o ativo funciona, com seus riscos e vantagens. Ou seja, usar a seu favor análise fundamentalista, que estuda a situação financeira da empresa, suas perspectivas de crescimento, o cenário macroeconômico, entre outras variáveis, para traçar expectativas de valorização no médio e longo prazos.

“Ao investir em crédito privado, o investidor precisa entender uma equação simples: a rentabilidade do dinheiro é dada pela taxa de juros paga pela empresa que pega o empréstimo. Assim, caso venha ocorrer o inadimplemento a perda pode ser total. Este foi o caso da Americanas (AMER3), que pegou muitos de surpresa e gerou prejuízos em cadeia. Agora vemos o mesmo acontecendo com a Light (LIGT3)”, diz Raposo.

Cuidados e vantagens do crédito privado

Aos que desejam investir em crédito privado há pontos em que devem ficar atentos para se blindarem o máximo possível dos riscos citados acima.

Segundo a especialista da Trópico, o primeiro, é observar o setor em que a empresa está inserida e sua área de atuação. Seguido do seu nível de endividamento, as finalidades para as quais o crédito está sendo buscado, o impacto de uma taxa Selic alta em sua atuação e o rating de classificação da empresa. 

“Essa análise proporciona uma visão clara da saúde da companhia, pois, como destaquei acima, o risco associado a um crédito privado difere completamente do investimento em ações. No mercado de ações, os preços oscilam de acordo com o valor percebido pelo mercado, enquanto no crédito privado, se a empresa não honrar a dívida emitida, ela simplesmente não pagará o credor, o que levará à perda total do valor do título”, ressalta ela.

Já do lado das vantagens, Gabriel Nascimento, CEO da Ulend, plataforma de crédito privado que conecta empresas e fundos a investidores, destaca a possibilidade de rentabilidade melhor do que mercados tradicionais de renda fixa e volatilidade menor do que a grande maioria dos instrumentos de renda variável.

diversificação é mais um ponto positivo segundo Nascimento, já que reduz o risco, especialmente em momentos de crises. “O investidor pode trabalhar com fundos de crédito privado, distribuindo o dinheiro em diversas aplicações e, assim, reduzindo o risco. Uma carteira diversificada pode se beneficiar de ativos de crédito privado que costumam pagar remunerações mais altas. O conhecimento das características de remuneração, dos riscos e das estratégias de mercado é fundamental para o brasileiro navegar em novas águas”, diz ele.

Sem imposto

Por fim, o CEO menciona que alguns títulos de crédito privado apresentam isenção de Imposto de Renda, especialmente quando as debêntures são emitidas para financiar projetos que interfiram em infraestrutura e tragam benefícios para a população, as debêntures incentivadas.

Isabela Raposo ainda destaca que quando uma empresa é uma pagadora confiável de suas dívidas, isso se torna um bom investimento. “É fundamental ressaltar que o mercado financeiro depende desse tipo de investimento, pois ele auxilia no impulso da economia e facilita o crescimento do país”.