1º ou 2º turno: como o rumo da eleição afeta seus investimentos

Cenário varia com o novo presidente
Pontos-chave:
  • O término da eleição no primeiro turno representaria uma incerteza a menos para investidores

A eleição presidencial entra na fase decisiva cada vez mais acirrada entre dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas. Lula e Bolsonaro vêm intensificando suas agendas políticas e compromissos de campanha, com foco em se manterem à frente de Ciro Gomes e Simone Tebet, na esperança de continuarem com a rivalidade em um segundo turno.

Mas o que acontece se a eleição for vencida no 1º turno, com um dos candidatos obtendo mais de 50% dos votos válidos? A volatilidade do mercado, conhecida por assombrar o investidor em tempos de disputa presidencial, deve piorar?

O que acontece no mercado se a eleição for decidida no 1º turno

Para o economista e assessor de investimentos Gabriel Maksoud, CEO da DOM Investimentos, o término da eleição no primeiro turno representaria uma incerteza a menos para investidores e empresários, mesmo a custo de uma volatilidade mais aguçada do mercado de ações.

E, claro, tudo depende do vencedor que vai ocupar o Palácio do Planalto em 2023.

“Se for o Bolsonaro no primeiro turno, o mercado já sabe como será o plano de governo do atual presidente quanto à Economia, mantendo o Ministro [Paulo Guedes] e suas políticas econômicas praticadas nos últimos quatro anos”, explica Maksoud.

Isso representaria uma incerteza a menos pela lente do mercado. O segundo turno significaria um mês a mais sem rumo.

Caso Lula (PT) vença a eleição no primeiro turno, é provável que o mercado fique ainda mais volátil, devido à incerteza das propostas e à equipe econômica do petista, que ainda não deu detalhes sobre como pretende abordar o teto de gastos, orçamento e sua agenda econômica, em geral.

Por outro lado, Maksoud cita que o mercado internacional já está familiarizado com o governo Lula, e o que deve ajudar o petista a gerar confiança no empresariado.

Se a eleição for ganha no primeiro turno por Bolsonaro, pode-se esperar uma reação mais contida e otimista do mercado, e, se Lula for o vencedor no dia 2, o choque será maior. Essa é a avaliação de Paolo Di Sora, diretor de Investimentos da RPS Capital.

O que acontece no mercado se a eleição for decidida no 2º turno

Di Sora argumenta que o 2º turno é mais benéfico para o investidor, já que nessa etapa do pleito Lula e Bolsonaro — os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas eleitorais — têm mais oportunidades para elaborarem seus planos de governo.

“Nos debates, Lula pode, por exemplo, dar mais detalhes de sua equipe econômica em busca de mais votos de centro”, diz o economista. O petista e o atual presidente devem buscar um discurso mais moderado, mirando os eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet.

Outro aspecto é o do “cheque em branco”.

Se Lula e Bolsonaro disputarem em um segundo turno, não haverá muito espaço para políticas econômicas mais radicais dos dois lados, já que nenhum conseguiu votos válidos suficientes, avalia Di Sora.

Ações e setores da bolsa com maior correção potencial

Tanto em um cenário de vitória de Lula quanto de Bolsonaro no primeiro ou no segundo turno, o investidor da renda fixa não deve ser muito afetado.

Novamente, o curinga é o petista, que ainda não esclareceu como pretende resolver questões como o ajuste fiscal ou teto de gastos, tampouco sobre sua equipe econômica para 2023.

O maior impacto deve ser sentido no Ibovespa.

“Caso Lula vença no primeiro turno, acho que pode haver alguma correção na renda fixa, mas a volatilidade vai atingir mais a bolsa”, explica Di Sora, executivo da RPS Capital.

Em um eventual terceiro mandato de Lula, o economista avalia que os bancos públicos podem ganhar mais protagonismo nos estímulos à economia: o Banco do Brasil criaria novas linhas de empréstimo subsidiado, a Caixa Econômica Federal poderia voltar a turbinar o programa habitacional Minha Casa Minha Vida, do governo federal, e o BNDES poderia voltar a dar crédito ao setor privado.

O economista espera que ações de estatais como Petrobras (PETR4) e Banco do Brasil (BBAS3) sofram as maiores correções negativas.

Mesmo que o histórico das ações PETR4 indique alta entre 2006 e 2008, durante o segundo mandato de Lula, Di Sora cita que os papéis na bolsa devem cair. Uma disparada só será vista meses após a eleição, com tanto que o petista não altere a estrutura de governança da petrolífera.

Por outro lado, a vitória do petista em 1º turno poderia levar à valorização de ações de construtoras de baixa renda, como MRV (MRV3), Tenda (TEND3) e Plano&Plano (PLPL3). Além do setor de construção, empresas de educação também podem subir na bolsa, já que o petista tem feito compromissos voltados para essa área.

Cautela ou risco?

Gabriel Maksoud recomenda o investidor a diversificar. “É bem importante neste momento ter bastante caixa disponível. Nunca foi tão fácil e tão rentável [ter caixa], em um momento com tantas incertezas no ar”, completa.

Ele recomenda investir em um título de renda fixa atrelado à taxa de juros, como o Tesouro Selic, ou CDBs com liquidez diária e alguns Fundos DI.

O Tesouro IPCA e Tesouro pré-fixado têm taxas atraentes e são boas alocações de investimentos, mas servem mais para a rentabilidade à longo prazo, avisa o analista.

Há espaço também para quem tem apetite por risco.

“Nosso Ibovespa está negociando múltiplas ações a um índice de preço sobre lucro perto das mínimas históricas, bem baixo da média. Historicamente, quando se chega a múltiplos desse tipo, sempre foi um bom momento para entrar na bolsa”, afirma Maksoud.

Mas cautela é a palavra-chave para os dois economistas ouvidos pela Inteligência Financeira.

O cenário internacional está tumultuado pela alta inflação e juros nos Estados Unidos — previstos para aumentarem após reunião do Federal Reserve, banco central dos EUA, nesta quarta-feira (20) — e pela Guerra na Ucrânia. “Dada toda volatilidade eleitoral e do mercado externo, não temos como ficar mais otimistas”, finaliza o CEO da DOM Investimentos.