John Tuttle, da NYSE: aos olhos do investidor, o Brasil e as empresas brasileiras estão em alta

Em entrevista à Inteligência Financeira, o vice-presidente da bolsa de valores de Nova York, destacou a relevância das companhias brasileiras na NYSE e suas expectativas para IPOs no 2º semestre

John Tuttle, o vice-presidente da bolsa de valores de Nova York (NYSE) recebeu a Inteligência Financeira na quinta-feira (9). Falante e carismático, ele apresentou a NYSE, destacando o peso do Brasil no dia a dia de negociações da maior bolsa de valores do mundo.

A NYSE tem aproximadamente 2.400 empresas listadas, isto é, que negociam suas ações em Nova York. Cerca de 30% delas são estrangeiras. Quando se fala em nacionalidade ou origem do capital desses negócios, 47 países estão representados na NYSE por meio de suas empresas. No conjunto, são cerca de US$ 40 trilhões em capitalização de mercado.

O Brasil tem 34 empresas listadas na bolsa de valores de Nova York. Segundo Tuttle, das empresas cujas ações são mais negociadas da bolsa de valores de Nova York, sete são brasileiras.

“E isso é impulsionado por um entusiasmo pelo que está acontecendo no Brasil. Acredito que há um sentimento renovado de otimismo por parte dos investidores estrangeiros em relação à economia brasileira”, disse ele à Inteligência Financeira.

Tuttle se refere às reformas recentes encaminhadas pelo governo, que envolvem o cenário para o fiscal, mas também à postura do Banco Central (BC), que está sendo hábil, na avaliação dele, no controle da inflação, por meio da política de juros do BC.

Em se tratando de contexto, aqui em Nova York, as ações registraram fortes ganhos esta semana, a primeira semana completa de negociações do mês de maio, apoiadas principalmente pela queda na curva de rendimentos do Tesouro dos Estados Unidos. Na semana, o Dow Jones acumulou alta de 2,16%, S&P 500 avançou 1,85% e o Nasdaq teve ganhos de 1,14%.

Também contou a favor do mercado de ações os dados de emprego de abril, reportados na sexta (3), que mostraram um crescimento mais fraco do emprego e uma desaceleração dos salários. Os investidores avaliam que, diante dos dados, o banco central dos Estados Unidos (Fed) pode flexibilizar os juros, o que atrai mais investidores para a renda variável.

Leia a seguir trechos editados da entrevista com John Tuttle, vice-presidente da NYSE.

O Brasil na NYSE

“Temos 2.400 empresas listadas aqui na bolsa de valores de Nova York. São cerca de US$ 40 trilhões em capitalização de mercado. Temos empresas de 47 países. E o Brasil é um dos cinco principais países, embora aqui tenhamos 32 empresas brasileiras listadas na NYSE.

Agora, dito isso, se eu olhar para toda a nossa comunidade de empresas listadas, as 2.400 empresas, e olhar para as 15 empresas mais ativas do ponto de vista de negociações, em um determinado dia, metade delas é brasileira.

Então, das empresas cujas ações são mais negociadas da bolsa de valores de Nova York, sete são brasileiras. E isso é impulsionado por um entusiasmo pelo que está acontecendo no Brasil.

Acredito que há um sentimento renovado de otimismo por parte dos investidores estrangeiros em relação à economia brasileira.”

Empresa listada (São 32 ao todo)Tipo de ação*
AdecoagroNão informado
AmbevSponsored ADR
Ambipar Class A
Azul Sponsored ADR Pfd
Banco Bradesco Sponsored ADR Pfd
Banco Santander (Brasil) Sponsored ADR
BrasilAgro Sponsored ADR
Braskem Sponsored ADR Pfd;
Class A
BRFSponsored ADR
Eletrobras Sponsored ADR
(incl. Class B)
CI&T Class A
GPASponsored ADR
Sabesp Sponsored ADR
Cemig Sponsored ADR Pfd (inc. Cl C)
Copel Sponsored ADR
CSN Sponsored ADR
Cosan Sponsored ADR
Embraer Sponsored ADR
Eve Não informado
GerdauSponsored ADR Repr 1 Pfd Sh
Itaú Unibanco Sponsored ADR Pfd
NexaNão informado
Nu Holdings Class A
PagSeguro Class A
Petrobras Sponsored ADR
Sendas Sponsored ADR
Suzano Sponsored ADR
Telefonica Brasil Sponsored ADR
TIM Sponsored ADR
Ultrapar Sponsored ADR
VTEX Class A
Vale S.A. Sponsored ADR
* Sponsored ADR é um ativo listado de empresa estrangeira em que a companhia é a patrocinadora do programa. Class A são ações com direitos especiais de voto; Class B são ações com menos direitos.

Temporada de balanços nos EUA

“Estamos na metade da temporada de balanços aqui nos Estados Unidos. Em geral, a maioria das empresas relatou que superou as expectativas dos analistas. Vimos alguns setores apresentarem desempenho superior ao do mercado. Também fomos surpreendidos por alguns setores que voltaram a apresentar bom desempenho, superando expectativas de mercado. É o caso de empresas de energia e da indústria.”

Inteligência artificial

“Agora, obviamente, estamos vendo uma grande onda da inteligência artificial (IA). Há as empresas que estão na vanguarda dessas tecnologias, estas têm tidos ganhos expressivos em suas ações.

Mas esta onda também pega as empresas que irão se beneficiar dessas tecnologias. Estas companhias têm tido vento a favor, no sentido de que suas ações estão entrando no radar dos investidores, nos últimos meses e trimestres.”

Investidores mais atentos aos ganhos por ação

“Neste momento de taxas de juros mais altos, os investidores nos Estados Unidos estão menos interessados em ações de empresas que mostram forte crescimento na receita, as chamadas ‘growth stocks‘.

O investidor aqui está mais atento aos dados sobre o caixa da empresa e a margem operacional, buscando sinais de que o negócio está saudável e é capaz de gerar lucros futuros. Há interesse também no lucro por ação, o que mostra, de forma objetiva que o investidor quer saber se a companhia está ou não apresentando lucros e de quanto é este lucro para cada ação negociada no mercado.

Portanto, o que o investidor aqui busca neste momento é menos uma promessa de resultados futuros e mais a ação de uma empresa sólida, que gera caixa e dá retornos sólidos.”

Expectativa para novos IPOs

“À medida que as taxas de juro começaram a subir e o Fed telegrafou os seus planos para conter a inflação, assistimos a um abrandamento completo, se não mesmo a uma paralisação, no mercado de IPOs.

Em se tratando de IPOs, 2022 foi o ano mais tranquilo em mais de meio século na NYSE. Estamos entusiasmados com o segundo semestre deste ano. Temos muitas empresas excelentes de todas as regiões e setores que estão se preparando para chegar aos mercados públicos.

Na semana passada, tivemos o maior IPO do ano aqui na bolsa de valores de Nova York, com a Viking Cruises (VIK). A operadora de navios de cruzeiro levantou US$ 1,5 bilhão. Então, este é o tipo de evento que deixa as empresas que estão no pipeline prontas para partir.

Neste momento, se olharmos para as condições para o segundo semestre do ano, as taxas de juros estão relativamente estáveis, com, poder-se-ia argumentar, uma linha de visão para cortes (nos juros nos EUA), o que é um bom presságio para o mercado acionista, E, portanto, para o mercado de IPOs.

Se você observar a volatilidade, ela continua baixa e estável (nos EUA). E as empresas no mercado neste momento estão tendo um desempenho bastante bom, conforme refletido pelos índices de ações (S&P500, Nasdaq e Dow Jones) que ainda estão perto de suas máximas históricas.

John Tuttle, vice-presidente da New York Stock Exchange, a NYSE, fala em entrevista à Inteligência Financeira, que há uma mudança de percepção do investidor estrangeiro em relação ao Brasil. “O investidor está otimista com o Brasil e as empresas brasileiras”, diz ele.
John Tuttle, VP da NYSE, a bolsa de valores de NY.
Foto: NYSE

Portanto, se essas tendências continuarem, estou otimista no segundo semestre do ano, principalmente no que diz respeito à reabertura do mercado de IPOs.”

John Tuttle, vice-presidente da NYSE.

E, mais uma vez, isso é um bom presságio para a formação de capital quando as empresas pretendem abrir o capital através de uma IPO.

Quando se fala em abertura de capital, as empresas querem diminuir o risco tanto quanto possível. E, portanto, ser capaz de ter alguma certeza sobre preços e negociações nas condições de mercado, na medida do possível, é um bom presságio para o mercado de IPO.

Acredito que hoje o mercado oferece condições favoráveis para IPOs. Estou otimista.”

Peso das ‘Big Tech‘ nos índices de ações da NYSE

“Bem, certamente há sete empresas que estão realmente puxando a alta dos índices de ações (para saber mais leia Magnificent 7: quão grande são as big techs?). Dito isso, em 232 anos de história da bolsa de valores de Nova York, vimos muitos ciclos de mercado.

Como mencionei, há muito capital fluindo para as empresas relacionadas à IA, mas também, ao mesmo tempo, há outros setores que apresentam bom desempenho, como é o caso dos citados indústria e energia. Agora, os investidores estão entusiasmados com o futuro. Mas o que realmente dará frutos ainda está para ser visto.

Do nosso lado, estamos entusiasmados em fazer como que a bolsa de Nova York continue sendo uma plataforma para que empresas inovadoras possam ter acesso ao capital para cumprir seus objetivos. Para que elas possam expandir seus negócios, lançar novos produtos, testar novas tecnologias. E, claro, permitir que os investidores participem desse sucesso, investindo nesses negócios.”

ETF de Bitcoin

“Eu e minha equipe trabalhamos por um período de seis anos com a SEC (Securities and Exchange Commission, a CVM dos EUA) nosso principal regulador aqui na bolsa de valores de Nova York, para ajudar a trazer o ETF Bitcoin para o mercado.

Com ele (ETF de Bitcoin), queremos proporcionar mais acesso, mais oportunidades, para mais pessoas, com as proteções e a liquidez dos mercados públicos. Isso é uma coisa boa.

Agora, os investidores podem escolher se colocam ou não o seu dinheiro no Bitcoin ou qualquer outra criptomoeda, ou num ETF de tecnologia relacionada ao blockchain.

Estamos aqui para garantir que esses produtos estejam em um ambiente bem regulamentado. Então, quanto mais pudermos trazer classes de ativos para mercados transparentes e bem regulamentados, melhor será para os investidores.”