Mudança na Petrobras é boa ou ruim? Veja opiniões de analistas de mercado

Investidores estão preocupados com possibilidade de intervenção na política de preços da companhia

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Palácio Petrobras na Avenida Chile, no Rio de Janeiro (Foto: Getty Images)

Na segunda-feira (23), o presidente da Petrobras, José Mauro Ferreira Coelho, foi demitido do cargo por Jair Bolsonaro apenas 40 dias após ser nomeado. No lugar dele, assume Caio Mário Paes de Andrade, atualmente secretário especial de desburocratização da equipe de Paulo Guedes no Ministério da Economia.

Bolsonaro tem criticado duramente a política de preços da Petrobras, que acompanha as cotações do combustível no mercado internacional, pois as fortes altas da gasolina, do gás de cozinha e do diesel neste ano têm contribuído para impulsionar a inflação e ameaçar sua reeleição. Daí a preocupação do mercado financeiro com a troca. A ação preferencial da Petrobras caiu 3,1% no pregão desta terça-feira (24), vendida a R$ 31,60. Foi a mais negociada na B3 hoje.

Conheça as opiniões de analistas de sete instituições financeiras sobre a mudança:

Ativa: “Mudança significa desconforto com política de preços”

A mudança na presidência da Petrobras traz sinais negativos para o mercado, uma vez que simboliza novamente o desconforto do acionista majoritário com a forma como a Petrobras vem tocando a sua política de preços, diz a Ativa Investimentos em relatório. A chegada do novo presidente pode significar a aplicação de política de preços de derivados ainda mais espaçada, abrindo espaço para a vigoração mais perene de preços defasados frente aos praticados no mercado internacional, diz a Ativa.

A corretora afirma ainda que aguardará mais informações para definir se reverá seu posicionamento perante as ações da companhia. A Ativa tem recomendação de compra para as ações preferenciais da Petrobras, com preço-alvo de R$ 41, potencial de alta de 13,26% ante o fechamento de ontem.

XP: “Não é saudável, mas não deve mudar política de preços”

O analista André Vidal escreve que a Lei das Estatais e o estatuto da Petrobras ainda blindam a empresa de subsidiar combustíveis como no passado, independentemente de quem ocupa a posição de diretor-presidente. A instituição também nota que o novo indicado pela União, Caio Paes de Andrade, atual secretário especial de desburocratização é fortemente ligado ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que não é a favor de mudanças na política de preços. “Mesmo com tanto barulho político, ainda vemos o caso da Petrobras como assimétrico, respaldado por um múltiplo muito baixo e um forte fluxo de dividendos”, afirma o analista.

A XP tem recomendação de compra para Petrobras, com preço-alvo em R$ 47,80 para as ações preferenciais, potencial de alta de 32% sobre o fechamento de ontem.

Citi: “Indicação de novo presidente cria riscos em torno de continuidade da estratégia”

A troca de presidentes em apenas 40 dias evidencia a significativa interferência externa à empresa, o que cria riscos em torno de continuidade de sua estratégia de longo prazo, diz o Citi, em relatório. Nos últimos meses, a empresa manteve sua estratégia de desalavancar seu balanço, alocar capital de forma racional de capital, e manter a política de preços de combustíveis alinhada aos mercados internacionais, dizem os analistas Gabriel Barra, Andrés Cardona e Joaquim Alves Atie.

“A nosso ver, esse tripé não só cria um ciclo virtuoso para a empresa, mas também mantém o abastecimento de combustíveis fluindo para o mercado interno, na medida em que o Brasil é um país importador líquido de diesel e gasolina”, escrevem eles. “Agora, o principal ponto de interrogação é o que pode mudar com o novo diretor-presidente. Apesar de vermos a mudança como um sinal negativo, a estatal brasileira ainda possui uma governança corporativa forte e leis que protegem o acionista minoritário contra possíveis intervenções externas. O Citi tem recomendação de compra para os recibos de ações (ADRs) da Petrobras negociadas na Bolsa de Nova York, com preço-alvo de US$ 16,10, abaixo do o fechamento de ontem, de US$ 16,26.

Goldman Sachs: “Mudança na Petrobras aumenta percepção de risco, mas intervenção é improvável”

Uma nova mudança na presidência da Petrobras em pouco mais de um mês aumenta a percepção de risco envolvendo as ações e a política de preços da companhia, diz o Goldman Sachs. Os analistas Bruno Amorim, João Frizo e Guilherme Costa Martins escrevem que, no curto prazo, os estatutos da Petrobras e as leis brasileiras reduzem a probabilidade de intervenção do governo. “Nos mantemos positivos em relação a Petrobras, apesar do fluxo de notícias envolvendo a ação, porque vemos a tese atrativa, com um rendimento de dividendos de 35% em 2022, com espaço limitado para intervenções”, comentam.

O Goldman Sachs tem recomendação de compra para Petrobras, com preço-alvo em R$ 38,80 para as ações ordinárias e R$ 36,10 para as preferenciais, respectivamente, valores 0,7% e 0,3% menores que os fechamentos de ontem.

BTG: “Mudança na Petrobras reforça dificuldade de equilíbrio entre vontade do governo e normas internas”

A nova mudança na presidência da Petrobras reforça a dificuldade de encontrar um ponto de equilíbrio entre os interesses da União e os estatutos internos da companhia, diz o BTG Pactual. O banco acredita que novos aumentos de combustíveis dificilmente serão tolerados, colocando em teste as políticas de preços.

Os analistas Pedro Soares e Thiago Duarte escrevem que Caio Mário Paes de Andrade, o novo indicado para o cargo de diretor-presidente, apesar de ser ligado ao mercado, vai encontrar um dilema: como preservar seu emprego ao mesmo tempo em que obedece as normas internas da Petrobras sem causar uma situação de desabastecimento. Eles notam que até agora os próprios mecanismos da Petrobras impediram mudanças drásticas na política de preços, mas que o governo cada vez mais percebe que absorve todo o impacto político e tem pouco controle sobre as decisões diárias da companhia, o que aumentam os riscos de mudanças mais profundas na Petrobras. “Um investidor mais otimista diria que essa situação favorece a tese da privatização, uma vez que livraria o governo do escrutínio da população sobre seu poder limitado na inflação de combustíveis”, ponderam, destacando que é mais que improvável que isso avance em ano eleitoral.

O BTG Pactual tem recomendação neutra para Petrobras, com preço-alvo em US$ 15 para os recibos de ação (ADRs) negociados na Bolsa de Nova York (Nyse), em linha com o fechamento de ontem.

Credit Suisse: “Alteração no comando da Petrobras gera preocupações por interferência política”

As mudanças recorrentes na presidência da Petrobras aumentam substancialmente a percepção de riscos para a tese de investimento da empresa, principalmente porque as alterações foram anunciadas após os ajustes nos preços domésticos de combustíveis, diz o Credit Suisse, em relatório.

Eles afirmam que, no curto prazo, não esperam alterações significativas na política de preços ou na estratégia geral da empresa focada em águas ultraprofundas e pré-sal.

O Credit Suisse manteve sua recomendação de compra para os recibos de ações (ADRs) da Petrobras negociadas na Bolsa de Nova York, com preço-alvo de US$ 17, potencial de alta de 4,55% ante o fechamento de ontem.

UBS BB: “Troca na presidência da Petrobras é movimento político e não afeta estratégia de preços”

Segundo o UBS BB, a troca na presidência da Petrobras tem caráter político e não deve gerar alterações na estratégia de preços da companhia. O banco destaca que do ponto de vista de governança a troca é ruim, uma vez que Caio Mário Paes de Andrade vai se tornar o terceiro diretor-presidente em um ano.

Os analistas Luiz Carvalho, Matheus Enfeldt e Tasso Vasconcellos escrevem que a troca tem papel para sinalizar à população que o “governo está trabalhando” na questão dos combustíveis, assim como na mudança do ministro de Minas e Energia. Os mecanismos internos da Petrobras impedem mudanças na política de preços no curto prazo.

O fato de o mandato de Paes de Andrade ser potencialmente curto, com as eleições presidenciais em outubro, devem impedir mudanças drásticas nas políticas da companhia, diz o banco, levando em conta o risco em potencial de responsabilização dessas modificações.

Um ponto que os analistas chamam atenção é novo alinhamento da empresa com o ministro da Economia, Paulo Guedes, mas notam que o nome de Paes de Andrade pode encontrar resistência interna na Petrobras uma vez que ele pode não atender aos requisitos necessários para o cargo.

O UBS BB tem recomendação de compra para Petrobras, com preço-alvo em R$ 45 para as ações preferenciais. Há pouco, os papéis tinham queda de 4,82%, cotados a R$ 30,98.

Mirae Asset: “Mudança na política de preços da Petrobras é improvável com troca na presidência”

Uma mudança na política de preços da Petrobras não é provável, após a troca no comando da companhia anunciada ontem, diz a Mirae Asset. A casa diz que o governo pode fazer mais mudanças na diretoria e no conselho de administração da estatal.

O analista Pedro Galdi diz que as ações serão influenciadas hoje, uma vez que a discussão gira em torno da política de preços da Petrobras, que segue a referência do Brent como parâmetro. Ele pondera, ainda, se Caio Mario Paes de Andrade, o indicado pela União para ocupar o cargo, atende às exigências da lei da estatais, como a que prevê experiência no setor.

A Mirae Asset tem recomendação de compra para Petrobras, com preço-alvo em R$ 41,37 para as ações preferenciais, potencial de alta de 14% sobre o fechamento de ontem.

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