Com escalada dos juros, bancos digitais enfrentam primeiro ‘teste de estresse’

Entenda por que o cenário atual dificulta modelo de negócio das fintechs

Foto: Divulgação

Os bancos digitais, que tiveram forte expansão nos últimos anos, ameaçando a até então hegemonia dos “bancões” brasileiros. Agora, enfrentam o seu primeiro “teste de estresse”. Com a forte alta de juros nos últimos meses, seu modelo de negócios, ancorado em expansão da base de clientes com ofertas agressivas de serviços sem tarifas, se torna mais difícil de ser sustentado.

Hoje, dia de ‘Super quarta’, quando estão reunidos os economistas do Banco Central e do Fed, nos EUA, o mercado espera nova alta dos juros. A Selic, a taxa básica de juros brasileira, deve subir de 11,75% para 12,75% ao ano. Nos Estados Unidos se espera uma alta de 0,50 ponto percentual nos juros, elevando as taxas anuais de 0,25% a 0,50% para 0,75% a 1,00%.

Neste contexto, o custo das fintechs captarem recursos aumenta, com a subida dos juros. E o consumidor fica mais arredio a compras no cartão de crédito, principal porta de entrada dos bancos digitais para conquistar clientes. A expectativa de alta na inadimplência é um dos fatores que explica a derrocada das ações do Nubank.

Nos últimos 12 meses, quando a Selic saltou de 2,75% para 11,75%, ações dos bancos digitais tiveram fortes quedas. As Units do Banco Inter caíram 80,97%, as BDRs do PagSeguro tiveram queda de 68,08% no mesmo período, e as da Stone, de 84,95%.

O Nubank teve em 2021 receita total de US$1,7 bilhão, estabelecendo um novo recorde para a companhia, com alta de 130,4%. As despesas operacionais também cresceram, totalizando US$ 903 milhões, crescimento de 115,6% na comparação anual.

O Nubank abriu capital na Bolsa de Nova York somente em dezembro de 2021. De janeiro para cá, as ações contraíram 41,58%.

Ancoradas na oferta de cartão de crédito

Se as taxas de juros em alta ampliam os ganhos dos bancos tradicionais em suas operações de crédito, como empréstimo pessoal e outros, o mesmo não vale para os bancos digitais. Essas fintechs estão ancoradas sobretudo na oferta de cartão de crédito e sofrem em momentos como o atual, de queda no consumo.

“Esse tipo de fintech ganha através de taxa paga pelo estabelecimento (onde é feita a compra no cartão). Quando o consumidor passa o cartão em um restaurante, o estabelecimento paga uma taxa, que é repassada para a bandeira e para o banco emissor. O consumidor final só tem o benefício. A redução do uso do aplicativo faz com que eles percam na ponta”, disse ao Globo Marcus Martins, head de Renda Variável da Saron Investments.

Por outro lado, os juros em alta aumentam os custos dos bancos digitais, que precisam pagar taxas maiores para captar recursos no mercado e financiar suas operações. Os números aparecem nos balanços dessas empresas.

Empresas de meios de pagamento na berlinda

As despesas financeiras da Stone, de meios de pagamento, triplicaram no ano passado em comparação com o anterior, indo para R$ 1,27 bilhão. As receitas, por sua vez, cresceram pouco mais de 14%, para R$ 1,88 bilhão.

A concorrente, PagSeguro, registrou despesas financeiras seis vezes maiores, num total de R$ 790,6 milhões em 2021. A receita aumentou cerca de 60%, para R$ 3,7 bilhões. O Nubank, por sua vez, teve aumentos de custos financeiros e da receita semelhantes.

Com perspectiva de a taxa básica de juros seguir em alta e chegar até a 13,75%, ficará ainda mais difícil para os bancos digitais oferecerem taxas competitivas em empréstimos sem comprometer as já apertadas margens de lucro. Gustavo Spinola, estrategista chefe da RB investimentos, diz que a preocupação não é só com o mercado interno. “Fica mais difícil captar recursos, até mesmo capital estrangeiro. Eles vão ter que prometer um retorno maior. Além disso, o tomador de crédito pensa duas vezes antes de se endividar”, diz.

Spinola lembra que, enquanto os bancões fizeram provisões (reserva de recursos para possíveis perdas) maiores em 2020 e 2021, as fintechs operaram de forma mais arriscada. Agora, vão ter que aumentar a reserva de dinheiro para cobrir gastos de eventuais clientes inadimplentes.

“Esse é um momento difícil para as fintechs. Aquelas que tiverem mais acesso a capital e forem mais eficientes para lidar com a crise vão sobreviver e ficar mais fortes” diz Elaine Borges, professora de Finanças da USP.

Com conteúdo do jornal digital O Globo


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