Bolsa do Japão tem forte alta em 2023; saiba como investir no país a partir do Brasil

Principal índice de ações do país, Nikkei 225 subiu quase 30% no primeiro semestre de 2023

A bolsa do Japão passou por um boom inesperado neste ano e tem empolgado os analistas brasileiros. Principal índice de ações do país, o Nikkei 225 apresentou uma das maiores rentabilidades entre os principais mercados desenvolvidos no primeiro semestre de 2023.

O Nikkei 225, que reúne as maiores empresas nipônicas com ações negociadas na bolsa de Tóquio, não registrava uma alta tão expressiva havia anos. A seguir, confira os números que tem impressionado os analistas e veja como investir no país asiático.   

Os números da bolsa do Japão   

No primeiro semestre deste ano, o Nikkei 225 subiu impressionantes 27,2%. Isso se deve em grande parte por conta de investidores internacionais apostando em ações de empresas japonesas.    

O índice ficou atrás somente do Nasdaq, que engloba as maiores empresas de tecnologia dos EUA e que avançou 31,7% entre janeiro e junho. Apesar da queda de -1,67% em agosto, o Nikkei 225 acumula alta de 25% no ano e 16,12% em 12 meses.

Já o Ibovespa, o índice da bolsa brasileira, encerrou o primeiro semestre deste ano em alta de 7,61%.

Crescimento salarial 

A política de estímulos do Banco do Japão (BoJ, o banco central local), associada ao ambiente inflacionário global, parece estar surtindo efeito ao projetar um novo momento para a dinâmica de preços no país asiático. Isso pode deixar para trás o fantasma da deflação, que há décadas assombra o arquipélago.

Na última terça-feira (29), o governo japonês informou que o forte crescimento salarial, entre outros dados positivos, pode tirar o país da estagnação econômica.    

“O Japão tem visto os aumentos de preços e salários se ampliarem desde a primavera de 2022. Essas mudanças sugerem que a economia está chegando a um ponto de inflexão em sua batalha de 25 anos contra a deflação”, disse o governo em seu relatório econômico anual.    

“A inflação mais alta e o crescimento de salários alimentam as pessoas a comprarem mais, a girarem mais a economia, um dos grandes desafios dos últimos anos. Portanto, a gente segue bem confiante em relação ao Japão”, avalia Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos. 

Política monetária

Mateus Hachul, especialista de portfólio da Itaú Asset, destaca que o BoJ vem realizando alterações em sua condução de política monetária. De acordo com Hachul, uma das suas ferramentas de atuação é o controle da curva de juros, cujo objetivo era estimular a economia, controlando as taxas de juros em determinados valores para determinados vencimentos.   

“Esta política tem sido modificada gradualmente no sentido de começar a abrir espaço para uma atuação frente a uma taxa de inflação um pouco mais elevada do que o usual. Acreditamos que o Banco do Japão será paciente, mas reagirá com agilidade às perspectivas. Dado o cenário de crescimento salarial firme e de inflação subjacente mais elevada, esperamos novos ajustes na estratégia de controle da curva. O BC pretende ver um ciclo virtuoso, aumentando a sua confiança de que a inflação está ancorada”, pontua o especialista de portfólio da Itaú Asset.   

Entenda o boom da Bolsa do Japão 

William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue e colunista da Inteligência Financeira, lista quatro motivos para a valorização da bolsa do Japão. Confira:

1- Bolsa do Japão estava barata

De acordo com Alves, a bolsa do Japão estava barata, “olhando para múltiplos, relação preço-lucro, relação preço-valor de patrimônio, preço-vendas, enfim, algumas comparações”. “Ela se parecia mais barata dentro do universo de mercado desenvolvido, mais barata que a bolsa americana, mais barata que a bolsa europeia. Isso antes dessa alta”, afirma o especialista.  

2 – Desvalorização do iene

O estrategista-chefe da Avenue cita ainda a desvalorização do ine japonês em 2022 como outro motivo para a alta da bolsa do Japão. Isso torna “as empresas japonesas mais competitivas no cenário interno, sendo que várias delas se relacionam diretamente através de exportações”. “A exportação para a economia japonesa é algo relevante. Então, essa desvalorização do iene japonês ajudou, e obviamente isso foi sendo antecipado com perspectivas de receitas e resultados melhores, com ações performando e já antecipando isso”, salienta Alves.  

3 – Terreno neutro

De acordo com estrategista-chefe da Avenue, em “um mundo complicado do ponto de vista geopolítico”, o Japão é um terreno relativamente neutro. Em outras palavras, é “uma alternativa relativamente segura de alocação em meio a um mundo em que você vê Estados Unidos e China numa nova guerra fria, ou ainda a Europa de fato numa guerra, vivendo os riscos de uma guerra, especialmente do ponto de vista de fornecimento de energia”.

4 – Exposição à China de forma segura

Por fim, Alves pontua que o Japão é uma forma mais segura de se expor ao crescimento chinês, dado que há cadeias de produção e conexões na Ásia relevantes. “Vale lembrar que a Ásia hoje abarca dois terços da população mundial e, com a perspectiva de a China voltar a crescer, isso acabaria influenciando positivamente a região como um todo. Consequentemente, o Japão seria uma alternativa mais segura de um mercado desenvolvido, não emergente, de você se expor a esse crescimento chinês, quase como numa segunda derivada”, diz o estrategista-chefe da Avenue.

Efeito Warren Buffett na bolsa do Japão

Há outro fator fundamental para explicar a valorização da bolsa do Japão: a empolgação do megainvestidor norte-americano Warren Buffett com empresas de países asiáticos.   

Em maio, o bilionário revelou que comprou ações de cinco empresas japonesas: Itochu, Marubeni, Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo. Logo, esse anúncio contribuiu para uma forte onda de compras de investidores estrangeiros no mercado de ações do Japão na sequência.   

Buffett justificou sua decisão argumentando que as cinco empresas japonesas eram “ridiculamente” baratas. Além disso, o magnata as avaliou como bem estabelecidas, focadas no longo prazo e grandes o suficiente para gerar bons retornos.   

Pontos de atenção 

Mas nem tudo são flores quando o tema é investimento no Japão. De acordo com William Castro Alves, da Avenue, o ponto principal de risco está no crescimento. O especialista lembra que “o Japão cresce pouco, com uma demografia que limita muito o potencial de desenvolvimento”.

“A população japonesa vem diminuindo. Você conseguiria corrigir isso através de uma imigração, mas não é o caso. Então, com a população diminuindo e mais pessoas mais velhas, há menos consumo. Tudo isso faz com que o Japão dependa do comércio exterior para crescer via exportações”, destaca Alves.  

Além disso, o estrategista-chefe da Avenue salienta que o Japão perdeu o posto de principal força geopolítica da região para a China. Isso, de acordo com o especialista, pode resultar em menos investimentos estratégicos e menos potencial de parceria para uma economia que precisa das exportações para crescer.

Por fim, Alves destaca que o Japão teve algumas mudanças de política monetária, que ficou muito restritiva durante muito tempo. Nesse sentido, o país precisaria se provar capaz de sustentar esse crescimento a médio prazo.

“Acho que existem alguns desafios, alguns riscos, que não são desprezíveis para quem pensa em investir no Japão no longo prazo. Eu diria que, em especial, essa questão do crescimento é algo relevante”, resume o especialista.

Como investir no Japão  

Existem algumas opções disponíveis ao investidor brasileiro interessado em expor uma parte da carteira ao mercado do Japão. Confira a seguir.  

ETFs e fundos de investimento  

Investir em ETFs que tenham exposição ao Japão é a principal opção citada pelos especialistas. “A melhor forma é através de veículos diversificados, seja o ETF, seja através de um fundo com uma gestão ativa, e não necessariamente através de algumas ADRs japonesas que possuem capital negociado na bolsa americana”, sugere Alves, sem citar produtos específicos.

O Itaú, por exemplo, oferece em sua plataforma o Itaú Index Ações Japão JPY IE FICFI, fundo que busca dar acesso ao mercado acionário japonês de forma indexada. “Hoje o portfólio consegue exposição a mais de 1.000 papéis. Dado o perfil da economia japonesa, os principais setores do fundo são industriais, consumo discricionário e tecnologia. A estratégia também oferece exposição cambial ao iene versus o real”, explica Caíque Cardoso, especialista de portfólio da Itaú Asset.

BDRs  

A outra forma de investir no Japão é por meio de BDRs, certificados de depósito emitidos e negociados no Brasil que representam ações de empresas listadas em bolsas de outros países. De acordo com Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, há no Brasil seis opções: Toyota (TMCO34), Canon (CAJI34), Honda (HOND34), Nomura (NMRH34), Sony (SNEC34) e Takeda (TAKP34).

ADRs  

Para quem tem conta nos EUA, há uma lista gigantesca de empresas japonesas de capital aberto que podem ser acessadas via ADRs, recibos que as empresas não americanas oferecem nas bolsas de valores norte-americana. Assim, acabam atraindo não só investidores americanos, mas também de outros países, como o Brasil.

Quais empresas estão em alta na bolsa do Japão?

Em linhas gerais, as empresas japonesas são bem capitalizadas, com baixo endividamento, de acordo com o estrategista-chefe da Avenue. “Muitas dessas empresas já têm uma forte participação da robótica no seu processo produtivo e já investem em inteligência artificial. É uma economia em que as empresas têm uma capacidade de desenvolvimento tecnológico elevado e são competitivas na cena externa”, avalia William Castro Alves.

Na avaliação de Caíque Cardoso, especialista de portfólio da Itaú Asset, em 2023, os setores com maiores retornos positivos foram tecnologia, energia e consumo discricionário. De acordo com o especialistas, as ações com maior destaque no ano (até 24/08) na bolsa do Japão foram a Kobe Steel (empresa do setor de aço) e Advantest (tecnologia), ambas com retorno de três dígitos. “Vale mencionar também a performance positiva, no mesmo período, de Toyota e Tokyo Electron, que apresentam peso relevante no fundo Itaú Index Ações Japão JPY IE FICFI”, completa Cardoso.