Haddad obteve apoio dos banqueiros, mas Faria Lima vai retomar Lua de Mel?

Ao longo da semana, todos os principais apoios recebidos pelo ministro vieram de figuras externas ao núcleo de poder do governo

O ministro da Fazenda Fernando Haddad encerrou sua pior semana desde o início do governo ao lado dos principais banqueiros do país. O encontro aconteceu, na sexta-feira (14), no escritório do Ministério da Fazenda, na avenida Paulista, em São Paulo. Durante uma hora e meia, Haddad recebeu o apoio necessário para prosseguir com sua tentativa de equilibrar as contas públicas.

Estiveram na reunião com Haddad nomes como o presidente do conselho da Febraban, Luiz Trabuco; o presidente do Conselho de Administração do BTG Pactual, André Esteves; o CEO do Itaú, Milton Maluhy, e o CEO do Bradesco, Marcelo Noronha. Além do presidente da Febraban, Isaac Sidney.

“Saímos convencidos desse encontro de que o ministro Haddad não só está determinado a buscar o equilíbrio das contas do governo, [como] para também expandir esse diálogo para o Congresso Nacional, e com todo o empresariado brasileiro”, disse Isaac Sidney após a reunião.

Mas será que o apoio dos banqueiros é suficiente para fazer a Faria Lima retomar a lua de mel com o ministro Haddad?

A terrível quarta-feira

A percepção de que o mercado financeiro desembarcou do bonde do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vinha crescendo nos últimos tempos, mas ficou evidente na última quarta-feira (12).

Nesse dia, tudo jogava a favor dos mercados, com direito a leitura positiva da inflação americana (CPI), com resultado abaixo das expectativas. E, como cereja do bolo, acabou bem uma reunião do Fed (o banco central dos Estados Unidos) para manutenção de taxa de juros, com um comunicado absolutamente dentro do script.

Como consequência, os índices S&P 500 e Nasdaq encerram o pregão de quarta batendo novos recordes, pelo terceiro dia consecutivo.

No Brasil, porém, o Ibovespa caiu 1,40%, descendo ao menor nível de 2024.

Enquanto isso, o dólar voltou a disparar, negociado a R$ 5,406. Na renda fixa, a NTN-B com vencimento em 2026 subiu de IPCA + 6,41%, da véspera, para IPCA + 6,44%, do fechamento de quarta-feira.

Lembrando que o IPCA + 6% que se via semanas atrás já era tratado como uma taxa alta demais pelos traders. “Uma taxa surreal”, nas palavras de Gilberto Kfouri, responsável por renda fixa e pelos multimercados do BNP Paribas, levando em consideração as projeções para o Brasil.

Caldo azedou para Fernando Haddad

Mas o que aconteceu nos últimos dias é que, de fato, os agentes que operam o mercado financeiro perderam a paciência com o governo. Em especial com quem vinha sendo tratado como o fiel depositário da política econômica do presidente Lula, Fernando Haddad.

Assim, o ministro da Fazenda não tem conseguido reeditar em 2024 os sucessos registrados em 2023, ano em que vendeu uma política de ajuste fiscal que agradou o mercado financeiro. Em seu discurso, o ajuste seria feito a partir da redução de gastos e do aumento da arrecadação, música para os ouvidos dos gestores.

Pegou mal

Mas as coisas mudaram em 2024.

Já havia pegado mal o envio da medida provisória para a reoneração da folha de pagamento de 17 setores. O texto foi protocolado no dia 28 de dezembro de 2023, sem comunicação prévia ao Congresso. A pauta ficou parada na Câmara dos Deputados e o governo não obteve o sucesso que esperava. O resultado foi a perda de R$ 26,3 bilhões com essa desoneração.

Então, o que estava estranho ficou um pouco pior com a mudança da meta fiscal para 2024 e 2025. O mercado entendeu que a medida, mais leniente com os gastos crescentes do governo, enfraquecia o recém-criado arcabouço fiscal.

Mas, na percepção do mercado financeiro, a bigorna do mau-humor caiu sobre a cabeça de Fernando Haddad no começo de junho, quando o ministro enviou ao Congresso uma nova MP, de novo sem coordenação política necessária, que altera as regras do uso de crédito do PIS e da Cofins, atingindo diversos setores da economia.

Empresários de peso, como Rubens Ometto, presidente da Cosan (CSAN3), esbravejaram publicamente contra a medida, que afeta diretamente seus negócios.

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O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), conversou com jornalistas Foto: Roque de Sá/Agência Senado

E o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, devolveu ao governo parte da medida. O gesto de Pacheco causou constrangimento para Lula, Haddad e a equipe econômica da Fazenda.

Uma das piores medidas

Na opinião de Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo Investimentos, o que se sucedeu a partir da MP do PIS e da Cofins “tirou o prestígio de Fernando Haddad”. Foi a gota d’água em um processo que já vinha se deteriorando há algum tempo.

“A MP é uma pedalada, não tem garantia de aumento de arrecadação permanente, desajusta todo o setor produtivo de diversas cadeias. Enfim, é uma das piores medidas tecnicamente que eu já vi na minha vida”, diz o gestor que administra R$ 28,5 bilhões,

Não há movimento contra Fernando Haddad

Para Woelz, no entanto, não existe um movimento coordenado do mercado contra o governo. Mas o governo passa por um momento crucial.

“O arcabouço é muito frouxo. Mas mesmo o arcabouço frouxo está batendo no limite. Então, não tem espaço para renegociar sem piora significativa de cenário, por que ele já gera uma trajetória de dívida péssima mesmo sendo cumprido”, destaca.

Ainda para o gestor da Kapitalo, o governo não tem alternativa a não ser mudar sua atual política fiscal.

“O governo Lula pode reclamar, chorar que os agentes econômicos estão sendo malvados, que o Congresso não ajuda. Mas ou ajusta ou vai enfrentar uma desconfiança sobre a trajetória fiscal”, afirma.

Curva de juros atrapalhou empresas

Numa ponta da Faria Lima que se comunica diretamente com a economia real, a Intrabank, uma asset que securitiza dívida de empresas de médio porte e estrutura FDICs, Thiago Figueiredo, que é diretor de investimentos, conta que a situação vem se deteriorando há pelo menos quatro meses.

“A gente tem observado uma piora grande com relação a toda aquela projeção de crescimento que as empresas estavam vendendo aqui pra gente”, conta ele, que empresta dinheiro para empresas com faturamento anual de R$ 300 milhões a R$ 1 bilhão.

“Elas esperavam crescer 10%, 15% em 2024. E montaram seus planos para isso. Mas isso, até agora, não está acontecendo”, diz.

Segundo ele, as empresas estão alavancadas. E as despesas financeiras, com taxa de juros Selic a 10,50%, sem perspectiva de forte redução, estão comendo boa parte da margem de lucro desses negócios.

Figueiredo dá como exemplo os empresários que faturam até R$ 300 milhões e, durante a pandemia, recorreram às linhas do BNDES FGI (Fundo Garantidor para Investimento). Foram concedidas com subsídio para reforçar o capital de giro das pequenas e médias empresas.

“Todas essas empresas passaram pela Faria Lima na pandemia e foram raspando tudo de FGI dos bancos. Agora, que estão vencendo as parcelas, estão com dificuldade para pagar”, conta.

Sem dinheiro para pagar juros

Agora, os empresários estão batendo nas portas de Thiago Figueiredo pedindo dinheiro e alongamento nos prazos. “Quem pedia 12 meses, agora está pedindo 20 meses. O que a gente mais faz hoje é negar essas linhas”.

Na opinião do gestor da Intrabank, o setor produtivo se organizou esperando por uma trajetória de queda da taxa de juros Selic mais forte que a atual.

“Nesse faturamento de R$ 300 milhões a R$ 1 bilhão, o cara que não vingou. E não é ele, a própria economia não está vingando”, afirma.

Não é só Fernando Haddad

Marcela Rocha, economista-chefe da Principal Claritas, conta que, neste momento, não resta a Fernando Haddad mostrar disposição para corte de gastos, como dito nesta quinta-feira (13), em Brasília.

Pressionado, o ministro disse que o governo vai colocar propostas na mesa e manter um ritmo mais intenso de trabalho sobre a agenda de gastos. Disse que irá fazer uma revisão ampla de despesas.

“Não são apenas os gastos. Esse governo nunca teve um cristal de credibilidade com o mercado. Mas o pouco que tinha, se quebrou”, destaca. “É preciso subir um degrau na relação com o mercado”.

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Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Para ela, o trabalho de bombeiro do governo vai passar, agora, por uma série de ações. A primeira dela é esperada já na próxima semana, durante a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC).

Primeiro sinal teria de vir do BC

“Desde a última reunião do Copom, houve uma maior dúvida sobre como vai ser a condução da política monetária quando o Lula indicar o novo presidente do Banco Central”, diz. O mandato do atual líder da autarquia, Roberto Campo Neto, termina no próximo dia 31 de dezembro. Gabriel Galípolo é o principal cotado para a sucessão.

Dessa maneira, Marcela Rocha acredita que a decisão dividida do BC entre cortar 0,25 p.p e 0,50 p.p da taxa de juros Selic abriu uma discussão sobre qual deve ser a rigidez do órgão a partir de janeiro sobre a política monetária.

“Para a gente conseguir ter uma melhora do humor, precisaria que o Banco Central não cortasse mais os juros, decidirem por manutenção da Selic em 10,50%. Precisaria ser uma reunião com um consenso. Os membros que votaram de maneira diferente na última reunião, precisariam votar junto com os outros cinco membros pela manutenção”, ela destaca.

União do governo

Adicionalmente, a economista também lembra que o governo precisa demonstrar uma união em torno do projeto de Fernando Haddad, com o endosso do presidente Lula e do responsável pela articulação do governo com o Congresso, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais.

O que se sabe, porém, é que ao longo da semana, todos os principais apoios recebidos pelo ministro vieram de figuras externas ao núcleo de poder do governo.

“Outro ponto pra retomar essa confiança é o governo encontrar outra alternativa para compensar a desoneração da folha dos 17 setores. A gente já viu que o caminho da MP é que não deve ser seguido”, diz ela.

Por fim, ela sustenta que o governo precisa iniciar um debate sobre cortes de gastos. “Essa questão começou a ser debatida há menos de uma semana. Ela é super delicada, é importante. Até agora a gente ainda não consegue saber qual a batalha que a equipe econômica vai comprar”, conta.

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