Rentabilidade de 5% ao mês? É até possível chegar lá, mas é preciso muito cuidado

Analistas falam sobre as chances de obter esse nível de retorno e todos os riscos envolvidos

O BDRX, índice de certificados de ações estrangeiras (BDR) na B3, teve rentabilidade de mais de 5% ao mês nos últimos seis meses. Com isso, o índice de BDRs se soma ao bitcoin – que subiu 11% no período – entre os ativos que mais se valorizaram desde o início do ano.

Apesar dos ganhos expressivos, há muito risco envolvido e sem muitas garantias de que o desempenho será mantido. O alerta é de analistas de mercado ouvidos pela Inteligência Financeira.

Cassiana Garcia, planejadora financeira e sócia-fundadora da The Hill Capital explica que é “extremamente difícil e arriscado alcançar esse tipo de rendimento”, especialmente no longo prazo.

Tulio Menezes, gestor de Recursos CGA do Grupo Fractal, diz que esse tipo de retorno “é raríssimo”. Além disso, retornos nesse patamar acabam virando, de maneira incorreta, parâmetro para muitos investidores. Isso porque o tema tem alto poder de atrair a atenção do público amplo, especialmente nas redes sociais.

“O que mais dá dinheiro fácil hoje é vender a promessa de dinheiro fácil”, sentencia Menezes. Ele destaca o fato de haver crescimento exponencial de coaches vendendo cursos supostamente ensinando a investir e obter retornos nos patamares que esses investimentos – fora da curva – pagaram recentemente.

Afinal, existe rentabilidade de 5% ao mês?

Sim. A grande questão é que no longo prazo é muito difícil manter essa rentabilidade. “Normalmente investimentos que rendem 3%, 4% ou 5% ao mês são mais arrojados e, consequentemente, trazem volatilidade, ou seja, tem grande oscilação. E é muito difícil pensar num rendimento médio de 5% ao mês, de forma constante”, ressalta Menezes.

Nos últimos seis meses, por exemplo, o bitcoin subiu quase 70%, o que dá rentabilidade acima de 11% ao mês.

O BDRX, índice de certificados de ações estrangeiras vendidas na bolsa de valores de São Paulo (BDR), teve rendimento de quase 35% no mesmo período, média de 5,83% ao mês. Esse índice têm se valorizado principalmente por conta do setor de tecnologia dos Estados Unidos.

O S&P 500 e o Nasdaq, índices da bolsa de NY que contemplam algumas das ações do setor de tecnologia, estão nas máximas históricas.

O levantamento das rentabilidades foi feito por Einar Rivero, sócio-fundador da Elos Ayta Consultoria.

Mas rentabilidade passada não significa rentabilidade futura. Inclusive, pode indicar o contrário, tendo em vista que, quanto mais tempo em valorização, mais perto o ativo está de começar a cair. Por isso, entrar na crista da onda pode significar um risco ainda mais elevado.

Rendimentos de 2023 colocam teoria à prova?

Em 2023, o bitcoin foi o investimento com a maior rentabilidade entre os negociados no Brasil: alta de 157%. Ou mais de 13% ao mês.

Parece uma maravilha. E é mesmo, enquanto dura. Mas vale lembrar que em 2022 o cenário foi o aposto. O bitcoin perdeu dois terços do seu valor de mercado, caindo de R$ 260 mil para R$ 86 mil.

“Este é um mercado conhecido por sua alta volatilidade e, às vezes, retornos espetaculares em curtos períodos. No entanto, a média de 5% ao mês a longo prazo é insustentável devido à volatilidade extrema e aos riscos associados”, ressalta Cassiana.

Ainda assim, os analistas dizem que o ciclo de alta do bitcoin deve continuar neste ano. Especialmente por causa da crescente aceitação das criptomoedas por bancos, investidores, consumidores e autoridades. Isso tem trazido alguma segurança para o mercado e elevado a procura por esses ativos.

Como investir para tentar obter rentabilidade de 5% ao mês ou superior?

A natureza especulativa do mercado de renda variável aponta que grandes oscilações de preço são prováveis. Assim, quedas abruptas ao longo do caminho podem fazer com que os investidores realizem prejuízos por medo de um ciclo de queda mais extenso.

Por isso, a exposição a esses ativos deve ser pensada com calma. “Uma fatia do capital dedicada deve ser aquela que ele pode esquecer por um bom tempo. Não pode, jamais, ser uma reserva de emergência”, alerta Menezes.

Assim, “investidores devem considerar suas tolerâncias ao risco e diversificar suas carteiras”, acrescenta Cassiana. Além disso, para o mercado cripto, ela ressalta a importância de “manter-se informado sobre os desenvolvimentos no mercado”. Isso porque há lançamento de novos criptoativos com base nos projetos originais, como o bitcoin.

Você conhece o FOMO?

“O FOMO (Fear of Missing Out), ou medo de ficar de fora, faz parte do conjunto de principais motivos de as pessoas tomarem decisões financeiras precipitadas”, diz a psicóloga e educadora financeira Ana Paula Hornos.

“Este impulso de comparar-se a outros (que supostamente estão tendo bons desempenhos no mercado financeiro) pode ofuscar o julgamento crítico”, avalia a psicóloga.

Além disso, ela relaciona o excesso de confiança com decisões de investimento pouco criteriosas. “Isso faz com que indivíduos superestimem suas habilidades de investimento, enquanto o viés de confirmação leva as pessoas a buscarem informações que apenas confirmem suas crenças”, detalha.

Ela acrescenta também a desinformação como um fator que empurra as pessoas para o erro. Essas desinformações quando encontram um investidor impulsivo contribuem para decisões precipitadas, “seja pela pressão externa” relacionada ao FOMO, “ou pelo desespero financeiro” de quem está endividado ou quer ganho rápido a qualquer preço.

O que fazer diante da promessa de rentabilidade de 5% ao mês ou superior?

Então, investimentos que prometem 5% ao mês ou mais – no melhor dos casos – envolvem riscos significativos. No pior dos mundos, trata-se de esquemas fraudulentos.

Por isso, o primeiro remédio é suspeitar. “Em caso de renda fixa, por exemplo, seguramente há um risco de crédito muito elevado, com poucas e fracas garantias, e neste caso, se o crédito der default, o investidor perde tudo”, destaca Cassiana.

“Recomendo que os investidores sejam céticos em relação a qualquer oportunidade que prometa tais retornos. Além disso, devem focar em estratégias de investimento mais realistas e sustentáveis, alinhadas com objetivos financeiros e perfil de risco”, acrescenta a especialista.

Além disso, é preciso estudar e ter planejamento financeiro para saber onde se deseja chegar e quais as ferramentas para isso.

Por fim, é necessário domar as emoções.

“Desenvolver a disciplina emocional e praticar o autocontrole são fundamentais para não tomar decisões impulsivas”, acrescenta Ana Paula.  

Como saber qual rentabilidade é factível?

Acompanhar os indexadores ou índices é a melhor maneira de observar quanto o mercado está pagando pelos investimentos mais tradicionais.

Isso vai servir para balizar o desempenho de outros investimentos, em especial, de renda fixa.

Na renda fixa, por exemplo, CDI e Selic são alguns dos índices que devem ser acompanhados de perto. Isso porque são eles que na maioria das vezes definem a rentabilidade dos ativos.  

“E não tem segredo, sempre que ganhamos acima desses indicadores é porque algum tipo de risco foi adicionado à carteira, podendo ele ser risco de crédito, liquidez ou risco de mercado”, destaca Cassiana.

Assim, na renda fixa, os títulos públicos, CDBs, LCIs/LCAs raramente oferecem retornos tão altos. O indicador de comparação mais comum é a Selic.

Na renda variável, as ações podem oferecer retornos elevados, mas são altamente voláteis. Por isso, é mais difícil de mensurar os ganhos. Ainda assim, há indicadores para ficar atento. O mais utilizado é o Ibovespa.

Além disso, há os fundos imobiliários na renda variável, que podem oferecer bons retornos, especialmente durante aquecimento do mercado imobiliário. O indicador de referência para acompanhar esse mercado é o Ifix.

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