O que o caso Americanas ensina sobre crédito privado aos investidores?

Categoria era vista como uma alternativa com risco baixo

A crise da Americanas fez os fundos de crédito privado populares registrarem perdas e deixou ensinamentos importantes. Investidores pequenos enxergavam a categoria como uma alternativa com baixo risco, já que é de renda fixa, para ganhar acima do Tesouro Direto, quando a taxa de juros estava na mínima de 2% ao ano.

A modalidade atraiu ainda mais gente com a alta da Selic até 13,75% ao ano, mas o caso da varejista mostrou que o risco de prejuízo é maior do que muitos imaginavam.

O que são os fundos de crédito privado?

Os fundos de crédito privado compram títulos emitidos por companhias para se financiarem, como as debêntures.

O preço desses papéis oscila conforme os acontecimentos das empresas e o cenário econômico.

Quando uma companhia ou a economia sofrem algum problema grande e inesperado, o valor desses ativos pode desabar.

O que aconteceu com as debêntures da Americanas?

As debêntures da Americanas viram seu valor despencar 90% em janeiro. Muitos fundos de crédito privado tinham esses títulos na carteira e acabaram sofrendo.

Os fundos tiveram quedas bem menores do que os papéis em si porque diversificam a carteira, mas as perdas assustaram investidores.

Os fundos de crédito privado mais populares registraram prejuízo de até 1,40% entre 12 e 20 de janeiro, ápice da crise da varejista, e de até 0,56% no mês passado, conforme um levantamento de Marcelo d´Agosto, consultor financeiro e responsável pelo Guia de Fundos do Valor e do Valor Investe.

Contudo, boa parte deles teve retorno acima do CDI, indicador de referência parecido com a Selic, nos últimos 18 meses.

“A lição que fica é que a maior parte desses fundos dá retorno acima do CDI no longo prazo, mas para isso eles compram títulos mais arriscados do que os do Tesouro Direto e podem perder no caminho. Às vezes essa história toda não é contada para os investidores, que só recebem a informação de que o produto vai render mais que o CDI e ficam perdidos quando os prejuízos acontecem.”

Marcelo D’Agosto, consultor financeiro

O que pode acontecer com os fundos de crédito privado?

“É certo que alguma crise vai acontecer em um horizonte de cinco anos e não dá para cravar em quanto tempo os fundos vão se recuperar. Pode ser devagar ou rápido”, diz Marcelo D’Agosto.

Apesar de os fundos de crédito privados não chacoalharem tanto quanto as ações, eles oscilam também. E embora a fraude da Americanas seja considerada por muitos como a maior de todas, crises acontecem de tempos em tempos.

O que aconteceu com as debêntures da Samarco e da Oi?

O rompimento da barragem em Mariana causou perdas nas debêntures da mineradora Samarco em 2015, por exemplo.

Já o pedido de recuperação judicial da companhia de telecomunicações Oi desencadeou quedas nos títulos em 2016, e tudo indica que haverá um novo pedido.

Nos últimos dias, também aumentaram os rumores de que a empresa elétrica carioca Light andaria pelo mesmo caminho, carregando junto os papéis.

“São fenômenos que parecem raros, mas que acontecem com frequência. Em 25 anos de experiência no mercado de crédito privado, já vi isso acontecer dezenas de vezes”, afirma Daniel Pegorini, presidente da gestora de fundos Valora Investimentos. “Buscamos dizer para os assessores de investimentos não venderem esses fundos como se rendessem 100% do CDI todo mês, mas é difícil de controlar o discurso deles na ponta”, diz.

Os riscos do crédito privado

Assim, os fundos de crédito privado não são tão conservadores como a expressão renda fixa pode fazer parecer. “Na bolsa, as pessoas compreendem que as ações das companhias vão para baixo e para cima, mas no crédito privado é mais difícil entender que as debêntures das empresas podem piorar ou melhorar. Ainda falta educação financeira”, afirma Marcelo Peixoto, gestor da casa de fundos Trígono.

“O ensinamento que fica é que a pessoa física precisa compreender a sua necessidade com aquele dinheiro, o seu horizonte de tempo para deixar o recurso e a sua tolerância ao risco antes de investir, além de entender o que o fundo faz”.

Marcelo Peixoto, gestor da Trígono

Crédito privado não deve ser reserva de emergência

É justamente porque os fundos de crédito privado podem registrar prejuízos que eles não são aconselhados para deixar aquele dinheiro que não pode sofrer perdas, como a reserva de emergência.

“Ainda há muitas pessoas mal investidas em crédito privado. Elas deixam o dinheiro da reserva de emergência com a ideia de ganhar acima do CDI com liquidez imediata e risco controlado, mas não deveriam fazer isso”, afirma Alexandre Alvarenga, analista de fundos da Empiricus. “Plataformas de investimentos fazem essa indicação e acabam afastando investidores, que se assustam e nunca mais querem voltar”, diz.

Ele recomenda deixar a reserva de emergência em títulos atrelados à Selic do Tesouro Direto.

Já os fundos de crédito privado servem para apimentar uma carteira diversificada, de investidores que pensam em deixar o dinheiro por um tempo médio ou longo, de no mínimo um ano, e aceitam o risco de perder. Alvarenga sugere que um investidor moderado aplique 12% da carteira nessa categoria.

Como ficam os títulos de crédito privado com a alta dos juros?

Ana Paula Carvalho, sócia da assessoria de investimentos AVG Capital, lembra que os fundos de crédito privado ficam ainda mais atrativos com a taxa de juros alta, mas também aconselha cautela.

“Se você não tiver condições de entender o que tem dentro da carteira, deve procurar uma alternativa mais conservadora”, indica.

Ela também recomenda escolher bons gestores, analisando o passado dos fundos e dos profissionais, e destaca que, quanto maior a idade e o patrimônio líquido das gestoras, melhor, porque isso é reflexo da confiança do mercado.

Ricardo Teófilo, chefe de renda fixa da Órama, lembra que existem fundos de crédito privado para investidores conservadores, moderados e agressivos e que é importante ser sincero ao responder o questionário da corretora para identificar o seu perfil.

“É importante que o investidor entenda minimamente o risco de crédito ao qual está se expondo”, recomenda.

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