Vale a pena investir em títulos de empresas chinesas?

Apesar do risco político e entraves globais, várias companhias se destacam em seus segmentos

Ao planejar investir fora do país, é preciso levar em consideração as principais economias ao redor do mundo, não só a dos Estados Unidos. Sendo assim, em busca de diversificação e melhores oportunidades, sempre vale um olhar mais atento para outros continentes, como a Ásia. Dito isso, será que a China, com suas particularidades e a interferência estatal recorrente, pode ser uma opção para os brasileiros? A seguir, saiba como investir na China e confira os prós e contras de alocar recursos em produtos vinculados ao país asiático.  

Por que a China? 

Segunda maior economia do mundo, a China está em crise desde abril, quando a expectativa de um forte início de ano desapareceu. Desde então, o governo introduziu uma série de medidas para reacender o crescimento. 

Na semana passada, o Banco Popular da China (PBOC) fez um corte surpresa na quantidade de dinheiro que os bancos devem manter em reserva. O objetivo é apoiar a recuperação econômica e melhorar a liquidez no sistema financeiro. 

“Vimos o crescimento chinês decepcionar. Porém, ainda assim, é um crescimento robusto, da ordem de 4% a 5% para aquela que é a segunda maior economia do mundo. Isso é extremamente relevante”, avalia William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue e colunista da Inteligência Financeira.

Apesar da desaceleração da economia da China, os especialistas consultados pela Inteligência Financeira acreditam que há boas opções no país asiático. 

De acordo com Guilherme Sahadi, CEO da BullSide Capital, a alocação não só na China como na Ásia em geral é importante, tanto para efeito de diversificação, como também para capturar oportunidades. “O país ocupa o lugar de segunda maior economia global. É lá onde vemos grandes produtores de matéria-prima essencial para as indústrias que mais geram receita no mercado, como tech e automotivas, entre outras”, pontua Sahadi.

Intervenção estatal: ponto de atenção

O CEO da BullSide Capital reforça, entretanto, que a China é uma boa opção “desde que o investidor entenda que aplicar em um país com uma intervenção estatal forte também traz riscos políticos que podem impactar a posição”. “Então, salvo perfis de risco muito agressivos, geralmente alocamos uma porcentagem mais baixa das carteiras nas empresas da região”, afirma ele. 

Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, avalia que a China se encontra “num momento em que a gente fica um pouco mais desconfiado”. “Das bolsas globais, ela tem um dos piores desempenhos no ano, mesmo tendo uma perspectiva de um crescimento alta. Ela vai crescer, só que talvez bem menos do que o esperado em relação aos últimos anos”, pondera ele, que completa: “Parece que desencantou um pouco os investidores diante dessa interferência cada vez maior”.

Para o estrategista-chefe da Avenue, o risco de uma intervenção estatal é uma realidade, tendo em vista o que já ocorreu no passado. “O governo interviu no mercado de games, no mercado de educação, na Alibaba e em outras empresas de social media. Não existe um setor no qual você esteja completamente protegido de uma intervenção estatal quando você investe em China. É muito imprevisível, fica difícil você estimar qual vai ser o próximo setor que pode eventualmente ser impactado por alguma intervenção estatal”, avalia Castro Alves.

Nesse sentido, o especialista salienta que, para os brasileiros que ainda não contam com alocações no exterior, “talvez faça mais sentido investir num mercado mais desenvolvido, fugir desses riscos inerentes a mercados emergentes”. “Estou falando em investir diretamente em empresas americanas e na economia americana. Esse é um ponto”, resume ele.  

Como investir na China? 

As principais formas de investir na China se dão por meio de fundos de investimentos, ETFs que acompanham índices ou ações chinesas, BDRs ou ADRs de empresas do país asiático.

Entre as possibilidades de alocação, os ETFs se destacam na hora de investir no mercado chinês, de acordo com os especialistas consultados pela Inteligência Financeira. “Porque você consegue se expor a um setor, ao mercado como um todo ou ainda, e melhor, através de fundos de investimento que tenham uma gestão ativa”, afirma Castro Alves. 

O especialista destaca que há diversos fundos com gestores capacitados, que entendem o mercado e que conseguem buscar as melhores alternativas. “Estou falando de grandes nomes, grandes gestores que têm equipes globais com analistas que estão na China e que conseguem eventualmente buscar as melhores alternativas. Essa seria a melhor forma [de investir na China]”, explica o estrategista-chefe da Avenue. 

“Dado o perfil de risco mais elevado, a alocação por meio de fundos e ETFs mitiga risco e oferece oportunidade de investimento em diferentes indústrias dentro do país”, resume Guilherme Sahadi.

Para o especialista, fundos como o FLCH – Franklin FTSE China ETF, que engloba o índice chinês como um todo, e o CXSE – WisdomTree China ex-State-Owned Enterprises Fund, que também contempla o índice chinês, porém exclui empresas estatais com maior risco, podem ser boas opções. 

Já para clientes com acesso ao mercado americano, há o KWEB – KraneShares CSI China Internet ETF, focando em empresas de tecnologia e alto crescimento (como Baidu, Alibaba e Tencent).

“A ressalva é que as empresas desse ETF têm alta volatilidade em seus preços”, alerta o CEO da BullSide Capital.

Empresas chinesas em alta 

Apesar do risco político e entraves globais, várias das empresas na região seguem se destacando em seus segmentos. A seguir, confira alguns nomes selecionados por Guilherme Sahadi, CEO da BullSide Capital:

  • Tencent: um dos maiores conglomerados de entretenimento e tecnologia globais, com receita superior a US$ 80 bilhões anuais. 
  • Alibaba: vice-líder no segmento de e-commerce no mundo. 
  • Nio: uma das empresas líderes no segmento de carros elétricos no mundo. 
  • BYD: empresa que também lidera o segmento de carros elétricos e tem como um de seus donos o investidor e referência no mercado Warren Buffet. “Um dado interessante é que, em diferentes trimestres, a empresa apresentou números de vendas superiores à Tesla, de Elon Musk”, pontua Sahadi. 
  • Baidu: uma das empresas de tech líderes no segmento de inteligência artificial.