MRV (MRVE3): ‘queima de caixa’ no 4º trimestre preocupa analistas

Empresa informou que as vendas líquidas caíram 14% no período, enquanto os lançamentos subiram 7%

A MRV&Co (MRVE3), holding que abrange a atuação da MRV no segmento econômico e de média renda, além das subsidiárias Resia, com operação nos Estados Unidos, e Luggo e Urba, de prédios para locação e loteamentos, reportou aumento no quarto trimestre nos lançamentos em seu negócio de construção residencial no Brasil, que atingiu sua maior alta nominal trimestral de todos os tempos, enquanto a queima de caixa no país e no exterior gera cautela, avalia o Citi, em relatório.

Os analistas Andre Mazini, Hugo Soares e Renata Cabral escrevem que a MRV&Co continua pressionando por ganhos de preços, enquanto o ticket médio de lançamentos sobe ainda mais para R$ 221 mil. Segundo eles, o trimestre revela a confiança forte da administração nas perspectivas de melhorias para o Minha Casa Minha Vida, embora as vendas ainda não tenham respondido adequadamente.

“Embora consideremos a decisão da MRV&Co um sinal positivo para as construtoras de baixa renda em 2023, os investidores podem ficar cautelosos diante da contínua queima de caixa da empresa, de R$ 540 milhões no quarto trimestre de 2022, prejudicada pelo descasamento entre lançamentos e vendas”, dizem eles.

Os analistas afirmam ainda que o aumento de lançamentos da MRV&Co é uma mudança sensata na estratégia, e todos os olhares devem estar voltados para a resposta das vendas e margens no primeiro trimestre de 2023, quando deverá contar com o benefício adicional do recente aumento de preço-teto do programa Casa Verde Amarela para unidades fora do eixo São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal.

O Citi tem recomendação de compra para as ações da MRV&Co, com preço-alo de R$ 13, potencial de alta de 81,1% ante o fechamento de quarta-feira (18) na B3.

A prévia de quarto trimestre da MRV foi mista, diz a XP. Por um lado, a construtora continuou aumentando preços das suas unidades, mas o consumo de caixa continuou elevado.

O analista Ygor Altero escreve que a companhia teve um aumento significativo no preço médio por unidade vendida nas operações brasileiras, atingindo R$ 208 mil, em linha com a estratégia de recuperação de margens.

“Além disso, a MRV parece mais confortável para aumentar seu volume de lançamentos daqui para frente”, apontando que aceleraram significativamente e atingiram R$ 3,4 bilhões.

Já as vendas líquidas atingiram R$ 2,06 bilhões, impulsionadas pela venda do Oak Enclave da Resia. No entanto, o número ficou abaixo da expectativa, prejudicado pelos efeitos negativos da eleição e da Copa do Mundo.

A queima de caixa atingiu R$ 539 milhões no quarto trimestre, com menor margem bruta e provisões com despesas de dívida e swaps. “Vemos a MRV reduzindo sua queima de caixa à medida que as operações continuam a recuperar a lucratividade.”

A XP tem recomendação de compra para MRV, com preço-alvo em R$ 17, potencial de alta de 138% sobre o fechamento de quarta.

‘Ações pressionadas’

A MRV apresentou uma surpresa negativa em sua prévia do quarto trimestre após ter queima de caixa maior que o esperado no período, reduzindo o brilho da aparente melhora em suas margens, diz o Bradesco BBI.

Os analistas Bruno Mendonça e Pedro Lobato escrevem que a companhia teve melhora sequencial nos lançamentos, chegando a R$ 3,48 bilhões, o que juntamente com alta de 22% no preço médio por unidade, indica expansão de margem.

Esse movimento deve reduzir a queima de caixa da MRV, que ficou em R$ 539,5 milhões, por conta do impacto negativo das operações no Brasil, aponta o banco. O número poderia ser pior caso a construtora não tivesse vendido recebíveis no período.

“Ainda vemos valores assimétricos para as ações da MRV, a mantendo como uma das principais apostas no setor”, comentam. No entanto, os números da prévia operacional deve pressionar os papéis no curto prazo.

O Bradesco BBI tem recomendação de compra para MRV, com preço-alvo em R$ 16, potencial de alta de 124% sobre o fechamento de ontem.

Os números reportados pela MRV no 4º trimestre

A MRV&Co divulgou sua prévia operacional do quarto trimestre na noite de quarta-feira. A empresa atingiu R$ 3,48 bilhões em lançamentos entre outubro e dezembro, aumento de 7,3% ante o mesmo período de 2021, e 92,8% mais do que no terceiro trimestre do ano passado.

As vendas líquidas da holding somaram R$ 2 bilhões, recuo de 14,2% ante o quarto trimestre de 2021, mas crescimento de 40,8% ante o trimestre anterior.

Ao considerar apenas os dados da incorporação nacional, com projetos do Casa Verde e Amarela e no SBPE, o volume de lançamentos ficou em R$ 2,76 bilhões, alta anual de 29,2%, e as vendas atingiram R$ 1,48 bilhão, pequena variação positiva de 1% sobre o quarto trimestre de 2021.

O banco de terrenos da holding terminou o ano valendo R$ 75,5 bilhões em valor geral de venda (VGV), alta anual de 3,5%.

Houve queima de caixa de R$ 539,5 milhões no quarto trimestre. O preço médio das unidades de incorporação da MRV cresceu 22,7% sobre o último trimestre de 2021, para R$ 208 mil.

No acumulado do ano, a MRV&Co registrou uma queima de caixa de $ 2,2 bilhões, volume quatro vezes maior do que a queima registrada em 2021.

Rafael Menin, copresidente da companhia, afirma que essa é a métrica mais importante da empresa, e que a recuperação gradual da margem bruta dos projetos, via aumento do preço das unidades e a entrega das safras mais antigas de empreendimentos, deve sanar a queima em 2023. “Temos que ter geração de caixa em patamar diferente do ano passado“, diz. “A MRV sempre foi empresa geradora de caixa e com alavancagem baixa”.

Ele afirma que o reajuste do preço das unidades deve continuar neste ano, mas em patamar mais baixo. A estabilização do custo da construção também ajuda na recuperação das margens, que serão divulgadas no balanço do trimestre.

Em todo o ano de 2022, a MRV&Co reportou R$ 9,1 bilhões em VGV de lançamentos, queda de 3,1% sobre 2021. As vendas líquidas somaram R$ 7,9 bilhões, redução de 2,8%.

Na área de incorporação nacional, os distratos foram 3,9% das vendas brutas, queda ante os 7,3% de 2021.

Menin afirma também que as subsidiárias da holding, Luggo, Urba e Resia, não vão receber mais injeção de recursos para alavancar seus crescimentos nos próximos dois anos, o que deve significar uma evolução mais lenta. “O crescimento virá do lucro delas”, afirma.

A holding tem hoje estoque suficiente para 14 meses de venda, e a expectativa do executivo é que esse total baixe para 10 ou 11 meses em 2023. “Os lançamentos devem crescer menos do que as vendas”, diz.

A MRV&Co já quis ser uma companhia que lança 70 mil unidades por ano e chegou a bater mais de 50 mil em 2020, mas o patamar caiu para 36 mil imóveis no ano passado. A nova missão da empresa é alcançar 40 mil unidades lançadas em 2023, segundo Menin.