Com loja parada, ação de grandes redes cai

Expectativas começam a ser reduzidas e investidor vem “precificando” um mês de dezembro difícil

Foto: Brendan McDermid/Reuters

Pontos-chave

  • Dados sobre o atual ambiente econômico alimentam a avaliação de varejo mais fraco
  • A leitura dos analistas é que o desaquecimento do setor deve se estender por 2022

Informações de que as vendas têm “patinado” nas lojas físicas de bens duráveis ao longo do quarto trimestre vêm desanimando mais o mercado nos últimos dias, levando a fortes quedas nos papéis de grandes redes na bolsa. O receio de que esse movimento se estenda em dezembro, sem uma reação um pouco mais forte da demanda, levam investidores a saírem de suas posições, dizem gestores. Foram dois dias consecutivos com cadeias liderando as quedas do Ibovespa, principal índice da bolsa.

Contatos entre analistas de bancos e grandes varejistas nos últimos dias, depois da Black Friday – com troca de informações sobre o atual ambiente econômico – reforçaram a percepção de desaquecimento no comércio, dizem fontes. Mesmo que o setor já viesse trabalhando com projeções mais conservadores desde a publicação de números decepcionantes de terceiro trimestre e da Black Friday, o mercado já está embutindo no preço o “risco de dezembro e janeiro”, diz a executiva de uma gestora carioca.

Na segunda-feira, o Valor relatou que esta Black Friday foi a pior da história. “Se o mês de novembro, que tem uma base de comparação mais fácil, por conta da Black Friday fraca do ano passado, não foi bom para loja, e foi morno para o digital neste ano, imagine dezembro que tem uma base de comparação mais difícil?”, diz um analista de banco.

“As expectativas começam a ser mais reduzidas precificando dezembro difícil, o que leva a um ajuste de preços”, completa ele.

Ontem, entre as maiores quedas do Ibovespa estiveram os papéis da Americanas (-3%), Lojas Americanas (-2,55%), em primeiro e segundo lugares, respectivamente, e Magazine Luiza (-1,74%), em quinto. A Via (Casas Bahia e Ponto) foi a décima maior queda (-0,96%).

Na semana, as quedas batem nos dois dígitos. O Magazine cai 17%, a Lojas Americanas (ação PN), pouco mais de 11% e na Via, cerca de 10%. Um gestor chama a atenção para papéis com recuos acumulados em 2021 em cima de desempenhos menos fortes no ano passado. Neste ano, a ON de Magazine cai 73%, após subir 110% em 2020. Via recua 68% em 2021, e avançou 45% em 2020.

A Lojas Americanas sobe 1,5% no ano passado, para uma desvalorização de 55% em 2021 – o braço digital da loja de departamentos (ex-B2W) avançou 20% em 2020 e agora cai 63%.

O Valor apurou com duas fontes do setor que tem sido fracas as vendas “mesmas lojas” nas últimas semanas no Magazine Luiza e na Via, após um terceiro trimestre de retração nesse índice. Há um esforço das redes para incentivar a demanda nos pontos físicos nas próximas semanas até o Natal, onde a margem de lucro supera a do comércio eletrônico. As empresas não comentam o assunto.

Um fator menos preocupante entre investidores e analistas ouvidos ontem, a princípio, é um eventual maior consumo de caixas das redes, caso o cenário de desaquecimento se estenda por 2022. A leitura que tem sido feita é que Magazine, Via e Americanas têm situação de caixa confortável.

Mas especialistas lembram que uma eventual necessidade, em 2022, de recorrer a ofertas de ações para recompor caixa pode ocorrer em cima de ações ainda baratas. “O cenário atual requer um uso mais cuidadoso do dinheiro. A posição do balanço [das varejistas] é de fato confortável, mas como o avanço do e-commerce historicamente consome caixa e isso, provavelmente, não mudará no futuro previsível, não podemos ignorar que pode ser mais doloroso para Magalu, Americanas e Via entrar no mercado no futuro, se os investidores continuarem penalizando as ações”, escreveu em relatório recente Victor Saragiotto, analista do Credit Suisse.

“Apenas para comparação, enquanto o follow-on de Mercado Livre [de US$ 1,5 bilhão, há duas semanas] representou uma diluição muito pequena, a mesma quantidade diluiria os acionistas da Magalu e da Americanas em 12% e 22%, respectivamente. A situação da Via é um pouco complicada, com 49% de diluição”, disse.

Neste momento, os ajustes de preços das ações ocorrem em ritmos diferentes para cada empresa. “Se você olhar para um Magalu, que tem a maior queda da semana, é claro que ela cai mais na crise em parte porque tem um ‘valuation’ menos descontado. Ela estava mais cara que o resto, então é difícil comparar com Americanas, por exemplo, que ganhou menos em 2020″, diz o gestor de um fundo.

“Mas fica claro também que esses recuos dela se intensificaram após a divulgação de números [de julho a setembro] que não foram bons em loja e na margem. Sem sinal claro de mudança ainda, a expectativa fica para alguma reação no Natal”, afirma ele.

No caso da Via, o sinal de alerta no mercado ficou mais claro após anúncio da provisões trabalhistas, relatado pela rede em novembro. “Como essa questão das provisões se mantém nos próximos anos, sendo mais até R$ 1 bilhão em 2022, R$ 600 milhões em 2023 e até R$ 400 milhões em 2024, a questão é como ela irá administrar isso com a necessidade de investimento num ambiente mais competitivo. Essa questão continua no radar do mercado”, diz a executiva de uma gestora.


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