Destaques da literatura em 2021

Dezenove trechos de dezenove autores

Foto: Alfons Morales / Unsplash

Louise Glück em “Parábola da fera” (Tradução de Pedro Gonzaga): “O gato anda em círculos na cozinha/ com o passarinho morto,/ sua nova possessão./ Alguém deveria discutir/ ética com o gato enquanto ele/ perscruta o débil passarinho:/ nesta casa/ nós não exercemos/ a força deste jeito./ Diga isso ao animal,/ seus dentes já/ fundos na carne de outro animal.”.

Francisco Alvim em “A cobra”: “a que continua viva/ depois de morta/ é a que pica mais forte// Por isso é mister/ esconder o pau/ (e não mostra-lo/ como pensa o vulgo)// Assim nunca saberá/ a cobra/ de onde baixa o porrete/ eternidade afora”.

Claudia Rankine em “E se” (tradução de Stephanie Borges): “E se você for mais responsável por proteger do que por mudar?/ E se você for destruição fluindo sob/ a linguagem do salvador?”.

Ingeborg Bachmann em “Um lugar de incidências” (tradução de Claudia Cavalcanti): “A loucura também pode vir de fora para atingir as pessoas, ou seja, muito antes caminhou de dentro das pessoas para fora, para fazer o caminho de volta em situações para nós corriqueiras, nos legados deste tempo. Pois não esqueço que estou no país de vocês, com suas incidências que (…) comunicam uma visão e um ouvido submetido (…) ao pesadelo e sua consequência.”.

Isabel Wilkerson em “Casta” (tradução de Denise Bottman e Carlos Alberto Medeiros): “Examinar a história de um país é como descobrir que o alcoolismo ou a depressão são comuns na família, que o suicídio ocorre com mais frequência do que o habitual ou, com os avanços da genética, que uma pessoa herdou marcadores de mutação no gene BRCA para câncer de mama.”.

Micheliny Verunschk em “O som do rugido da onça”: “Expurgar, desviar, eliminar a variação torna-se um hábito para quem escreve ou reescreve a história, especialmente a história dos outros, mas toda raspagem ou borrão, toda nuvem de breu que cobre o desenho ou o primeiro escrito deixa sua marca, seus vestígios.”.

Carlito Azevedo em “Monodrama”: “eu disse: e é sempre/ como um país/ se dando conta/ de que entrou/ em guerra, um dia/ um país se dá conta/ de que a guerra/ de que todos falam é/ a sua guerra, o/ país é o seu/ país, o que chamam/ de a guerra é/ a sua vida.”.

André Capilé em “Madrugada pombagira do absoluto”: “vocabulário do ódio é o que resta na boca/ violenta, a malta só ruge – estila sua baba louca/ já não me sobra mais nada na presa lisa da víbora/ se a vida te levar a pulso, o soldo da sorte é a mirra”.

Paulliny Tort em “Erva brava”: “Morrer é mais difícil. Já viu os bichos que morrem, como agonizam, como choram antes mesmo da primeira pancada, a morte é uma sombra que se anuncia, não é esse cansaço, não.”.

Douglas Kim em “Morrer: verbo infinito”: “Enquanto os deuses forem espelho/ continuarão sendo uma palavra cujo significado ignoramos/ e mecanicamente repetimos// enquanto recolhemos as joias descartadas./ Seja qual for o atalho, os vivos não se iludem:/ o sol do futuro radiante também castiga.”.

João Cabral de Melo Neto em “O fim do mundo”: “No fim de um mundo melancólico/ os homens leem jornais/ Homens indiferentes a comer laranjas/ que ardem como o sol/ Me deram uma maçã para lembrar/ a morte. Sei que cidades telegrafam/ pedindo querosene. O véu que olhei voar/ caiu no deserto./ O poema final ninguém escreverá/ desse mundo particular de doze horas./ Em vez de juízo final a mim me preocupa/ o sonho final.”.

Wislawa Szymborska em “As cartas dos mortos” (tradução de Regina Przybycien): “Lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes,/ mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores (…)/ Observamos em silêncio seus peões no tabuleiro,/ só que movidos três casas à frente./ Tudo que previam aconteceu de modo totalmente diverso,/ ou um pouco diverso, que é o mesmo que totalmente diverso.”.

Carlos Drummond de Andrade em “Os ombros suportam o mundo”: “As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios/ provam apenas que a vida prossegue/ e nem todos se libertaram ainda./ Alguns, achando bárbaro o espetáculo,/ prefeririam (os delicados) morrer./ Chegou um tempo em que não adianta morrer./ Chegou um tempo em que a vida é uma ordem./ A vida apenas, sem mistificação.”.

Leonardo Fróes em “Tambores da madrugada”: “Que teme o coração na hora incerta/ em que o corpo desperta, e é madrugada? (…)// Nada ele sabe, o tolo coração disparado,/ senão que às portas da manhã/ seu horror terminou pausadamente./ Passado o aperto, a brisa, por contraste,/ o acaricia, restaura, consola e fortalece/ para enfrentar novos testes de agonia,/ iguais desabamentos de estrutura/ que outras noites lhe traga, qualquer dia.”.

Charles Simic em “Poema” (Tradução de Sylvio Fraga Neto): “Toda manhã esqueço como é./ Vejo a fumaça avançar/ a passos largos sobre a cidade./ Não pertenço a ninguém.// Depois lembro dos meus sapatos,/ Que preciso calçá-los,/ Que ao agachar para amarrá-los/ Irei olhar para dentro da terra.”.

Ana Martins Marques em “Turismo”: “Fazer as malas é tarefa impossível:/ aquele que ainda não partiu/ tem que colocar na mala/ aquilo de que precisará/ aquele que vai chegar”.

Olga Tokarczuk em “Correntes” (tradução de Olga Baginska-Shinzato): “As comissárias de bordo, belas como anjos, verificam se estamos aptos a viajar e, com um delicado gesto, nos permitem submergir nas curvas suaves e atapetadas do túnel que nos levará a bordo do avião e, depois, por um caminho aéreo e frio na direção de novos mundos. O sorriso dela encerra – ou assim nos parece – uma espécie de promessa de que talvez estejamos renascendo agora, desta vez na hora certa e no lugar certo.”.

Eucanaã Ferraz em “Canção do cavaleiro”: “Mandei selar meu cavalo/ de barro de pau e corda/ frágil pequeno ridículo -/ esperançoso que um verso/ por ele se enternecesse// Em branco e papel – mais nada -/ mandei selar meu cavalo/ na medida do silêncio/ com que esperar pelo tempo./ Meu cavalo não existe.”.

Gabriella Egavalle em “A paixão da Moçaçuarana”: “Deixei ir. Vai Fantasma/ de Cavalo e vai Cavalo./ Mas faz questão de saber/ se escuta mesmo só o teu/ Espectro e, senão,/ conversa. Diz: eu quero/ galopar. Me deixa?/ E há de deixar-te./ Até porque: deixa-lhe/ trotar enfim o céu./ Isto é contigo agora.”.

Por Michel Laub, jornalista e autor dos romances “Diário da Queda” (2011) e “Solução de Dois Estados” (2020), escreve neste espaço quinzenalmente


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