‘Sell in may and go away’: venda ações em maio e volte só mais tarde. Será que há verdade nesse ditado?

Período de maio a outubro tende a apresentar retornos mais baixos e mais voláteis

“Sell in may and go away”. Este é um famoso ditado do mercado que basicamente sugere que você deveria vender suas ações no início de maio e só retornar mais tarde. Isso se baseia no histórico de desempenho ruim das ações (especificamente o S&P 500) durante o período de seis meses, de maio a outubro.

Mas será que há verdade nesse ditado?

Esse conceito originou-se do Stock Trader’s Almanac. Trata-se de um livro que, entre outras estatísticas, observou um desempenho melhor das ações, medido pelo índice Dow Jones Industrial Average, de novembro a abril, em comparação com o período de maio a outubro.

Estudos mais recentes, com o índice S&P 500, têm ajudado a corroborar essa tese. Segundo a Fidelity Investments, o retorno médio do S&P 500 no período de 1990 a 2023 foi de 2%, em comparação com uma média de aproximadamente 7% de novembro a abril – Sell in May and go away | Stocks | Fidelity. Outros artigos também foram escritos sobre o tema, corroborando essa ideia, como o “The Halloween Indicator, ‘Sell in May and Go Away’: Everywhere and All the Time by Ben Jacobsen, Cherry Yi Zhang”

Quais são as possíveis explicações para esse fenômeno?

Férias?

Alguns atribuem essa tendência às férias do hemisfério norte, quando traders e agentes do mercado reduzem suas posições para desfrutar das férias. Assim, assumem menos riscos em suas carteiras.

Impostos?

Outra explicação está relacionada ao sistema fiscal dos EUA. Por lá, a declaração e o pagamento de impostos ocorrem em abril (mais precisamente até 15 de abril). Além disso, algumas empresas e indústrias encerram seus anos fiscais nessa época ou em junho. Portanto, o início de um novo ano fiscal pode motivar a realização de vendas com ganhos de capital, que seriam tributados somente no próximo ano fiscal.

Eventos históricos

Outra explicação possível é que diversos eventos disruptivos no mercado coincidentemente ocorreram durante esses meses. Por exemplo, a crise do petróleo começou em 1973, mas afetou fortemente o mercado acionário em abril e nos meses seguintes de 1974. O famoso Crash de 87 aconteceu em outubro. O ataque ao World Trade Center ocorreu em setembro de 2001. A grande crise financeira de 2008 teve seu ápice (maior queda das ações) nos meses de setembro e outubro.

Além disso, as eleições, um evento que eleva a volatilidade no mercado no período que antecede a decisão, historicamente acontecem na primeira terça-feira de novembro. Portanto, podemos observar diversos eventos relevantes que influenciaram essa estatística ao longo do tempo.

Economia

Uma explicação mais fundamentada pode derivar também dos indicadores econômicos. Durante esse período, o índice de surpresa econômica, que representa o quanto os indicadores econômicos surpreendem positivamente, reduz substancialmente. Como resultado, observamos os agentes adotando uma postura mais cautelosa e menos otimista em relação ao mercado, reduzindo sua exposição.

Uma verdade relativa?

Como costumo ressaltar, não há estratégia perfeita ou infalível no mercado. Embora os números possam sugerir uma tendência ou sazonalidade, é importante observar que, nos últimos 10 anos, maio se mostrou positivo para o mercado acionário. No entanto, nada garante que será o mesmo neste ano, mas é, no mínimo, interessante notar essa tendência.

Outro ponto é que historicamente, o desempenho ruim no período de maio a outubro foi mais perceptível em anos de “bear market“. Ou seja, em anos negativos para o mercado de ações. Por outro lado, em anos de “bull market“, as ações podem ter experimentado momentos de agitação no mercado. Mas ainda assim perceberam valorização durante esses meses.

Conclusão 

Como mencionado anteriormente, não há verdade absoluta ou estratégia perfeita no mercado. Em resumo, o período de maio a outubro tende a apresentar retornos mais baixos e mais voláteis. No entanto, apenas em mercados em baixa (bear market) é que os retornos costumam ser verdadeiramente negativos.

Acreditamos firmemente que os retornos de uma carteira que segue uma estratégia de “buy and hold”, ou seja, mais estrutural e agnóstica a esses movimentos de curto prazo, tendem a ter um desempenho melhor e são preferíveis para o investidor. Como discutimos recentemente (“Por que o tempo é o melhor aliado nos investimentos?”), estar posicionado e participar do mercado oferece a melhor possibilidade de retornos a longo prazo.

E já que começamos com um ditado, concluo com outro: “investir é como sabão; quanto mais você toca, menor fica”.

A descorrelação do ano

Uma relação ajuda a caracterizar o ano: o S&P 500 e o yield dos títulos de dívida americana de 10 anos. A história do treasury de 10 anos em 2024 foi basicamente de uma valorização (abertura da curva de juros no mercado). É um reflexo dos dados econômicos mais fortes do que o esperado e a percepção de menos espaço para cortes de juros em 2024.

Pois bem, historicamente, essa alta tendeu a levar o mercado acionário, representado pelo S&P 500, a realizações, ou a ter um momento de performance mais complexo, por assim dizer. No entanto, isso não tem sido verdadeiro neste ano.

O mercado acionário estaria ignorando os juros?

Pode ser. No entanto, penso que talvez o mercado esteja focando muito mais no crescimento apresentado pelas empresas até agora. A safra de balanços do 1T24 está praticamente encerrada.

Até o momento, 77% das empresas do S&P 500 reportaram lucro por ação reais acima das estimativas, com lucros crescendo 7,5% acima das estimativas e com a margem de lucro líquido ficando em 11,7%, um número superior à margem de lucro líquido do trimestre anterior de 11,2% e acima da média dos últimos 5 anos de 11,5%. O crescimento dos lucros ajuda a sustentar o mercado de ações.

Recompras

Além dos resultados, algo que tem ajudado a sustentar os mercados são os programas de recompra de ações. Como exemplo, a Apple aprovou um programa de US$ 110 bilhões, praticamente o valor de mercado da Petrobras!

De acordo com o Goldman Sachs, as empresas do S&P irão alocar US$ 1,1 trilhão em recompras de ações até 2025, um valor semelhante ao produto interno bruto anual da Holanda.

Então, em resumo, apesar da descorrelação, a alta do mercado parece estar fundamentada no que mais importa: a capacidade das empresas de gerar lucros e crescer. Além disso, a sólida posição de caixa de muitas das grandes empresas americanas permite que elas recomprem parte de suas ações como forma de beneficiar os acionistas.

Acredito que esses argumentos ajudam a refutar a ideia de que o mercado acionário americano possa estar experimentando algo semelhante a uma bolha ou algo do tipo.

E para terminar

Gostaria de deixar meu apreço a toda solidariedade que está sendo prestada por todos os brasileiros ao meu estado, o Rio Grande do Sul, em meio à tragédia que meus conterrâneos vivem. Neste momento, o melhor que podemos fazer é ajudar como podemos através de doações, orações, divulgando as necessidades e formas de ajudar a todos.

Ainda há um caminho pela frente. Desejo muita força aos meus conterrâneos e irmãos para atravessar esse momento difícil. Somos um povo de muitas virtudes. Então é hora de mostrarmos valor e constância, para que nossas façanhas sirvam de modelo a toda terra, tal qual cantamos no hino do Rio Grande do Sul.