Investir no exterior: o que esperar do mercado global em 2023

JP Morgan, Morgan Stanley, BlackRock e Avenue mostram alternativas

Quando o assunto é investir no exterior, o brasileiro sempre viu os EUA como referência. Mas os anos de pandemia e a crise econômica generalizada aproximaram esse e outros mercados desenvolvidos da realidade brasileira, e levantou ainda mais dúvidas sobre como investir no mercado global.

Diante desse cenário, a preocupação com a inflação galopante e juros altos transformaram os títulos públicos americanos em um negócio mais atraente, tanto para os estadunidenses quanto para os investidores de outras partes do globo.

Mesmo nos EUA, onde a renda variável se consolidou como a real oportunidade de ganhar dinheiro no mercado financeiro, o avanço dos juros abateu o mercado de ações, especialmente os setores intensivos em capital, como o de tecnologia.

Apesar de a política monetária dos maiores bancos centrais do mundo ainda apontar para cima, 2023 deve ter algumas mudanças com relação ao que foi visto e vivido pelos investidores no primeiro ano do pós-pandemia.

Ativos globais e diversificação

Para essa nova realidade, o conselho principal do chairman da BlackRock Brasil, Carlos Takahashi, para investimentos no exterior é diversificação, e não apenas limitada à diversidade de ativos. “Quando a gente olha para o exterior, a gente tende a falar em dólares e S&P 500, mas você pode optar por diferentes geografias, setores e estratégias”, afirma.

O executivo diz que é natural que haja dificuldades por parte do investidor para entender as nuances de cada mercado, e as melhores oportunidades. Por isso, contar com a ajuda de quem já atua no país é um diferencial importante, “especialmente quando falamos em empresas da economia real”, destaca Takahashi.

“Estar perto da operação tem muita importância, porque não se trata apenas da empresa que você está acompanhando, mas de toda uma cadeia que precisa ser observada”, afirma. Ele destaca também as particularidades da regulação de setores estratégicos, que varia muito conforme a geografia.

Investir no exterior em commodities

Diante das dificuldades impostas pela falta de informação detalhada sobre mercados distantes, as commodities acabam sendo uma opção mais segura aos investidores, porque requer uma análise mais global em vez de um entendimento mais localizado sobre determinada economia.

Para a head de investimentos do JP Morgan no Reino Unido, Nicola Rawlinson, 2023 pode ser um ano de recuperação para as commodities. Ela diz que há muita demanda reprimida na China que deve ser liberada neste ano, o que pode favorecer as empresas do setor ao redor do mundo.

“Eu sou positiva com relação ao preço das commodities. Avalio que pode mudar para um ambiente melhor”, diz a executiva. O portfólio como um todo da JP Morgan “está mudando para uma perspectiva mais pró-China”, completa.

Recessão mais amena

Outro ponto positivo que ela enxerga para o mercado de ações, para além da valorização das commodities, é o tamanho da recessão que deve acometer a economia americana, menor do que poderia se esperar. A executiva do JP Morgan no Reino Unido diz que o andar de lado da economia estadunidense não deve causar grandes estragos sobre o mercado de capitais.

“Não estamos muito preocupados ainda com o impacto da recessão. Não acreditamos que haverá um desbalanceamento econômico nos Estados Unidos com essa recessão”, afirma.

Moedas

A especialista também avalia como positiva a aposta em algumas moedas em particular. “No portfólio, para além do dólar americano, temos o dólar australiano, que deve se beneficiar com a China entrando num ciclo de recuperação”, destaca a executiva ao mencionar a Austrália, um dos países que mais recebem turistas chineses.

Assim, outra moeda que deve se beneficiar da reabertura chinesa e do reaquecimento do turismo na Ásia é o dólar tailandês. Ela também vê o euro e o franco suíço, este, em menor escala, com potencial de recuperação. A libra tem algumas notícias positivas e pode também apresentar alguma oportunidade ao investidor.

Ativos globais de tecnologia

Para Willian Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a perspectiva de uma recessão nos Estados Unidos não significa exatamente que o mercado estadunidense perca qualidade. Contudo, pode acontecer exatamente o contrário. “Se houver uma recessão no maior mercado, o mundo todo sofrerá. E possivelmente os EUA serão o melhor lugar para estar investido”, avalia.

E um dos setores que podem apresentar boa perspectiva é o de tecnologia. O desconto nas ações do setor – apesar da recuperação parcial no começo de 2023 – pode significar ao investidor global uma boa oportunidade de entrada. “Há pesquisas que mostram que o menor ponto do S&P 500 é nas recessões, e pode ser a oportunidade para quem comprar ativos nos EUA”, afirma Alves.

A queda das ações do setor em 2022 significou uma perda sensível de preço das ações em bolsa. Porém, o valor das empresas não foi afetado, alerta Victor Arakaki, do Morgan Stanley. “Esses ativos acabaram sofrendo mais do que os de outros setores. Mesmo dentro do índice S&P 500 esse setor teve perdas maiores porque existe a concepção de que sofrem mais com juros mais altos e por terem fluxo de caixa no futuro”, explica.

Diferenças dentro do setor

Ainda no setor de tecnologia, Arakaki alerta que é preciso “olhar de maneira granular” para as empresas. Assim, deve-se levar em conta as particularidades de cada uma para tomar a melhor decisão sobre onde aplicar o dinheiro.

Em janeiro de 2023, dentro do S&P 500, havia aproximadamente 27% de empresas de tecnologia, representadas por segmentos como software, hardware, semicondutores. “Então, não dá para dizer que tecnologia como um todo sofre num cenário de juros altos e desaceleração global”, avalia.

Incentivos em semicondutores

Para este ano, o governo americano anunciou um impulso de US$ 52 bilhões para semicondutores. O segmento foi um dos calcanhares de Aquiles do setor de tecnologia durante a pandemia. A escassez do produto no mercado internacional elevou consideravelmente os preços ao longo da cadeia.

A iniciativa é vista com bons olhos pelo executivo do Morgan Stanley. “Sempre que os governos permitem que o intelecto navegue com menos obstáculos e vantagens tributárias, melhor. Afinal, são especialistas que conseguem dar apreciação ao capital”, destaca.

Mas Arakaki avalia que o investidor deve seguir atento aos fundamentos das empresas. Também alerta que apenas incentivos fiscais não são capazes de impulsionar empresas. “Precisamos ver como as empresas vão se comportar, mas, no geral, esse tipo de estímulo é sempre bem-vindo”, completa.