Por que a bolsa está em queda desde antes do corte da Selic?

Fuga do investidor estrangeiro e China levam bolsa de valores a maior queda em quase 40 anos, mesmo após corte da Selic

A bolsa de valores despencou em agosto, devolvendo parte dos ganhos acumulados no ano. O Ibovespa, índice de referência da bolsa, subiu pela última vez em 31 de julho e logo depois, nos dias 1 e 2 de agosto, houve o corte da taxa Selic em 0,50 ponto porcentual. A pergunta óbvia, então, é o motivo que leva a quedas sequenciais. E a resposta está principalmente no peso dos dados externos, que freiam o avanço do mercado brasileiro.

O tropeço do Ibovespa em agosto, de cerca de 4,5%, já é histórico: a última vez em que a bolsa de valores teve dez pregões consecutivos de queda foi há quase 40 anos. Analistas explicam que, por trás da desvalorização, estão as digitais do fraco crescimento chinês e da fuga de investimento estrangeiro.

Bolsa em queda revela fuga de capital estrangeiro e ‘reajuste’

De acordo com Nicolas Farto, sócio da Vértiq Investimentos, a baixa consecutiva dos últimos dez pregões é consequência de meses animados na bolsa de valores pela expectativa de queda de juros. Ou seja, após altas esperando o parecer do BC sobre a Selic em agosto, o mercado agora faz um “reajuste natural” dos preços.

“Depois que o evento (corte da Selic) acontece, é comum o mercado começar a se ajustar. É aquela velha história: ‘subir no boato e cair no fato’”, diz Farto.

O investidor estrangeiro vem traçando essa estratégia desde a decisão do Copom. No mês de agosto, segundo dados da B3, o investidor institucional vem aumentando a fatia de compras na bolsa de valores, enquanto o estrangeiro tem vendido mais ativos.

O saldo para o investidor estrangeiro no mês é de saída líquida de R$ 6,59 bilhões da bolsa de valores brasileira. Os agentes institucionais, por outro lado, registram uma injeção líquida de R$ 3,46 bi.

O efeito da migração do capital estrangeiro respinga, principalmente, no recente avanço do dólar, afirma Leonardo Santana, analista da research Top Gain.

Dados de China e EUA colocam ‘água no chope’ do Ibovespa

Ainda de acordo com analistas, o movimento se deve a um cenário externo mais hostil à economia brasileira.

Os dados que vem do gigante asiático não animam. As vendas anuais do varejo chinês cresceram apenas 2,5%, abaixo da projeção de 4,5% do mercado e do comparativo anual de 3,1%. Na mesma toada, a produção industrial da China cresceu apenas 3,4% em 12 meses ante 4,4% entre 2021 e 2022.

De acordo com Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV, “a China não está recuperando o quanto se esperava em varejo e indústria”.

O crescimento mais fraco do que o esperado do maior parceiro comercial do Brasil enfraquece, por sua vez, as commodities. Especialmente a Vale, maior exportadora de minério de ferro para a China.

“Se a China não consegue crescer, nós não conseguimos produzir”, afirma Leonardo Santana, analista da research Top Gain. “E isso impacta ações de maior peso no Ibovespa, como a própria Vale e a Petrobras”, complementa.

O cenário dos juros nos Estados Unidos também reforçam a queda da bolsa. Investidores operam com o receio de que o Federal Reserve, banco central do país, volte a aumentar os juros americanos. As vendas no varejo americano subiram 3,17% no ano. Nesta terça-feira, os treasurie bonds, títulos do Tesouro americano, estavam em alta.

“Passamos por um movimento de retração mais forte por conta da necessidade do tesouro americano ter de recompor seu caixa com emissões muito grandes. Isso tem um efeito sobre os juros norte-americano mais longos e acaba fortalecendo o dólar e, consequentemente, pesando no Ibovespa”, comenta João Vitor Cardoso, especialista em renda variável da Renova Invest.

Análise interna

Segundo Farto, da Vértiq, apesar de o IBC-Br (prévia do PIB mensal) vir acima do consenso do mercado, há pouco a celebrar. “Sob uma ótica inflacionária, essa notícia mostra que podemos sentir uma pressão sobre a inflação”, diz.

Outra pressão inflacionária pode vir da Petrobras. A decisão da estatal de aumentar preços da gasolina e diesel nesta terça-feira era uma questão de “quando” para o mercado. Mas deve também provocar aumento dos preços já em agosto.

“Podemos ver uma política monetária mais agressiva, ou, pelo menos, uma queda menos intensa do que o mercado espera na Selic. Um pouco disso foi precificado na curva de juros hoje, abrindo em quase todos os vencimentos”, explica o especialista.

Além disso, a demora na agenda do governo federal para aprovar a reforma tributária e o arcabouço fiscal provocam estresses, na avaliação de Alexandre Chiaia, professor de Economia do Insper.

“No lado fiscal, o arcabouço fiscal foi adiada a aprovação. A briga política principalmente com cargos no governo tem mostrado a fragilidade na aprovação dos reformas”, complementa.

Com reportagem de Raphael Coraccini