Mubadala compra ATG com planos de tirar ‘nova bolsa’ da gaveta

Aquisição pelo fundo de Abu Dhabi da plataforma de negociação de ativos financeiros, que há anos pretende atuar na mesma seara da operadora da bolsa brasileira, reacende discussão

O gigante de Abu Dhabi Mubadala Capital acaba de anunciar a compra da Americas Trading Group (ATG), plataforma de negociação de ativos financeiros e que há anos pretende se tornar uma concorrente da B3.

Segundo apurou o Valor, o projeto do fundo é retomar os planos já antigos da ATG de montar uma nova bolsa de valores no Brasil, reacendendo um assunto recorrente para a B3.

O movimento do Mubadala Capital acontece pouco depois de o fundo fechar uma rodada de investimento na fintech Cerc, de registro de ativos financeiros. No fim de 2021, a Cerc já havia pedido ao Banco Central permissão para abrir uma central depositária e uma clearing.

“O cenário global é desafiador, mas vemos potencial crescimento e amadurecimento do mercado de capitais. Um de nossos objetivos é promover, por meio de nossos investimentos, maior acesso a mercados e ferramentas para execução otimizada de ordens para as principais corretoras, investidores institucionais e asset managers”, afirmou, em nota, Oscar Fahlgren, presidente do Mubadala Capital no Brasil.

O acesso à depositária já motivou no passado briga entre a ATG e B3. A ATS, uma empresa da ATG, chegou a entrar em arbitragem contra a B3 há alguns anos, afirmando que a bolsa estabelecia preços elevados para o contrato de serviços para a utilização da clearing da companhia. Argumentava, na época, que os valores inviabilizavam o projeto de uma nova bolsa no país. Além do Mubadala, alguns fundos brasileiros chegaram a analisar o ativo, disseram fontes.

Depois da fusão entre BM&FBovespa e Cetip, em 2017, o Conselho de Administração de Defesa Econômica (Cade) estabeleceu que a B3 tinha que colocar à disposição de terceiros sua infraestrutura de mercado e que, se não houvesse um acordo entre as partes, a arbitragem seria o foro para eventuais discussões.

Em 2019 as partes chegaram a um acordo sobre preço e tinha ficado ainda em aberto um pedido para a criação de uma bolsa feito à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mas que foi negado á época pelo não cumprimento de todas as exigências. Um novo pedido ainda não teria sido feito.

A ATG foi fundada por Arthur Machado, que sempre buscou transformar a empresa na nova bolsa de valores no país, chegando, anos atrás, a fechar uma parceria com a bolsa de Nova York (Nyse), com esse propósito. O empresário, no entanto, chegou a ser preso há cerca de quatro anos sob suspeita de estar envolvido em fraudes contra fundos de pensão.

O Postalis, fundo de pensão dos Correios, foi um dos primeiros investidores na ATS. A fundação foi um dos alvos da operação Greenfield da Polícia Federal. Teria sido nessa época que a ATG passou a buscar um comprador.

Em janeiro, durante almoço com jornalistas, o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, disse que a concorrência é tema recorrente nas discussões da empresa. “Estamos preparados, há algum tempo, para todos os tipos de concorrência”, disse o executivo, lembrando que já lida com concorrentes no mercado de balcão. No mercado listado, a concorrência também deve aparecer, após a CVM permitir a negociação de ações em bloco (“blocktrade”) em mercados de balcão organizado.

“Ainda não tem uma outra bolsa na organizada, mas haverá plataformas para negociação em bloco. Cada vez mais a competição vai ser uma realidade”, afirmou.

Para Finkelsztain, ter competidores disputando o mesmo mercado é algo positivo por “provocar criações”. “Mas vai ser difícil concorrer com a B3 porque ela é eficiente naquilo que ela faz”, disse. “A gente se preocupava se a tecnologia iria viabilizar alguma coisa que não estávamos vendo, mas o tempo já mostrou que os concorrentes, na maioria das vezes, tentam copiar o que a gente faz.”

A B3 tem apostado na área de dados para diversificar suas fontes de receita. Em 2021, comprou a companhia de big data Neoway, a maior aquisição desde a fusão entre a BM&FBovespa e Cetip. Em 2022, adquiriu a Neurotech, reafirmando sua estratégia de avançar no segmento de tecnologia e de data analytics.

Procurado, o Mubadala Capital não respondeu ao pedido de entrevista.