Do sonho dos 150 mil pontos à realidade dos 120 mil: entenda a bolsa em 2024 e o que vem por aí

Bolsa caiu aquém dos 120 mil pontos e a realidade dos juros afastou investidores; saiba se meta de 150 mil pontos ainda é viável

Ibovespa em patamar nominal recorde pelo segundo ano seguido, batendo os 150 mil pontos. Otimismo generalizado relacionados aos ativos de risco brasileiros. E isso seria impulsionado pela queda dos juros aqui e no exterior. Esse era o cenário pintado por agentes do mercado no início de 2024. Mas, nos últimos dias, tudo parece ter virado de ponta-cabeça.

A bolsa caiu aquém dos 120 mil pontos e a realidade dos juros afastou investidores dos ativos de risco não só brasileiros, mas de países emergentes em geral.

Ainda assim, a perspectiva de boa parte dos analistas continua positiva para o Ibovespa até o final do ano. Saiba se os ganhos vislumbrados para a bolsa brasileira ainda devem se aproximar dos 150 mil pontos imaginados anteriormente. Ou se as projeções foram enterradas definitivamente.

Anatomia de uma queda

Para Daniel Gewher, estrategista-chefe de ações no Itaú BBA, a explicação para a queda “é em parte global e parte doméstica”.

Ele explica que, desde o início de 2024, a expectativa do mercado para o início do ciclo de corte de juros americano foi sendo postergada.

“Com isso, houve uma correção nos mercados de ações globais de beta maior (exceto o mercado americano, que foi muito beneficiado pela performance das big techs), mais que revertendo a alta observada no final de 2023”.

Já no cenário doméstico, “esse nível de cautela mais elevado do banco central americano trouxe incertezas também sobre a continuidade e magnitude da trajetória de cortes da taxa Selic pelo BCB”, explica Gewher.

Além disso, o BBA vê “deterioração das perspectivas fiscais”. Isso porque o mercado tem visto incerteza sobre o atingimento de metas, basicamente um descompasso no balanço entre gastos públicos e arrecadação.

Estimativa é mais discreta, mas ainda positiva

Ainda assim, há perspectiva de ganhos importantes para a bolsa “com crescimento de lucro das empresas da bolsa nesse ano impulsionado principalmente pelas empresas dos setores domésticos e financeiro, enquanto as empresas de commodities devem ter crescimento mais tímido”, acrescenta.

A projeção do Itaú BBA é de 145 mil pontos para o final de 2024.

Juros altos preocupam

Diante das quedas recentes, a Guide reduziu o target do Ibovespa para 140 mil pontos contra os 155 mil pontos anteriores.

Para a Guide, a explicação dessa queda – no que já aconteceu e nas projeções – começa com a deterioração do cenário macroeconômico no Brasil.

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A queda está relacionada “principalmente a Selic mais alta e o aumento do endividamento e risco fiscal do país, que deve continuar afugentando investidores”. A aposta é de Fernando Siqueira, head de research da Guide, em relatório.

Lucros das empresas crescem, mas mercado não se anima

Contudo, a dinâmica dos lucros das empresas brasileiras que operam na bolsa tem sido positiva em 2024. “Apesar de alguns resultados fracos em grandes empresas do índice, como Vale e Bradesco, as projeções para o lucro do Ibovespa como um todo segue em alta”, reconhece Siqueira. Com isso, a Guide prevê “que o Ibovespa irá continuar negociando a múltiplos baixos por mais tempo”.

No Brasil previa-se juros caindo até o patamar de 8,75%. “Hoje, a curva precifica chance de alta até o fim do ano. Esta mudança impacta fluxo de investidores estrangeiros, bem como precificação das ações, para baixo”, destaca Ricardo Pompermaier, estrategista-chefe da Davos Investimentos.

“Não acreditamos que o índice suba até este patamar com o cenário atual. Podemos mirar um índice no melhor dos casos ao redor de 140 mil pontos, mas está com cara que antes de subir cairá mais”, sentencia Pompermaier.

Exterior impacta Ibovespa

Outra questão importante, segundo os analistas, é a expectativa de menos cortes de juros nos Estados Unidos, que “deve ocorrer bem mais tarde do que projetávamos anteriormente”, complementa Siqueira, da Guide.

No final do ano passado, o mercado esperava sete cortes a partir de março. “E agora não temos uma projeção definitiva, o mercado avalia que talvez um corte próximo do meio do ano”, diz Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial.

Outro fator importante, segundo Villegas, é a situação da China, que não dá sinal claro de recuperação de sua economia a níveis passados. Isso é explicitado, segundo o estrategista, por dados fracos de demanda por insumo e inflação muito baixa.

“Não tem uma perspectiva de crescimento que possa impulsionar o preço de commodities e acabamos tendo inflação negativa ou no mínio neutra para empresas exportadoras”, diz Villegas.

“Nesse sentido, estímulos do mercado de construção chinês, que favoreceriam empresas de minério, como a Vale, acabaram não se concretizando”. A afirmação é de Pedro Nery, especialista em investimentos do Grupo Fractal ao mencionar a queda de mais de 20% da Vale (VALE3).

Vale - Ações em queda no Ibovespa Foto de um edifício da Vale com o logo da companhia. A matéria mostra a agenda de quem vai pagar dividendos e JCP em dezembro.
Logo da mineradora Vale (VALE3) – Foto: Washington Alves/Reuters

A mineradora é a segunda maior empresa do Ibovespa e responde por algo em torno de 14% do índice.

Questão fiscal também pesa negativamente sobre a bolsa de valores

Para alguns analistas, há também a questão da situação fiscal do Brasil. Alguns agentes do mercado consideram preocupante o fato de o país não alcançar déficit zero em 2024.

“Hoje, a foto Brasil é bonita porque a gente entrega crescimento econômico, a inflação é das menores. Porém, olhando para o futuro, a situação é mais complexa. O mercado entende que tudo que está sendo feito de gasto será pago com inflação. E neste caso, seria necessário subir as taxas de juros”, avalia o estrategista da Genial.

“Estas questões fiscais e monetária afetaram diretamente a curva de juros de longo prazo, fazendo subir os juros futuros”, diz Moisés Jardim, sócio da Fundamenta Investimentos.

“Com uma curva de juros mais alta, os ativos de renda variável sofrem com a migração dos investidores para a renda fixa”, complementa Jardim. Ele prevê nova trajetória de alta para o Ibovespa, mas vê como “comprometida” a chance de chegar a 150 mil pontos.

Cisne negro: o mistério depois dos 130 mil pontos do Ibovespa

Apesar das projeções anteriores para o Ibovespa terem ido em uma mesma direção – alta até patamares próximos de 150 mil pontos – “não existe trigger para a bolsa e para esse patamar”, diz Fernando Bresciani, analista de ações do Andbank.

Portando, a bolsa em 130 mil pontos era um cisne negro, nunca visto até então. E as características que apresentariam depois de atingido esse patamar também eram um mistério.

“A gente sabe que ela (a bolsa) está barata. Os resultados do segundo trimestre devem ser muito bons ainda. E aí isso vai deixar as empresas mais baratas ainda, pelos múltiplos mais baratos, mas só isso não quer dizer que ela vá bater 150 mil pontos”, pondera Bresciani.

Fluxo de caixa descontado piorou condição do Ibovespa

O fluxo de caixa descontado, um dos indicadores utilizados pelos analistas para ver a situação das empresas da bolsa, piorou. Essa é a percepção de Marcos Moreira, sócio da WMS Capital. Essa avaliação pega toda capacidade de geração de caixa no futuro, desconta o custo médio de capital e traz a valor presente.

Nesse sentido, “o custo médio está relacionado a taxa de juros, e se os juros estão mais altos, o caixa futuro trazido a valor presente será mais baixo. Os juros futuros subiram e o valuation das empresas passa a ser menor”, avalia Moreira.

Carlos Paiva, estrategista da Constância investimentos, também vê queda do valor justo de longo prazo das empresas listadas. Além disso, ele cita “aumento do custo de capital de terceiros, o que prejudica o resultado operacional das empresas” como um dos fatores a puxar o valor da bolsa para aquem dos 150 mil projetados inicialmente.

“Diante desse quadro, nos parece pouco factível que o Ibovespa alcance o patamar de 150 mil pontos em 2024, ainda que possa haver uma recuperação em relação às quedas recentes”, diz Paiva.

“Retomar o patamar de 134 mil alcançado no final de 2023 é uma hipótese mais razoável, desde que as condições macroeconômicas não se deteriorem ainda mais”, arremata.