Como a gripe aviária já afeta as ações de BRF (BRFS3), Marfrig (MRFG3) e JBS (JBSS3)

Papéis ficaram entre os piores desempenhos do Ibovespa; veja análise de especialistas

O mercado ficou em alerta na terça-feira (23) com a queda nos preços das ações dos frigoríficos brasileiros. O motivo é a emergência zoosanitária nacional decretada pelo Ministério de Agricultura e Pecuária em função dos cinco casos confirmados de gripe aviária no Espírito Santo.

As ações de de duas das maiores empresas do setor no Brasil amanheceram no Ibovespa em queda e aprofundaram perdas. Durante a terça-feira, BRF (BRFS3) estava entre as piores performances do índice, e fechou o dia com queda de chegaram 4,91%, enquanto Marfrig (MRFG3) despencou 5,18%.

Nesta quarta-feira (24), a BRF seguia entre as principais perdas da bolsa brasileira, fechando com baixa de 5,42%, cotadas a R$ 7,33. A Marfrig registrou perda de 2,28%, cotada a R$ 6,44; enquanto a JBS (JBSS3) cedeu 5,01%, fechando a R$ 16,13.

Afinal, o quanto a gripe aviária contamina as ações do setor? Especialistas ouvidos pela reportagem da Inteligência Financeira afirmam que o efeito a ser sentido pode ser principalmente na receita de JBS, Marfrig e BRF com exportações a parceiros comerciais. Minerva deve ficar ilesa, já que 100% de sua operação está restrita à carne bovina.

Todos de olho em BRF (BRFS3) e Marfrig (MFRG3)

As ações de BRF (BRFS3) são, obviamente, a mais afetada pelos casos de gripe aviária. O temor dos investidores é de que a zoonose deixe de afetar apenas aves silvestres, como afirmou o Ministério da Agricultura, e contamine as granjas. O principal destino das aves é para fora do país.

A companhia avisou que, no último trimestre, sua receita líquida com exportações caiu 23,2% na comparação com os últimos três meses de 2022, para R$ 962 milhões.

No primeiro trimestre de 2023 apontam dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia), houve uma queda de valor nas exportações brasileiras de 5,8% para a carne de frango e de 4,0% para a carne suína.

Embargos podem prejudicar ações de BRF no longo prazo

O maior medo do mercado é que o descontrole da gripe aviária impacte as exportações, já que players importantes para a empresa, como China, EUA e o mercado de proteína hallal – países do Oriente Médio e Turquia – podem impor embargos ao frango brasileiro.

Cerca de 50% da margem de receitas da BRF está ligada às exportações, afirma Hugo Queiroz, sócio da corretora L4 Capital, em entrevista à IF. Ele afirma que, do conjunto de R$ 50 bilhões em lucro bruto de exportações, a companhia poderia ter impacto negativo de R$ 30 bi.

“Se houver embargo, é retira a parcela dos produtos [da BRF] que são exportados e vão para Ásia, vizinhos da América Latina e mercado hallal”, afirma. “Agora pode haver um movimento de redução de oferta doméstica se a gripe se espalhar pela cadeia de fornecimento das grandes empresas. Se isso ocorrer, gera mais impacto em metade da receita de BRF.”

Por enquanto, ressalta Flávio Conde, analista da Levante Investimentos, a notícia da gripe aviária ainda não levou o mercado ao pânico, apesar das quedas das ações de BRF e Marfrig.

Marfrig (MRFG3) e BRF (BRFS3) têm ‘queda natural’

Há quem defenda que os papéis de Marfrig e BRF estão em queda por um reajuste natural precificado pelo mercado após uma série de pregões em alta.

Isso porque a notícia da gripe aviária ainda não foi totalmente precificada pelo mercado e não pressiona os ativos. Na análise de especialistas, o Ministério da Agricultura decretou emergência nacional para desburocratizar fiscalizações e tentar conter o surto. A ação da pasta, na qual a Faria Lima deposita confiança, é vista com bons olhos.

Vale destacar que a queda dos papéis ON de Marfrig se devem pelo fato de a empresa ser controladora da BRF. A empresa e seu sócio de referência, o empresário Marcos Molina, detém 33,25% das ações da companhia.

Mercado acha que gripe ‘não vai dar em nada’, diz analista

O mercado está cauteloso, mas acha que a gripe aviária “não vai dar em nada”, diz Sidney Lima, analista financeiro.

Para o especialista, apesar de assustar os investidores pessoa física, “o investidor institucional, que é quem faz preço na bolsa, não olha a por uma ótica ruim” a emergência sanitária.

Outro aspecto que pode influenciar na baixa das ações é um pico recente dos papéis ordinários de Marfrig e BRF. Entre 18 e 22 deste mês, as ações ON de Marfrig tiveram alta de quase 15%. O reajuste para cima de BRF foi ainda maior: BRFS3 subiu 28,27% entre 17 e 19 de maio. Desta forma, o reajuste representa a venda dos títulos surfando a recente alta, explica Lima.

“Nos últimos dias, tivemos uma alta das ações dos frigoríficos impulsionada por uma demanda maior vinda da China, o principal parceiro comercial do Brasil”. Lima descreve alta de Marfrig e BRF como “atípica” e que hoje, com o anúncio do Ministério da Agricultura, o mercado tende a jogar o preço dos papéis para baixo.

Enquanto isso, o que ocorre com JBS (JBSS3) e Minerva (BEEF3)?

A gripe aviária pode influenciar nas ações da JBS (JBSS3), maior frigorífico do Brasil, avaliam analistas. A companhia tem sob seu guarda-chuva a Seara, que comercializa e exporta frango para países vizinhos e o mercado hallal.

Mas o impacto na companhia da holding J&F seria bem menor do que em BRF e Marfrig, afirma Queiroz, da L4 Capital. Ele afirma que 30% receita de Seara é oriunda de exportações. Um eventual embargo de parceiros comerciais do Brasil poderia gerar impacto negativo de R$ 6 bi nas receitas, diz.

As ações da JBS nesta quinta-feira também estão em queda. Os papéis ON (JBSS3) despencaram 2,10% ao fim do pregão da bolsa.

A Minerva é a única entre as maiores empresas do setor que pode, por outro lado, se beneficiar diante de uma infecção da gripe aviária nas granjas dos frigoríficos. A principal vantagem da empresa é que a cadeia de produção é 100% bovina, e eventuais embargos podem significar aumento de volume de exportação para países como a China.

Entre os frigoríficos, as ações da Minerva são as que melhor performam nesta terça-feira, apesar do viés de queda. Os títulos ordinários da empresa (BEEF3) apresentam baixa de 0,97% no Ibovespa.

Além disso, a Minerva obteve autorização para exportar carne de sua planta em Mirassol do Oeste (MT) carne para os Estados Unidos, o que beneficia as ações no curto prazo.

Mesmo com gripe aviária, perspectiva é positiva para o setor

Mesmo com a emergência sanitária, analistas destacaram que o setor está sendo negociado abaixo do preço médio na bolsa de valores.

Nicolas Farto, sócio da Vértiq Investimentos, destaca que o preço das commodities que compõem grande parte do custo operacional dos frigoríficos está com tendência de queda. Os preços de milho e soja, usados para confeccionar a ração para o mercado aviário, caíram 7% e 20% no agregado anual, respectivamente.

A Sadia, destaca Hugo Queiroz, pode se beneficiar das quedas para diminuir a fatia de 80% de seu custo de operação com granjas, o que inclui alimentação dos animais. Para a Seara, da JBS, esse custo representa 45% a 50% da operação.

“Em um setor de frango in natura, onde margens são apertadas, isso representa um ganho significativo”, argumenta o especialista. Mesmo em caso de embargos, a queda nas commodities pode aumentar o Ebitda de BRF e JBS. “O indicador vem comprimindo há 18 meses do setor, podemos ver a recomposição de custo tirando efeito de barreira sanitária, terá a mesma demanda com oferta reduzida.”

Para Farto, as recentes altas em BRFS3 e MRFG3 também são reações do setor às quedas na curva de juros futuros e sinalizações de queda da Selic no 2º semestre.

A L4 Capital avalia que o setor têm tendência de valorização no curto prazo, dado que o múltiplo de valor das empresas — JBS, Marfrig e Minerva — pelo Ebitda está “abaixo do múltiplo justo” de concorrentes internacionais, como a Tyson Foods.

Gripe agravou crise na Argentina

Por fim, Fabrício Gonçalvez, CEO da Box Asset, afirma que a vizinha Argentina enfrentou problemas mais graves com a disseminação da gripe aviária pela cadeia comercial, com embargo em suas exportações de proteína aviária por 20 dias.

Esse impacto seria significativamente maior para o Brasil caso a gripe se espalhasse, diz Gonçalvez.

“A Argentina possui uma relevância menor no mercado mundial [de proteína aviária] em comparação com o Brasil. Portanto, se o Brasil enfrentar restrições comerciais devido à gripe, o impacto seria consideravelmente maior”, conclui.