Na corrida pelo consumo desenfreado, principal preocupação do jovem é ser rico

Não faz muito tempo, os desejos das crianças eram outros: ser professora, médica, bailarina. Hoje, eles querem ser ricos. Qual o papel dos pais na educação financeira dessas crianças?

Você sabe de onde vem o dinheiro? Perguntei a uma menina de 12 anos, em uma tarde, enquanto comíamos uma pizza em um bairro chique de São Paulo. Impecavelmente vestida, portando bolsa e celular, a jovem, surpresa com a pergunta, titubeou, mas arriscou: “não sei não, acho que é do trabalho”.

Insisti no assunto:

⁃ Mas, você gosta de gastar dinheiro, não?
⁃ Gastar! Eu a-do-ro gastar!
⁃ Por que você gosta tanto de gastar dinheiro?
⁃ Porque me sinto rica.

Não faz muito tempo, os desejos das crianças eram outros: ser professora, médica, bailarina. Hoje, elas querem ser ricas.

Ser rico é o desejo

Segundo um levantamento apresentado no livro “Born to Buy: The Commercialized Child and the New Consumer Culture” (Nascido para comprar: a criança comercializada e a nova cultura de consumo), de Juliet B. Shor, ser rico é o desejo de 75% das crianças norte-americanas.

As crianças brasileiras, pelo visto, estão indo pelo mesmo caminho.

Um desafio para pais e mães, preocupados com investimentos para os filhos, afinal, o que é ser rico? Que patamar de riqueza, por exemplo, esta menina considera ideal?

Corrida do consumo

O filósofo e economista Eduardo Gianetti chama este fenômeno de “corrida armamentista do consumo”, em analogia à corrida armamentista ocorrida entre os Estados Unidos e a União Soviética, durante a guerra fria.

No consumo, afirma Gianetti, também corre-se o risco de cair na compulsão de querer sempre comprar mais, não importa o quanto já se tem. Se para adultos isso é prejudicial, para crianças, há um sério risco de comprometer a saúde mental e o futuro como um todo.

A descoberta de que há um percentual tão grande de crianças cujo desejo é simplesmente ser rico, deve ser também fonte de preocupação para governos, tanto em termos de saúde pública, quanto em nível educacional. Afinal, são esses jovens que irão mover a economia, a cultura, a ciência e tecnologia das nações.

Consumismo exacerbado

Assim, ao pensar na educação financeira dos filhos, pais e mães devem priorizar os ensinamentos que evitem a consumismo exacerbado, a fim de que sejam capazes de construir um patrimônio sustentável na vida adulta.

Ensinamentos que, a meu ver, são mais importantes que legar uma grande fortuna. Afinal, não são raros os casos de filhos que destroem, em pouco tempo, um patrimônio que levou uma vida para ser construído.