Mercado cripto estanca perdas com dado de inflação e euforia em Wall Street

Melhora das cotações, no entanto, está longe de sugerir que o pior tenha passado para a indústria de criptoativos

Depois de três dias seguidos de forte turbulência que levaram mais de US$ 200 bilhões do conjunto de moedas digitais, o mercado de criptoativos conseguiu estancar as perdas na quinta-feira (10) e teve um dia de recuperação com a euforia em Wall Street após sinais de desaceleração da inflação em outubro nos EUA.

O bitcoin (BTC), que havia derretido até a mínima de US$ 15.663 na quarta com o fracasso do resgate da FTX.com pela Binance, subiu até 12% e voltou próximo de US$ 18 mil, seguindo à alta de 7,21% da Nasdaq, bolsa em que são negociadas as ações do setor de tecnologia.

O ether (ETH), moeda nativa da rede Ethereum, teve desempenho ainda melhor, com valorização na casa de 15% e retomando o patamar de US$ 1.300, perdido com a crise da FTX.

A melhora das cotações, no entanto, está longe de sugerir que o pior tenha passado para a indústria de criptoativos diante da possível quebra de uma das maiores exchanges de ativos digitais do mundo, com repercussão em todo o segmento de criptoativos e ecossistemas nativos de blockchain.

É o caso da Solana, rede blockchain investida pela FTX e que promove uma série de aplicações de finanças descentralizadas (DeFi) e smart contracts, com custo competitivo em relação ao Ethereum. A moeda da rede, a Sol (SOL) subiu mais de 36% nesta quinta, mas ainda acumula perdas de 52% desde o domingo com a situação da FTX.

Sem o socorro da Binance, a FTX busca formas de levantar recursos para fazer frente à crise de liquidez e honrar resgates de mais de US$ 5 bilhões recebidos. O CEO da empresa, Sam Bankman-Fried, foi ao Twitter pedir desculpas e tentar explicar a situação da exchange e os esforços para estancar a crise. A empresa precisa levantar cerca de US$ 8 bilhões para honrar as demandas.

Perto das 18h35 (horário de Brasília), o bitcoin tinha alta de 10,9% nas últimas 24 horas, negociado a US$ 17.970,22, enquanto o ether subia 14,7% para US$ 1.331, conforme dados do CoinGecko. O valor de mercado somado de todas as criptomoedas era de US$ 938 bilhões – US$ 132 bilhões menos do que na manhã de segunda-feira desta semana.

Em reais, as criptomoedas foram ainda beneficiadas pela alta do dólar, que subiu 4,1% para R$ 5,417 com as incertezas fiscais em relação ao governo Lula. O bitcoin tinha alta de 16,37% a R$ 96.751, enquanto o ethereum subiu 23,08% a R$ 7.186,24, de acordo com valores fornecidos pelo MB.

Para Ayron Ferreira, chefe de análise da Titanium Asset, o CPI menor que o esperado ajudou a acalmar o mercado cripto.

“Foi uma ótima notícia. Para ajudar ainda mais, precisa ter uma negociação da FTX com algum player disposto a salvá-la. Seria ótimo o mercado se ajustar com essas questões internas para aproveitar de uma melhora no cenário macroeconômico, com os juros continuando a fazer efeito na inflação e um possível pivô do Fed no ano que vem”, disse.

Israel Buzaym, sócio da Bitpreço, pontua a preocupação dos investidores com a possibilidade de quebra da FTX, que causou perdas no mercado como um todo. “É importante destacar que o problema que praticamente levou à ruína uma das maiores empresas cripto do planeta reforça o que sempre recomendamos aos nossos investidores: mantenham seus bitcoins em suas wallets e não nas exchanges”, disse.

Para Humberto Andrade, especialista em criptoativos da Cryptoverso Brasil, o mercado segue atônito e preocupado com o desenrolar do caso FTX, que tem potencial depreciativo para a indústria como um todo.

“O interessante é que mesmo com as movimentações de preço acontecendo de maneira rápida, o mercado não estava tão alavancado, o que pode ter reduzido ainda mais os prejuízos dos investidores cripto. Isso se reflete num movimento de liquidação com pico significativo no dia de ontem (cerca de US$ 104 milhões), mas menor do que outros eventos anteriores, como no crash da terra-luna”, disse.

Segundo Andrade, outro dado relevante a ser considerado é que os investidores se utilizaram dos ativos digitais como colateral para se protegerem na queda, o que reforça o interesse do mercado em continuar explorando ativos mais sólidos em cenários de muito stress de mercado.

“Isso é um ponto positivo que demonstra um certo amadurecimento do investidor cripto, dando a entender que cada vez mais o próprio mercado tem buscado encontrar alternativas dentro dele mesmo ao invés de buscar proteção em moeda fiat”, disse.