Marcos Lisboa: ‘Brasil tem comportamento de país pobre’

Economista avalia que a discussão fiscal no país 'está muito mal feita'

O Brasil tem tido um comportamento de país pobre, com recessões frequentes, severas e uma atividade que, quando consegue crescer, demonstra apenas avanços modestos. Esse é o diagnóstico do economista Marcos Lisboa, que participou do “Encontros de Valor” nesta quarta-feira, evento promovido pelo jornal Valor Econômico em parceria com a XP Empresas.

“Nos melhores anos dos últimos 20 anos, nos governos Lula, a gente cresceu medíocre, na média do mundo”, observou Lisboa, que já foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 e 2005.

Para Lisboa, o nome do jogo no Brasil tem sido “volatilidade”, com momentos “razoáveis” e outros “desastrosos”. “Isso é uma economia de alto risco, o que traz desafios imensos para a gestão do setor privado”, afirmou.

E o atual governo, ao tentar baixar os juros, tem desencadeado um efeito contrário, gerando mais volatilidade, disse. Lisboa lembrou também que políticas como crédito subsidiado via BNDES fracassaram no passado, e a agenda para tirar o Brasil desse “ciclo permanente de sobe e desce”.

Caio Megale, economista-chefe da XP, observou que os determinantes do crescimento brasileiro – capital humano, investimento e produtividade – não são bons.

Para ele, a “vontade” e a “ansiedade” para crescer e entregar resultados já nos cem primeiros dias de um governo, por exemplo, são comuns, mas “não é da noite para o dia que vamos criar um ambiente e no segundo semestre o país vai estar bombando”, afirmou.

Ter uma visão mais de longo prazo seria algo importante, frisou Megale. “É a consciência de que não tem pílula mágica, corta o juro e o Brasil vai bombar na frente. É uma somatória de reformas que precisamos fazer ao longo do tempo para que o país cresça.”

Lisboa ponderou que existe, por sua vez, “um mito de crescimento” de que é só fazer “meia dúzia de reformas”, o país “sai crescendo” e vira uma nação rica. “O crescimento em uma economia, como nas empresas, é um processo de ganhos de produtividade recorrentes. É todo ano fazer um pouco melhor do que antes”, afirmou.

De qualquer forma, para que esse processo aconteça, é preciso ter boas regras para o jogo, disse. “A diferença entre países pobres e ricos é que países pobres protegem empresas ineficientes. A gente protege empresas pouco produtivas”, observou Lisboa.

Discussão fiscal

O país “cometeu um desatino fiscal nos últimos anos”, o que gerou pressão “muito grande” na política monetária, afirmou o economista Marcos Lisboa. “Por que o Brasil precisa de tanta taxa de juros para baixar a inflação? Porque nosso fiscal é fora de controle”, perguntou e respondeu Lisboa.

E, ainda assim, a discussão fiscal “está muito mal feita” no país, disse. “Estamos discutindo a superfície sem entrar no problema. E não acho que vai ter arcabouço fiscal que vai dar conta do problema, é um pouco de desejo mágico”, afirmou.

Na sua avaliação, o teto de gastos foi bem-sucedido. “A curva de juros despenca, os juros longos caem severamente. Rapidamente, o BC começa a reduzir juros de curto prazo, a inflação estava caindo”, lembrou.

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O “problema de fundo”, segundo ele, é que o teto provocava a discussão sobre avaliação das políticas públicas, o que não aconteceu e não tem acontecido no país.

“A gente não discute impacto de política pública. Só entra o discurso de quanto vai gastar, quanto vai investir e não entra na discussão sobre eficácia. Vai empilhando políticas, o gasto não para de avançar e a gente não consegue fazer avaliação”, afirmou.

“O teto de gastos foi um convite à sociedade para esse debate e o convite não foi aceito”, brincou Caio Megale. O economista-chefe da XP disse não esperar “algo muito forte e rígido” do novo arcabouço fiscal, “com poder de reancoragem das expectativas” como foi o teto de gastos, afirmou.

E a reforma tributária?

Marcos Lisboa, que foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 e 2005, se diz “um pouco pessimista” com os rumos da reforma tributária em debate. Ainda que o governo conte com um nome de peso para o tema – Bernard Appy, secretário especial da pasta para a reforma tributária -, o setor privado não entende a reforma, segundo o economista.

“Cada setor fala que seu caso é diferente e acaba virando um caos. Cada um no seu lobby. Tenho muito medo dessa disfuncionalidade brasileira”, afirmou durante o “Encontros de Valor”.

Para Lisboa, é preciso acertar os “freios e contrapesos” do Estado, disse, citando como exemplo o tamanho do contencioso tributário no país. “A agenda importante é começar a botar a casa em ordem.”