Guerra em Israel mudará o curso dos juros nos EUA e no Brasil? Economistas respondem

Especialistas avaliam possíveis desdobramentos de uma escalada dos preços do petróleo com uma entrada de mais países no conflito

A possível escalada do conflito entre Israel e o Hamas pode impactar a política monetária no Brasil e nos Estados Unidos?

Segundo economistas consultados pela Inteligência Financeira, ainda é cedo para responder essa questão de forma assertiva.

“Isso depende de uma possível escalada do conflito, se houver a entrada de outros países”, disse Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank.

Entre as nações que têm sido mais citadas nesse caso estão o Irã e a Arábia Saudita, dois dos maiores produtores de petróleo do mundo.

O receio neste caso é que isso provoque uma escalada do preço global do petróleo.

Isso foi expresso no salto de 4,3% no preço do barril do petróleo WTI para novembro na segunda-feira, a US$ 86,38 o barril, segundo dados do CME Group.

Foi a maior alta diária em seis meses, segundo a Dow Jones Newswire.

E daí?

Segundo o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria, um horizonte de preços altos por muito tempo pressionaria autoridades monetárias a responderem com aumento de juros para tentar controlar os preços.

“A alta do petróleo é um tema naturalmente inflacionário”, disse ele.

Isso encontraria os BCs em diferentes estágios do ciclo de combate à inflação, uns ainda subindo juros, como nos EUA, outros já fazendo o caminho contrário, caso do Brasil.

Nos Estados Unidos, onde a taxa de juros na faixa de 5,25% a 5,50% já é o recorde em mais de duas décadas, as apostas em uma intensificação do ciclo aumentariam.

Isso, num momento em que os números de atividade econômica no país já têm elevado apostas de que a autoridade monetária terá que subir ainda mais a taxa básica.

Nessa terça-feira, os contratos de juros futuros dos EUA tinham leve alta.

Consequências para o Brasil

Este cenário poderia induzir uma migração de investimentos alocados em ativos de maior risco, como os de mercados emergentes, para os EUA.

A saída de recursos de países como o Brasil provocaria desvalorização cambial.

Isso, num ambiente de petróleo já mais caro, teria uma pressão inflacionária dupla.

A Petrobras (PETR4) poderia amenizar o efeito de um repique do petróleo, repassando aumentos de forma mais escalonada, disse Salles, do C6.

Porém, num período mais longo, isso poderia levar o BC a diminuir ou mesmo paralisar o ritmo de cortes de juros.

Desde agosto, o Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a Selic em dois movimentos de 0,5 ponto percentual cada.

A autoridade monetária também sinalizou outros dois cortes da mesma intensidade até o fim do ano.

Inflação ou recessão

No outro extremo, um envolvimento de outras geografias como Estados Unidos e a União Europeia, por exemplo, a preocupação maior passaria a ser a de esfriamento da economia.

Isso, num ambiente em que a expectativa de atividade no mundo é de desaceleração para 2024, especialmente por causa de China e Europa, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

“Dependendo da escalada das tensões, a guerra pode comprometer perspectivas econômicas”, disse o economista da Tendências.

Questionado nesta terça-feira sobre os possíveis efeitos econômicos de uma guinada da guerra sobre a economia global, o diretor do departamento de Estudos do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, disse que ainda é cedo para fazer projeções.

“Teremos que esperar um pouco antes de ver qual poderá ser o impacto”, afirmou.

Nada acontece… por enquanto

Para Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central e atual professor da Georgetown University, no cenário base não deve acontecer nenhuma das duas coisas.

“Não acho que haja nada demais, se não houver envolvimento de outros países, o que nesse momento me parece improvável”, disse ele.

Apesar da turbulência no começo da segunda-feira, uma parcela dos mercados parece ter fechado a segunda-feira acreditando nessa possibilidade.

Essa leitura ganhou força após o vice-presidente do Federal Reserve, Phlip Jefferson, ter dito que o órgão atuará com cautela ao avaliar a necessidade de mais aperto monetário.

Em dia sem negócios no mercado de juros nos EUA, devido ao Dia de Colombo, coube aos mercados de ações servirem de termômetro do ânimo dos investidores.

As bolsas de Nova York reverteram, fechando no azul, movimento seguido pelo Ibovespa, principal índice brasileiro de ações, movimento que se estendia nesta sessão.