Ainda é possível um caminho para um futuro carbono zero?

Mitigação das mudanças climáticas depende de grande coordenação entre setores público e privado

Entre meados de 2021 e o início de 2022, o Brasil passou por uma longa estiagem, que ameaçou colapsar nosso sistema energético. Soma-se a isso, uma temporada de chuvas intensas, que teve como marco a tragédia de Petrópolis, arrasada por chuvas que deixaram centenas de mortos. Esses eventos estão diretamente relacionados ao tema proposta para este artigo: Ainda é possível um caminho para um futuro carbono zero?

Já a Alemanha sofreu com temporais destruidores no ano passado e, pouco mais de 12 meses depois, vê seu principal rio, o Reno, secar a ponto de se tornar inavegável. Eventos climáticos extremos como esses mostram que o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, talvez não tenha exagerado. Guterres disse, na abertura da COP 27, que estávamos em uma “autoestrada para o inferno climático, com o pé no acelerador”.

Alguns dados ajudam a reforçar a fala alarmante do líder da ONU. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), os últimos oito anos foram os mais quentes de que se tem registro. Já o Acordo de Paris, firmado na COP 21, em 2015, colocou como meta limitar em até 2°C o aumento da temperatura média do planeta em relação ao período pré-industrial, de preferência, chegando a 1,5°C. Mas a OMM aponta que já estamos com um aumento de 1,15°C desde o início da industrialização.

Mudanças de comportamento

Se até aqui o copo parece meio vazio, não podemos deixar de constatar as mudanças de comportamento ao redor do mundo. Em sua coluna no jornal britânico Financial Times, John Burn-Murdoch publicou dados que mostram que, a partir de 2016, 70 países ao redor do mundo conseguiram manter por cinco anos seguidos uma trajetória de crescimento econômico ao mesmo tempo em que diminuíram suas emissões de carbono. Essa informação vai contra o senso comum de que mais crescimento só pode ser obtido com mais poluição.

Há duas razões para esse fenômeno. De um lado, está a transição de uma economia industrial intensiva no uso e emissão de carbono para uma outra baseada em serviços. De outro, as inovações tecnológicas que permitiram uma queda rápida no custo de geração de energia renovável por fontes solares e eólicas, que vêm se tornando mais barata do que as poluentes usinas de carvão.

Todos esses dados mostram que é, sim, possível pensar em crescimento econômico associado a uma queda de emissões de CO2. Também apontam que a tecnologia e a inovação são aliadas fundamentais em uma jornada com destino a um futuro carbono neutro. Colocar o mundo inteiro nesse caminho e, ao mesmo tempo, acelerar essa transição, é um desafio gigantesco, que exige parcerias entre setores público e privado e sociedade civil.

Uma outra estrada

O caminho para um futuro carbono neutro exige uma coordenação de ações em escalas enormes. Nesse contexto, o Brasil, detentor da maior biodiversidade do mundo, pode e deve ter um papel central. É praticamente impossível falar em mitigação das mudanças climáticas sem passar pela preservação de florestas, notadamente a Amazônica. Após alguns anos de aumento de queimadas, a região já vê sinais de mudanças que podem impactar nossas vidas de maneira definitiva.

De um lado, o nosso país acenou, durante a COP 27, com uma busca de maior protagonismo. Foi criada uma aliança estratégica entre Brasil, Indonésia e República Democrática do Congo, os três maiores países com florestas tropicais do mundo – e também os que mais desmatam. Uma ação coordenada pode ajudar a atrair os recursos necessários para o imenso desafio de recuperar e preservar os biomas dessas nações. E uma das demandas dos países em desenvolvimento é justamente que suas transições para uma economia carbono zero sejam financiadas pelos países desenvolvidos, que se beneficiaram por décadas da emissão de gases de efeito estufa.

Preservação da Amazônia

De outro lado, o setor privado também começa a articular iniciativas robustas para a preservação da Amazônia. A mais recente delas foi apresentada na COP 27. Trata-se da Biomas, empresa nascida da parceria entre Itaú Unibanco, Marfrig, Rabobank, Santander, Suzano e Vale com o objetivo de recuperar e preservar 4 milhões de hectares de floresta, área do tamanho da Suíça.

A iniciativa privada também tem papel importante em um dos pilares de uma economia verde, inclusiva e neutra em carbono: o financiamento da transição. A ONU, por exemplo, articulou o setor financeiro com a criação da Net-Zero Banking Alliance (NZBA), da qual o Itaú Unibanco faz parte, e que reúne bancos de todo o mundo, representando cerca de 40% dos ativos bancários do mundo. A meta dos participantes é atingir até 2050 a neutralidade de carbono em seus portfólios.

É fundamental que os participantes da NZBA sejam promotores dessa agenda e apoiem seus clientes nessa jornada rumo à neutralidade de emissões. Critérios ambientais, sociais e climáticos já são adotados na concessão de crédito e avaliação de riscos dos bancos que também ajudam seus parceiros a encontrarem inovações capazes de tornar seus negócios mais sustentáveis. A agenda climática impõe novos desafios como a necessidade de mensuração e reporte das emissões de gases de efeito estufa das empresas, a coerência entre o discurso sustentável com práticas reais das organizações, de maneira a evitar greenwashing.

Compromissos net zero

O Itaú Unibanco quer ser reconhecido como o banco da transição. Ou seja, o banco que entende o negócio e o momento de cada cliente, assim como suas possibilidades de gerar impacto positivo e construir estratégias capazes de atender às necessidades de todos os setores da economia, em linha com a responsabilidade climática que cabe a todos nós.

Durante a COP 27, foi dado um passo importante nessa direção. O Secretário Geral da ONU, António Guterres, lançou o primeiro relatório do grupo de alto nível de especialistas para desenhar regras claras para compromissos net zero. O relatório apresenta parâmetros para integridade dos compromissos Net Zero, com 10 recomendações práticas sobre compromissos, transparência e alinhamento com a ciência.

A padronização de regras, como a proposta pelo grupo de Guterres, é muito importante para acelerarmos em direção a um futuro com zero emissão. Ela permitirá, em nível global, a comparação de resultados e a realização de diagnósticos sobre o que está dando certo e o que precisa ser aprimorado. Vamos acreditar que as recomendações desse relatório representarão um farol em uma viagem noturna, que vai nos permitir enxergar o caminho para uma outra estrada, a que nos leve a um destino verdadeiramente sustentável.

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