Campos Neto nega que juro real não tenha caído após cortes na Selic

Para o presidente do BC, ainda que a inflação no Brasil esteja em trajetória de queda, a situação ainda requer atenção, pois a alta nos serviços segue acima dos níveis de 2018 e 2019

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, rebateu nesta segunda-feira (4) leituras de que a taxa de juros real – ou seja, que desconta a inflação – não caiu junto com os cortes promovidos pela autoridade monetária na Selic.

“Isso não é verdade. Quando a taxa nominal começou a cair, a taxa real ex-ante à frente também começou a cair”, disse, em palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Ele frisou que os juros reais recuam no Brasil mais do que em outros mercados emergentes.

Segundo ele, ainda que a inflação no Brasil esteja em trajetória de queda, a situação ainda requer atenção, pois a inflação de serviços segue acima dos níveis de 2018 e 2019.

O presidente do BC observou ainda que a economia segue surpreendendo, citando revisões para cima das expectativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2024 após a alta de 2,9% registrada no ano passado.

Autonomia financeira do BC

O presidente do BC defendeu ainda a ampliação da autonomia da autarquia. A autonomia financeira e administrativa, prevista em uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) em tramitação no Congresso, foi apontada por ele como um “passo natural”.

Conforme Campos Neto, quase todos os bancos centrais – mais de 90% – que têm a autonomia operacional contam também como a autonomia financeira. Com ela, o banco central pode definir sua própria política de pessoal, incluindo os salários pagos aos servidores, que têm se mobilizado por bônus e reajustes salariais.

Ao responder a perguntas sobre o tema após palestra na ACSP, Campos Neto disse ser importante preservar o quadro técnico qualificado do BC para manter a autarquia inserida na agenda de tecnologia e inovação, que trouxe frutos como a criação do Pix.

O sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo BC é, conforme Campos Neto, apenas a “ponta do iceberg” das inovações que estão sendo trabalhadas para ampliar a inclusão financeira no Brasil. “Por isso, é importante o BC funcionar de forma autônoma”, disse. “O corpo de funcionários do BC é técnico, e tenho confiança de que continuará técnico”, acrescentou.

Segundo o presidente do BC, os funcionários estão “muito comprados” no processo de autonomia do BC.

Campos Neto frisou que a remuneração, que leva servidores a trocar a autarquia por oportunidades no setor privado, tem causado crises internas no BC. Ao ressaltar que o debate precisa ser técnico, ele disse que não quer alimentar ruídos na mídia e revelou que o BC está preparando um documento sobre como foi a experiência de vários países que adotaram a autonomia financeira.

“Se bem explicado e conversado com o governo e o Legislativo, todos vão entender o beneficio dessa autonomia”, declarou Campos Neto, acrescentando que tirar o BC do orçamento da União permitirá que a autarquia faça melhores entregas à sociedade.

Lembrando da conquista da autonomia operacional, o presidente do BC disse que a possibilidade de incluir a autonomia financeira também foi considerada na época. A decisão, porém, foi de restringir a proposta à autonomia operacional, que era, como reconheceu Campos Neto, o ponto mais importante.

Questionado se a autonomia conquistada até aqui pelo BC é irreversível, ele respondeu que nada é irreversível, mas espera que seja.

Investimentos privados como alternativa a restrições fiscais

Campos Neto disse também que o Brasil precisa encontrar formas de estimular investimentos privados para contornar as restrições fiscais que limitam o espaço a gastos públicos. Ele citou o aperto fiscal ao defender que o setor privado seja o indutor do crescimento, ao invés dos gastos públicos.

Afirmou que o País precisa avançar na agenda de investimentos privados, citando como exemplo a desburocratização, já que o espaço fiscal para que o setor público ocupe sozinho esse papel esbarra na dívida e na carga tributária, as mais altas no mundo emergente.

Energia limpa

Entre as vantagens do Brasil, Campos Neto pontuou que o País consegue, como poucos no mundo, produzir com energia limpa.

Nesse sentido, o presidente do Banco Central manifestou a expectativa de que o Brasil comece a atrair mais investimentos em novos projetos de energia renovável.

Com informações do Estadão Conteúdo