Eleição domina conversas no mercado na semana, mas medo de estagflação define preços

Investores acompanham de perto os membros do comitê de política monetária do Fed, o banco central americano

Na semana que antecede o primeiro turno das eleições, a disputa entre candidatos a presidente (e governador, deputados estadual e federal, senador) vai dominar as conversas no mercado. Mas, diferentemente dos pleitos de 2018 e 2014, pouco tem afetado os preços dos ativos financeiros. Por dois motivos: primeiro, os líderes da corrida – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o incumbente, Jair Bolsonaro (PL) – já são bem conhecidos dos investidores; segundo, o mundo está preocupado com os efeitos de longo prazo de uma crise econômica ampla e profunda que se avizinha.

No que diz respeito aos candidatos a presidente, existe bastante questionamento sobre o programa de governo de Lula, que também está sendo criticado por não ter indicado ainda quem formaria sua equipe caso seja eleito. O apoio do ex-presidente do Banco Central (2003-2011) e ex-ministro da economia (2016-2018) Henrique Meirelles, anunciado na última segunda-feira (19) junto com o de outros ex-postulantes à Presidência, foi bem visto. Se Lula responde às perguntas sobre seus planos lembrando das realizações do seu governo, Meirelles personifica bem o período, que teve crescimento médio anual do PIB (Produto Interno Bruto) de 4,1%.

Tanto ele quanto Bolsonaro estão sinalizando a adoção de uma política fiscal frouxa, o principal medo dos investidores.

“Acabou o teto de gastos quando eu for o presidente da República”, disse Lula em comício na quadra da escola de samba Portela, no Rio de Janeiro, na tarde deste domingo (25). (Caso Meirelles viesse a fazer parte de sua equipe em um eventual novo mandato, esse certamente seria um ponto de atrito, pois o executivo foi um dos principais fiadores dessa legislação de austeridade, no mandato de Michel Temer, entre 2016 e 2018.)

Já Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, arquitetaram a chamada PEC (Proposta de Emenda Constitucional) Kamikaze para oficialmente mitigar os efeitos da pandemia de Covid-19 e, na prática, tentar comprar votos na eleição. Aprovada em julho deste ano pelo Congresso Nacional, autorizou a contabilização de um pacote de benefícios sociais de R$ 41,25 bilhões – com o aumento do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 e abonos de R$ 1.000 mensais para taxistas e caminhoneiros – fora do teto de gastos. Sendo reeleito, Bolsonaro está prometendo manter o valor maior para o Auxílio Brasil no ano que vem.

Nos próximos dias, o mercado estará atento às novas pesquisas de intenção de voto, às movimentações dos candidatos que estão na liderança, e ao último debate entre os postulantes à Presidência, às 22h30 da quinta-feira (29).

Estagflação

Sob qualquer presidente, o descontrole fiscal é perigoso. Gastar mais do que arrecada, sem freio, faz com que um país perca credibilidade ante os seus credores – os investidores nos títulos públicos, por exemplo –, que passam a pedir remunerações cada vez maiores, o que leva ao aumento dos juros. Adicionalmente, a enxurrada de dinheiro na economia pode pressionar a inflação.

Esse cenário seria especialmente prejudicial ao Brasil caso as previsões de analistas de muita turbulência para a economia global se concretizem.

A fim de combater a mais alta inflação em 40 anos, resultado do rompimento de cadeias de produção pela pandemia de Covid-19 e da guerra da Rússia na Ucrânia, os bancos centrais de muitos países têm aumentado os juros rápido e retirado os estímulos generosamente distribuídos nos últimos dois anos, por causa dos danos causados pelo novo coronavírus.

Esse movimento vem forçando uma reorganização do mercado de capitais. Os títulos de dívida (especialmente os soberanos) saíram de um longo período de hibernação por causa dos juros baixos (ou até negativos) para se tornar o porto seguro dos investidores, que estão abandonando alternativas tidas como mais arriscadas, como as ações de empresas negociadas no mercado de capitais. Esse foi um dos fatores que fizeram as Bolsas de Valores despencar na sexta-feira (23). A de Nova York caiu 1,62%, a de Londres perdeu 1,97%, e a do Brasil recuou 2,06%.

O outro problema que deve seguir assustando os investidores é a possibilidade de que a dose do remédio para combater a alta de preços seja alta demais, e, ao mitigar a inflação, os bancos centrais acabem jogando os países na recessão. Pior ainda se fizerem a atividade econômica desacelerar sem combater a inflação, porque algumas das suas causas tem a ver com a oferta de mercadorias, e não com a demanda, que é afetada pelo aumento de juros. A desaceleração econômica com inflação elevada é a temida estagflação.

O equlíbrio da política monetária é delicado. Por isso, os diversos pronunciamentos de membros do comitê que decide os rumos dos juros no Fed (Federal Reserve, o banco central americano), nos próximos dias, serão acompanhados palavra a palavra, em busca de pistas sobre como a instituição está avaliando a saúde da economia e o que pretende fazer daqui em diante.

Agenda da semana*

Segunda-feira (26)

  • 8h25 – Brasil: Boletim Focus
  • 10h – Zona do Euro: Discurso de Christine Lagarde, presidente do BCE
  • 11h – EUA: Discurso de Eric Rosengren, presidente da sucursal de Boston e membro do comitê de política monetária do Fed
  • 17h – EUA: Discurso de Loretta Mester, presidente da sucursal de Cleveland e membro do comitê de política monetária do Fed

Terça-feira (27)

  • 8h – Brasil: Ata do Copom
  • 8h30 – EUA: Discurso de Jerome Powell, presidente do Fed
  • 8h30 – Zona do Euro: Discurso de Christine Lagarde, presidente do BCE
  • 9h – Brasil: IPCA-15
  • 9h30 – EUA: Pedidos de bens duráveis (agosto)
  • 11h – EUA: Vendas de casas novas

Quarta-feira (28)

  • 4h15 – Zona do Euro: Discurso de Christine Lagarde, presidente do BCE
  • 8h – Brasil: Índice de evolução do emprego do Caged (agosto)
  • 9h – Brasil: Índice de preços ao produtor (agosto)
  • 11h15 – EUA: Discurso de Jerome Powell, presidente do Fed
  • 11h30 – EUA: Estoques de petróleo (semanal)
  • 12h – EUA: Discurso de Michelle Bowman, membro do comitê de política monetária do Fed

Quinta-feira (29)

  • 8h – Brasil: Relatório trimestral de inflação
  • 9h – Brasil: Reunião do CMN
  • 9h – Brasil: IGP-M (setembro)
  • 9h30 – EUA: Pedidos de seguro-desemprego (semanal)
  • 10h30 – EUA: Discurso de Jim Bullard, presidente da sucursal de St. Louis e membro do comitê de política monetária do Fed
  • 22h30 – China: PMIs industrial, não-industrial e composto (setembro)
  • 22h30 – Brasil: Último debate entre candidatos a presidente antes das eleições, na TV Globo

Sexta-feira (30)

  • 6h – Zona do Euro: índice de preços ao consumidor (setembro); taxa de desemprego (setembro)
  • 9h – Brasil: Taxa de desemprego (agosto)
  • 9h30 – EUA: Índice de preços PCE (agosto); gastos e renda pessoais (agosto)
  • 9h30 – Brasil: Dívida bruta/PIB
  • 10h – EUA: Discurso de Loretta Mester, presidente da sucursal de Cleveland e membro do comitê de política monetária do Fed
  • 10h – EUA: Discurso de John Williams, presidente da sucursal de Nova York e membro do comitê de política monetária do Fed
  • 12h – EUA: Discurso de Michelle Bowman, membro do comitê de política monetária do Fed
*Todos os horários são de Brasília

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