Ações do GPA despencam com discurso de ‘não acelerar’ mudanças após resultados fracos

Empresa registrou prejuízo líquido de R$ 1,1 bilhão no trimestre

Os resultados de quarto trimestre do GPA foram fracos, com resultado de vendas em linha com as estimativas, mas contração de margem e lucro impactado por uma série de efeitos excepcionais, avaliam alguns analistas.

No balanço divulgado na noite de segunda-feira (27), a varejista anunciou prejuízo líquido de R$ 1,10 bilhão no quarto trimestre, revertendo o lucro líquido de R$ 777 milhões registrado no mesmo período de 2021. O Ebitda da empresa caiu 25%.

Mesmo diante disso, o GPA buscou passar ao mercado nesta terça (28) que haverá melhora ao longo do ano, parte delas em andamento. Mas analistas passaram parte da teleconferência de resultados questionando os aspectos negativos, na tentativa de entender efeitos e razões da piora do balanço de outubro a dezembro de 2022.

Com os resultados apresentados na segunda e o discurso na teleconferência desta terça, as ações do GPA caíam 9,14% por volta das 14h16, cotadas a R$ 15,21. Nos últimos 12 meses, a empresa acumula perdas de quase 34%.

Teleconferência teve questionamentos de analistas

Analistas fizeram perguntas sobre queda da margem bruta, passivos trabalhistas, por causa do aumento da provisão, ritmo de vendas e ações que serão tomadas para melhorar rentabilidade. A direção, em diversos momentos, tentou destacar os aspectos positivos, dentro dos questionamentos dos fatos negativos do trimestre.

Na prática, desde a entrada de Marcelo Pimentel como CEO em 2022, a empresa vem implementando um projeto de transformação e retomada do modelo premium, e investidores e gestores acompanhavam essa implementação, mas o quarto trimestre foi impactado de diferentes formas, inclusive por efeitos excepcionais não esperados.

“Temos que ser fiéis [ao planejamento] apesar de não vir como se quer [resultados de vendas no quarto trimestre”, disse Pimentel, após ser perguntado por analistas sobre vendas “mesmas lojas” (em pontos com mais de um ano) abaixo da inflação alimentar. “Temos que ter noção do trabalho sendo feito e não acelerar isso, temos que fazer consumidor voltar e estamos trabalhando para isso”.

O CEO descartou a ideia de criar um novo modelo de loja do Pão de Açúcar (atualmente, há expansão da geração sete, que responde por 60% dos pontos e 70% das vendas), como forma de dar novo ritmo às vendas, porque não quer “distrair” a equipe num momento que vem implementando, desde 2022, um novo projeto de retomada — ainda não concluído.

Resultado foi fraco, abaixo do previsto, diz BB

O resultado do GPA no quarto trimestre de 2022 foi fraco e abaixo do previsto, avalia o BB Investimentos em relatório. O banco diz que a combinação da pressão inflacionária com impactos decorrentes da reestruturação da operação após a descontinuidade do formato hipermercado vem gerando resultados negativos sobre a operação da companhia.

Um exemplo é a “acentuada queda” de margem bruta observada no último trimestre. Além das adversidades enfrentadas na operação, o GPA ainda reportou R$ 956 milhões em despesas não recorrentes, “exacerbando o prejuízo do período”, diz a analista Georgia Jorge, que assina o relatório.

“Apesar dessa queda ter aberto ‘upside’ frente ao nosso preço-alvo, entendemos que essa valorização só será factível de ser alcançada se a companhia apresentar, nos próximos trimestres, resultados positivos das iniciativas que vêm sendo conduzidas no momento para melhoria da operação brasileira”, afirma a analista.

Ainda assim, o BB Investimentos mantém a recomendação de venda para as ações do GPA, com preço-alvo de R$ 20,60, alta potencial de 36% sobre a cotação atual. O banco indica que deve revisar o modelo financeiro nos próximos dias.

XP: Cnova ainda tem resultados fracos

O GPA reportou resultados fracos no quarto trimestre, com Ebitda e lucro abaixo das estimativas por conta de resultados ainda fracos na Cnova, despesas não recorrentes relacionadas à reestruturação da companhia, contingências e provisões fiscais, além de margens mais fracas no Éxito, diz a XP, em relatório.

Os analistas Danniela Eiger, Thiago Suedt e Gustavo Sanday ressaltam que a receita bruta consolidada ficou estável em base anual, com o crescimento do GPA Brasil compensado por um efeito negativo de tradução cambial no Grupo Éxito, com vendas caindo em base anual, mas subindo em moeda constante.

Segundo os analistas, no GPA Brasil as vendas mesmas lojas aceleraram, enquanto a companhia dividiu alguns avanços em seus pilares estratégicos com uma maior penetração de perecíveis e melhora de nível de serviço. Já a inflação pressionou as margens, em parte compensadas pela dilução de despesas resultantes da reestruturação da companhia após a transação do Extra.

No Éxito, a margem Ebitda foi pressionada por conta de ajustes de estoque, maior nível de despesas por conta do alto nível de inflação em todos países de atuação e resultados mais fracos das suas joint ventures, principalmente devido a maiores provisões na Tuya. Por fim, o prejuízo refletiu resultados ainda negativos na Cnova e despesas não recorrentes, dizem eles.

A XP tem recomendação neutra para as ações do GPA, com preço-alvo de R$ 21, potencial de alta de 32% ante o valor negociado no momento na B3.

Credit Suisse: recomendação neutra para ações

Os analistas Marcella Recchia e Fernanda Sayão, do Credit Suisse, escrevem que as vendas do GPA Brasil cresceram 10,9% no ano, a R$ 4,9 bilhões, com alta de 3,7% em vendas mesmas lojas. No entanto, a margem bruta sofreu deterioração de 4,5 pontos percentuais, a 22,3%.

Os números do Grupo Éxito também decepcionaram, com igual dificuldade no repasse da inflação nos preços, o que leva o banco a questionar se investidores vão manter ações da empresa após a cisão das operações.

O Credit Suisse tem recomendação neutra para GPA, com preço-alvo em R$ 23. Há pouco, a ações caíam 5,14%, cotadas em R$ 15,88.

Goldman Sachs: vendas vieram 3% abaixo do consenso

O GPA apresentou resultados fracos no quarto trimestre mesmo após ajustes para a retirada de efeitos não recorrentes, diz o Goldman Sachs. As vendas vieram 3% abaixo do consenso do mercado e o Ebitda ficou 15% aquém do esperado, afirma o banco.

Os analistas Irma Sgarz, Felipe Rached e Gustavo Fratini escrevem que as vendas mesmas lojas das operações no Brasil cresceram 6,6% no ano, abaixo da inflação, com a margem bruta caindo 4,50 pontos percentuais, com a dificuldade em repassar preços aos consumidores.

Além disso, os números foram afetados por uma série de efeitos não recorrentes que acabaram gerando um prejuízo líquido de R$ 1,1 bilhão. Os custos melhoraram, com maior eficiência de lojas.

O Goldman Sachs tem recomendação neutra para GPA, com preço-alvo em R$ 22, potencial de alta de 31,4% sobre o fechamento de ontem.

Citi: Alavancagem também preocupa

Os resultados do GPA foram ruins no quarto trimestre, quando retirados os efeitos não recorrentes, evidenciando a dificuldade da companhia em repassar inflação aos seus clientes, diz o Citi.

Os analistas liderados por João Pedro Soares escrevem que as vendas da companhia superaram em 3% as estimativas, com todos os formatos tendo bom desempenho. No entanto, a margem bruta caiu 4,5 pontos percentuais.

“Mesmo se excluirmos os efeitos não recorrentes, a margem Ebitda do GPA no período ainda está muito abaixo do necessário para a companhia gerar caixa”, comentam. A alavancagem elevada também preocupa por conta dos altos juros.

O Citi tem recomendação neutra para GPA, com preço-alvo em R$ 22, potencial de alta de 31,4% sobre o fechamento de ontem.