Em período de bolsa no vermelho, parte dos gestores deixa dinheiro no caixa

No caso dos fundos de pensão, a resposta voltou a ser, mesmo que parcialmente, a renda fixa

Foto: Alistair Berg/Getty Images

Pontos-chave

  • Gestoras não mostram confiança em uma melhora na economia brasileira no curto prazo
  • Outra avaliação é que os preços atuais dos ativos não condizem com a realidade e a qualidade das empresas da bolsa
  • Em levantamento feito pelo Valor, gestores disseram que pretendem ir às compras nos próximos dois meses

Depois de um primeiro semestre animador para o mercado acionário local, com o Ibovespa cruzando a barreira dos 130 mil pontos, o humor virou e o índice perdeu mais de 20 mil pontos em pouco mais de três meses. Com pouca visibilidade em temas como a saúde fiscal do país e o avanço da inflação e das taxas de juros, as aplicações dos investidores institucionais locais estavam, até o último dia 19, com déficit anual de R$ 59,56 bilhões no mercado secundário da B3.

Nesse cenário, o resultado só não foi pior para o Ibovespa porque, no mesmo período, os investidores estrangeiros mais compraram do que venderam ações, com superávit de R$ 52,93 bilhões.

E para onde foi esse dinheiro? No caso dos fundos de pensão, a resposta voltou a ser, mesmo que parcialmente, a renda fixa, em meio ao avanço dos juros. Em termos de renda variável, um pedaço deste bolo também foi para ofertas iniciais de ações, os IPOs.

Outra parte desses recursos, no entanto, ficou em caixa. Pesquisa do C6 realizada com 24 gestoras de fundos variados mostra que, na mediana, as casas tinham 10% do seu patrimônio (AUM) em caixa em setembro, sendo que 7 tinham pelo menos 20% e 3 delas, pelo menos 30%. São valores historicamente altos. Entre as gestoras ouvidas pela pesquisa, a mediana da maior posição de caixa na história desses fundos fica em 30%, com 10 dos 24 nunca alcançando esse patamar.

Segundo gestores consultados pelo Valor – e aqueles que responderam à pesquisa -, este fluxo pode se inverter em breve, com a performance das empresas listadas extrapolando, em alguma medida, a indefinição das questões macro (que para muitos só terão conclusão após a eleição presidencial em 2022), mesmo que isso traga dificuldades no curto prazo.

Ou seja, não é que as gestoras estão acreditando em uma melhora no ambiente brasileiro no curto prazo, mas sim que os preços não condizem com a realidade e a qualidade das empresas da bolsa.

Quando questionados, no levantamento, como deve estar sua posição de caixa nos próximos dois meses, gestores indicaram que podem ir às compras. Nessa janela, a projeção da mediana cai para 5% do seu patrimônio em caixa, com apenas três casas mantendo o patamar acima de 15%.

É o caso da Asa Investments. Neste ano, a gestora chegou a ter 40% do patrimônio líquido do seu fundo “long biased”, que investe em ações na América Latina, em caixa. Na última semana, no entanto, passou a estar 98% comprada, com ativos nacionais representando cerca de 75% do volume total. Flavio Kac, gestor do fundo, explica que se trata de um movimento (concentração em ativos brasileiros) único na história do fundo, buscando se adaptar ao momento do mercado. Ele afirma, no entanto, que seguem pessimistas com o panorama dos ativos domésticos.

“Ainda enxergamos sérios problemas na economia doméstica, mas a verdade é que o Ibovespa ficou muito para trás em relação aos seus pares. Nessa linha, entendemos que, se o mercado global continuar favorável, é possível que haja uma melhora no ambiente local”, diz. “O que fizemos na prática foi reduzir nossa posição de venda no índice, aumentando a exposição a Vale, Petrobras e bancos, para tentar aproveitar este desconto. Mas, como não estamos otimistas para o ano que vem, não vamos demorar a sair dessa posição, seja com ganhos ou perdas.”

Luiz Fernando Alves, gestor da Versa Asset, diz que começou o ano com o fundo Versa Long Biased totalmente comprado, mas teve até 40% de caixa por um curto espaço de tempo antes de chegar ao montante de 25% do patrimônio livre que possui agora. Para ele, há pontos de entrada no mercado, mas o cenário exige cautela. O gestor conta que este percentual em caixa é uma proteção, uma espécie de bóia, para se defender de um “possível desastre provocado por uma ressaca dos mercados pós-covid”. Ressalta, no entanto, que este não é o cenário-base com o qual a casa trabalha, e sim uma retomada, ainda que parcial. E o imbróglio fiscal, obviamente, segue sendo objeto de reuniões diárias da casa.

“Para não dizer que não houve mudança setorial, fizemos caixa reduzindo nossa exposição aos papéis de commodities metálicas, já que o ambiente de negócios na China está com pouca visibilidade. Aumentamos, por outro lado, nossa alocação em Petrobras, enquanto o varejo continua sendo nosso principal setor.”

Alves diz ainda que os fundos de ações da empresa, que por regra precisam ter sempre pelo menos 67% do patrimônio alocado na modalidade, nunca têm caixa.

Alexandre Sant’Anna, gestor de renda variável da ARX Investimentos, demonstra ter opinião dissonante. Sem citar números, afirma que os fundos da gestora têm neste momento mais caixa do que o que tinham no princípio do ano, aguardando que se estabeleça um cenário macro mais claro.

“Nos fundos de ações, estamos esperando um pouco antes de voltar a alocar recursos, enquanto nos produtos de multimercado temos estratégias de hedge e short. O micro das empresas está bom, mas o sentimento está afetando tudo e ainda não sabemos se já chegamos ao ponto mais crítico”, afirma.

Frederico Sampaio, CIO da Franklin Templeton, considera que é difícil ficar muito pior do que já está. Ele defende que a exposição de fundos multimercado à bolsa diminuiu naturalmente por conta do avanço das taxas de juros e que os ativos locais se encontram “em um patamar de oportunidade muito grande”.


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