A alta do petróleo e o cenário para investimentos

Depois das altas recentes, será que o petróleo pode chacoalhar o tabuleiro macroeconômico global? E o cenário para investimentos diante disso?
Pontos-chave:
  • Entramos em um momento importante do ano, com estoques baixos, o que pode manter os preços pressionados
  • Um cenário de pressão inflacionária pode exigir taxas de juros altas por mais tempo
  • Taticamente, pode fazer sentido se expor a algum ativo relacionado ao setor que apresentou desempenho inferior ao índice S&P no ano

Esta semana trago algumas análises sobre a principal commodity do mundo, o petróleo. Apesar de ter fechado a segunda-feira (11) em leve queda, em sessão volátil, o petróleo registrou fortes ganhos na semana passada. E o barril do Brent, referência global de preços, se mantém acima da marca de US$ 90, em um cenário de mercado apertado, que poderá sustentar o preço neste patamar.

O petróleo já foi tema ou ator coadjuvante em muitos filmes. Fonte de discussões, análises geopolíticas e teorias conspiratórias, ele já foi cantado em várias músicas.

Como cantou a banda Dire Straits em Heavy Fuel (1992):

If you wanna run cool, you got to run
On heavy, heavy fuel

O petróleo “dá pano para manga”, mas foco aqui será falar mais sobre o momento atual e seus impactos no mercado.

Referência global

O preço do petróleo influencia os combustíveis que transportam todas as mercadorias que consumimos. Ele afeta também o preço de plásticos, contas de luz e gás, e até o asfalto. Essa influência não se restringe somente aos produtos diretamente ligados a ele. Ela se espalha na economia através de custos indiretos de transporte e/ou produção sobre diferentes produtos e serviços.

Ou seja, as flutuações de preços têm impactos diretos nos índices de inflação, que tem sido um tema central no mercado. Ao afetar a inflação, ele também pode influenciar as taxas de juros, consequentemente, os mercados de renda fixa e renda variável.

Portanto, as flutuações de preços do petróleo têm impactos no desempenho da sua carteira. Por isso, ele é tão importante.

Dinâmica recente

Após atingir o pico logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o preço do petróleo apresentou uma queda relevante entre março de 2022 e julho de 2023, o que teve um efeito benéfico nos indicadores de inflação ao redor do mundo.

Portanto, pode-se dizer que o petróleo auxiliou o trabalho dos bancos centrais do mundo nos últimos meses. No entanto, como observamos, o petróleo já apresentou um aumento mais recente. Temos visto que o petróleo acumulou um aumento de mais de 25% desde as mínimas de julho.

As commodities, em geral, sofrem influência direta das forças de oferta e demanda, que ditam seus preços. Ou seja, o que normalmente altera a dinâmica de preços é uma demanda forte e/ou uma produção menor. É simples assim.

O crescimento do mundo hoje está diretamente relacionado ao consumo de petróleo. O gráfico abaixo mostra a evolução da demanda por petróleo e como ela parece estar voltando ao ritmo de crescimento pré-covid. Esa demanda mais robusta parece estar ocorrendo em um momento complexo do lado da oferta.

China e Rússia

Como uma commodity global, o petróleo sofre influências tanto do consumo quanto da produção em todo o mundo. Com a guerra entre Rússia e Ucrânia, a Europa reduziu suas compras da Rússia, que passou a direcionar sua produção para a China.

E ainda que o crescimento chinês esteja decepcionando ao longo do ano, a verdade é que, devido ao seu tamanho e relevância, a demanda chinesa ainda exerce impacto nesse mercado.

A resiliente economia americana eleva o consumo de combustíveis. Como mencionei anteriormente, a China também tem comprado petróleo em níveis elevados. Além disso, os países que atualmente têm maior capacidade de produção e, consequentemente, maior influência nos preços, vêm anunciando cortes na produção. Temos visto cada vez mais notícias sobre reduções na produção de petróleo nos últimos três meses.

Estoques baixos

Nos EUA, algumas coisas chamam a atenção.

Estamos no final do verão no hemisfério norte e nos aproximamos das estações mais frias, tradicionalmente períodos em que o consumo de combustíveis aumenta – aquecimento de casas, escritórios etc.

E justamente neste momento, vemos os estoques de petróleo (considerando reservas especiais) muito baixos nos EUA. Para ser mais específico, no menor nível desde 1985.

Essa queda se explica pelo consumo forte de uma economia mais resiliente do que se imaginava ou esperava, mas também devido às vendas para a Europa em meio a embargos ao petróleo russo. Embora, nesse sentido, o petróleo russo esteja sendo direcionado para outros países, como mencionei anteriormente.

Os EUA assumiram o papel de principal fornecedor de petróleo, substituindo a Rússia. Segundo o Departamento de Energia dos EUA, em 2022, as exportações totais de petróleo bruto dos EUA para a Europa atingiram 1,75 milhões de barris por dia. Isso corresponde a um aumento de cerca de 70% em relação aos níveis de 2021 (fonte).

Isso representa uma grande reviravolta. Até então, a Rússia era o principal fornecedor de petróleo bruto do bloco, representando até 31% do total das importações até o final de janeiro de 2022, segundo o Eurostat.

Como forma de contrabalançar isso e repor reservas estratégicas, a produção americana atingiu novos recordes em 2023. No entanto, a verdade é que ainda vemos estoques baixos tanto de petróleo quanto de gasolina.

Ajuda da natureza?

Por um lado, temos estoques baixos, cortes na produção e uma economia resiliente que poderiam pressionar os preços com a chegada do inverno. Por outro lado, a natureza pode dar uma mãozinha e ajudar a controlar os preços.

O Centro de Previsão Climática dos EUA estimou a probabilidade de ocorrência do El Niño entre dezembro e fevereiro em mais de 95% (fonte) e ainda afirma que a maioria dos modelos mostra que este será forte.

Um El Niño forte está geralmente associado a temperaturas de inverno mais altas do que a média nos Estados Unidos, especialmente na camada norte dos estados que se estendem de Washington, passando por Illinois, até o Maine, consequentemente, reduzindo o consumo e os preços do gás.

Será? A ver.

Conclusão

O petróleo parece estar enfrentando um cenário de oferta e demanda complexo. Temos visto os preços respondendo a isso. Entramos em um momento importante do ano, com estoques baixos, o que pode manter os preços pressionados e, consequentemente, alimentar um cenário de inflação que exija taxas de juros altas por mais tempo.

A recente alta já pode começar a pressionar os índices, e isso é algo a ser monitorado, pois pode alterar cenários e, consequentemente, impactar nossos investimentos.

Taticamente, pode fazer sentido se expor a algum ativo relacionado ao setor que apresentou desempenho inferior ao índice S&P no ano. Você pode fazer isso por meio de um ETF relacionado à commodity ou ao setor, ou ainda por meio de ativos diretos. Lembre-se de que todo e qualquer investimento deve ser pensado no contexto de sua carteira como um todo e de seu perfil de investidor.

Vale lembrar de priorizar alocações estruturais de carteira com foco no longo prazo. Nesse sentido, os EUA já passaram por diferentes cenários de preços do petróleo, inflação e taxas de juros. Para a parcela estrutural, que deve compor a maior parte da carteira, entendemos que não são necessárias mudanças constantes para se ajustar a cenários específicos. É por isso que a chamamos de “alocação estrutural”.