CPI da Americanas é protocolada na Câmara

Os deputados pretendem investigar também outras empresas do grupo 3G, como a Ambev

O líder do PP na Câmara dos Deputados, André Fufuca (MA), protocolou nesta quinta-feira requerimento de criação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre a suposta fraude contábil de R$ 20 bilhões na Americanas (AMER3), gigante do varejo. Conforme o Valor revelou, os deputados pretendem também investigar outras empresas do grupo 3G, como a Ambev (ABEV3).

O pedido foi protocolado com apoio de 216 deputados, mas a Secretaria-Geral da Mesa Diretora da Câmara ainda não fez a checagem. Para a CPI poder funcionar, é preciso o apoio de 171 dos 513 deputados no exercício do mandato. Como Fufuca começou a coletar assinaturas ainda em janeiro, há deputados na lista que não estão mais no mandato, como Osmar Serraglio (PP-PR), que não foi reeleito, e Hiran Gonçalves (PP-RR), que se tornou senador.

Entre os subscritores da CPI está o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). Como o Valor mostrou, o governo decidiu apoiar a instalação de CPIs sobre temas que não o atingem para congestionar a fila de pedidos e evitar a criação de comissões que podem ser usadas para prejudicar a imagem do Executivo, como a da invasão de terras pelo MST.

O requerimento diz que a Americanas é suspeita de fraude contábil de R$ 20 bilhões e isso afetou a imagem de todo o mercado de capitais. “O episódio da Americanas afeta a credibilidade de todo o mercado de ações no Brasil e é do interesse público assegurar que os investidores possam ter absoluta certeza de que a economia popular não será nunca prejudicada por qualquer tipo de fraude, erros ou acobertamentos de rombos em balanços”, diz o pedido.

Como o Valor mostrou, deputados envolvidos nas articulações pretendem ampliar a investigação e dizem que a comissão também deve se debruçar sobre outras empresas do 3G, grupo formado pelos empresários Jorge Paulo Lehmann, Beto Sicupira e Marcel Telles e que controla ainda a AB Inbev, principal acionista da empresa de bebidas Ambev, e com ações das gigantes Burger King e Kraft Heinz.

Líder do Republicanos, o deputado Hugo Motta (PB) afirmou que a bancada decidiu apoiar a CPI porque vários pequenos empresários foram afetados pela suposta fraude contábil e é preciso acompanhar qual será o desfecho dessa crise. “A partir do momento em que as empresas de auditagem não informaram da fraude, temos que investigar o que aconteceu. Será que outros negócios do grupo 3G não estão com o mesmo problema?”, questionou.

O líder do MDB na Câmara, deputado Isnaldo Bulhões (AL), disse que orientou os emedebistas a assinarem o pedido e que acredita que metade da bancada já fez isso. “É um fato totalmente passivo de investigação. E se for identificado que o 3G realmente maquiou as contas da Americanas, pode ter feito nas outras empresas do grupo. Temos que investigar”, disse.

Embora o grupo 3G possua ações também do Burger King e Kraft Heinz, a principal empresa citada pelos parlamentares, além da própria Americanas, é a Ambev, gigante do setor de bebidas. Procuradas pelo Valor, Ambev e Americanas não se manifestaram.

Tramitação

Com o pedido protocolado, cabe ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), decidir se há “justa causa” e “fato determinado” para instaurar a investigação. Fufuca é um dos principais aliados de Lira e do presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI).

Em evento do banco BTG Pactual no mês passado, Lira citou o pedido de CPI e afirmou que a Câmara atuaria com cuidado, mas que os fatos eram “muito graves”. “O que aconteceu foi muito grave, principalmente o que diz respeito às empresas de auditoria. Empresas com nome e renome, que atestaram balanço [fraudulento]”, afirmou.