Mercado considera estímulos da China insuficientes para impulsionar economia

Mas governo chinês não dá pistas de que planeja implementar mais medidas de apoio por enquanto

Os estímulos lançados pela China até agora para impulsionar a economia ainda são insuficientes para impedir a desaceleração em andamento, avaliam analistas.

Nos últimos meses, o governo chinês anunciou alívio para o setor imobiliário, novos investimentos em tecnologia, mais crédito para consumo e ações no mercado cambial para reduzir a desvalorização do yuan.

Contudo, analistas consideram que mais medidas são necessárias.

Para o Rabobank, o governo deveria enfrentar mais fortemente os problemas do mercado imobiliário e evitar maior deterioração fiscal.

Pessimismo no mercado

O banco apontou que a recente nomeação de Pan Gongsheng como presidente do Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) sugere crescentes preocupações em Pequim sobre a “recuperação econômica morna e acomodação monetária modesta” nos próximos meses.

Gongsheng foi educado no Ocidente e é conhecido por alertar sobre os riscos da bolha imobiliária na China desde 2014, lembra o Rabobank.

A Capital Economics analisa que o setor imobiliário é o “principal culpado” da desaceleração da China, tendência que não deve ser “revertida por estímulos públicos, pelo menos não de maneira sustentada”.

Para a Capital, o Produto Interno Bruto (PIB) passou de alta de 5% em 2019 para 3% agora, consistente com os dados oficiais, o que mostra uma “recuperação frustrante”.

FMI aponta riscos

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reafirmou recentemente a expectativa de que a China crescerá 5,3% em 2023.

Porém, o órgão reduziu levemente a projeção para o próximo ano, de 5,1% a 5%.

Além do setor imobiliário, o FMI citou a demanda fraca do exterior, enquanto a taxa de desemprego entre os jovens no país está em nível alto, de 20,8% em maio de 2023.

Além disso, o FMI chamou atenção para os riscos de deflação no país, que levou o PBoC a cortar juros recentemente.

O coordenador de Pesquisas Macro do Banco Inter, André Valério, disse que os novos estímulos ainda não eliminam o risco elevado de deflação ou de uma recessão de balanço.

Ela destacou que o deflator do PIB chinês registrou neste ano variação negativa pela primeira vez desde 2009.

Valério analisa que as políticas de estímulo “parecem mais do mesmo”, mantendo foco sobre consumo.

Mas empresas e famílias estão reticentes em gastar, diante do elevado nível de endividamento – aproximadamente 280% do PIB.

As medidas são paliativas e eventuais impactos seriam concentrados, favorecendo setores ligados às commodities industriais, observou.

“A ferramenta mais eficiente para induzir o crescimento neste contexto de desalavancagem seria uma política fiscal expansionista”, acrescentou.

Entretanto, o governo chinês não se mostra inclinado a implementar tal política [até o momento]”, afirmou Valério, ressaltando os esforços do governo de conter a dívida chinesa.

O Lombard Odier projeta que a China lançará pacotes de medidas expansionistas mais amplos, embora não esteja claro se o movimento será suficiente para convencer os mercados.

Choque com o Ocidente

As tentativas da China de alavancar a economia também enfrentam outro desafio: as crescentes tensões e fragmentação econômica com o Ocidente.

“As tendências de investimento estrangeiro direto e pesquisas de empresas ocidentais com operação na China sugerem que a dissociação será cada vez mais visível nos próximos anos”, avalia a Oxford Economics.

Economista da Esh Capital, Ariane Benedito afirma que o mercado aguarda “ansiosamente” que os pacotes de estímulos ganhem tração e o aquecimento econômico se concretize.

Segundo ela, parceiros comerciais da China, como o Brasil, estão interessados no desenvolvimento dos estímulos no setor de infraestrutura.

Com informações Estadão Conteúdo