Governo quer carro popular a R$ 45 mil: isso é possível?

Carros populares: os mais baratos vendidos no Brasil hoje giram em torno de R$ 70 mil

A volta do chamado carro popular voltou à discussão este ano diante dos altos preços e estagnação do mercado. O governo Lula acenou com a intenção de buscar um modelo que custe entre R$ 45 mil e R$ 50 mil. A dúvida é se esse valor é atingível hoje.

Simulações têm sido feitas entre as montadoras interessadas e o governo, segundo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Márcio de Lima Leite.

Porém, para o industrial, um carro popular que seja feito nos moldes dos fabricados no início do programa de carro popular, durante o governo de Itamar Franco, entre 1992 e 1995, custaria algo em torno de R$ 80 mil, segundo Leite. Os preços dos carros mais baratos vendidos no Brasil hoje giram em torno de R$ 70 mil.

“Não sabemos se é ou não factível e nem tampouco se haverá renúncia fiscal. Por enquanto estão sendo feitas simulações”, destaca Leite. Segundo ele, a Anfavea não se envolverá diretamente nessas negociações porque não se trata de um plano que envolve todas as associadas.

Ajuste pela inflação

A entidade apenas ajustou o valor do que era o popular lançado no início da década de 1990 para os dias atuais, com base nos índices de inflação, e chegou à conclusão de que aqueles modelos custariam hoje em torno de R$ 80 mil.

Na época, foram lançadas versões de populares variadas. As mais vendidas foram as do Fusca e do Gol, da Volkswagen, e do Uno Mille, da Fiat.

“Estamos falando de um tipo de veículo que na época não tinha sequer o retrovisor do lado direito, apenas o do motorista. Hoje os carros têm itens (obrigatórios) como airbag e freios ABS (sistema de frenagem que evita que o veículo derrape)”, diz Leite.

‘Popular verde’ em pauta

O dirigente aponta, ainda, as questões de perda de renda e restrições ao crédito, que o brasileiro enfrenta hoje. Ao mesmo tempo, ele concorda que incentivar o chamado “popular verde”, que privilegiaria o uso do etanol, é uma boa alternativa para buscar meios de descarbonizar o transporte.

Leite aponta um recente programa governamental do Chile que permitiu o uso de fundos da previdência (similares ao FGTS no Brasil) para estimular a venda de veículos. Segundo ele, um programa semelhante poderia ajudar.

Renovação da frota

A Anfavea, diz ele, tem especial interesse em discutir a renovação da frota. “Porque os carros velhos poluem 20 vezes mais que os novos”, afirma. Segundo o executivo, essa reivindicação não pode ser tratada como a de um setor que deseja simplesmente um mercado mais aquecido.

“É uma questão social, de emissões e de segurança”, completa. Um programa nessa linha diz, não precisa necessariamente focar na troca de um carro velho por um zero-quilômetro. “A troca por um usado mais novo já vale”.

A Anfavea tem mantido conversas com o governo na direção de reduzir incentivos à entrada de carros importados. Hoje há isenção de Imposto de Importação para automóveis 100% elétricos, por exemplo.

Resultados

Ao divulgar os resultados do setor no primeiro trimestre, o dirigente destacou que da indústria automobilística dependem 1,2 milhão de empregos, levando em conta toda a cadeia que a envolve.

Por enquanto, o nível de emprego nas montadoras tem se mantido estável, com ligeiro avanço de 0,4% em março na comparação com um ano atrás. Os fabricantes de veículos empregam 101,6 mil pessoas.

Previsões

Mas a paralisação de oito fábricas e fechamento de dois turnos em março preocupa Leite. Segundo ele, é também preocupante a constatação da entidade de que, mantido o ritmo de produção dos três primeiros meses do ano, essa indústria encerraria o ano com 30 mil veículos.

A Anfavea não vai, por enquanto, alterar as previsões. Segundo Leite, a entidade vai aguardar que as próximas medidas macroeconômicas levem a um reaquecimento da demanda.

Em meio a esse cenário sombrio, os trabalhadores da Volkswagen de São Bernardo do Campo receberam uma boa notícia na véspera da Páscoa.

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a empresa anunciou, que contratará 100 trabalhadores por tempo determinado para atender à necessidade de elevar a produção da picape Saveiro.