Wells Fargo pagará multa recorde de US$ 3,7 bilhões por cobrança ilegal de taxas sobre empréstimos

Banco americano fez acordo com autoridades reguladoras para encerrar alegações de que prejudicou milhões de consumidores

O banco Wells Fargo & Co. firmou um acordo de US$ 3,7 bilhões com autoridades reguladoras para por um fim a alegações de que prejudicou mais de 16 milhões de pessoas com contas de depósito, financiamentos de automóveis e residenciais. O acordo com o Consumer Financial Protection Bureau (CFPB) inclui multa de US$ 1,7 bilhão, a maior já aplicada pela agência, e mais de US$ 2 bilhões em restituições a consumidores, informou na terça-feira a agência reguladora.

O órgão de defesa do consumidor disse que o banco cobrou ilegalmente taxas e juros sobre empréstimos para aquisição de automóveis e moradias. Alguns consumidores tiveram seus veículos confiscados ilegalmente, enquanto outros tiveram taxas sobre cheque especial também cobradas ilegalmente, segundo a agência.

Os problemas regulatórios do Wells Fargo continuam afetando o banco mais de seis anos depois que o escândalo das contas falsas se tornou público. Outros problemas surgiram posteriormente no banco de San Francisco, inclusive em seus negócios de empréstimos e depósitos.

O acordo com o CFPB resolve uma grande penalidade que paira sobre o Wells Fargo, mas o deixa algemado a outras autoridades reguladoras. O Federal Reserve (Fed) estabeleceu um limite para o crescimento dos ativos do banco por quase cinco anos. Políticos continuam visando o banco e investidores entraram com uma série de ações coletivas.

“O Wells Fargo é um reincidente corporativo”, disse Rohit Chopra, diretor do CFPB. Segundo ele, o acordo “não deve ser lido como um sinal de que o Wells Fargo superou seus problemas de longa data”. O banco vinha negociando com o CFPB há meses, num esforço para incluir o maior número possível de pendências no acordo, segundo fontes a par do assunto.

Grande parte do reparo de US$ 2 bilhões incluído no acordo já foi distribuído aos clientes. O banco, por exemplo, pagou US$ 1,3 bilhão a 11 milhões de clientes que tiveram problemas para pagar financiamentos para a compra de automóveis, informou o CFPB.

O Wells Fargo trabalha há anos para resolver uma série de questões regulatórias derivadas do escândalo das contas falsas de 2016. Posteriormente, outros problemas surgiram no banco, inclusive em seus negócios de financiamentos a veículos e imobiliários.

O CFPB disse que as ações do banco englobam mais de uma década. O Wells Fargo solicitou incorretamente pagamentos sobre financiamentos para a compra de automóveis por causa de falhas de tecnologia e conformidade entre 2011 e 2022, disse a agência. Erros em seu processo de modificação de financiamentos imobiliários ocorreram entre 2011 e 2018, segundo a agência.

O banco às vezes cobrava taxas sobre o cheque especial mesmo quando um cliente tinha fundos suficientes disponíveis para realizar transações com cartão de débito ou retiradas em terminais automáticos. O Wells Fargo terá de devolver a clientes cerca de US$ 205 milhões em taxas cobradas desde o começo do ano passado, que ainda não foram revertidas. O CFPB vai supervisionar esse processo.

Chopra, nomeado pelo presidente Joe Biden, disse que planeja atacar os infratores reincidentes. “A reincidência corporativa foi normalizada e calculada como o custo de se fazer negócios”, disse ele anteriormente este ano. Chopra também vem procurando tornar sua agência mais antagônica com as instituições financeiras.

O CFPB disse que o Wells Fargo acelerou os esforços para “arrumar a casa” desde 2020. Vinculado ao acordo, a agência rescindirá um dos termos de ajustamento de conduta imposto ao banco em 2016 e esclarece que um termo de ajustamento e conduta de 2018 será encerrado em não mais do que três anos.

“Esse acordo de longo alcance é um marco importante em nosso trabalho para transformar as práticas operacionais do Wells Fargo e deixar esses problemas para trás”, afirmou em um comunicado o presidente-executivo do banco, Charlie Scharf.

Scharf foi contratado para limpar o banco em 2019. Ele reformulou os altos escalões executivos, reduziu o número de funcionários e deu prioridade à reformulação dos sistemas de apoio administrativo do banco para gerenciamento de riscos e controles internos.

O banco sinalizou por meses que esperava outra grande multa regulatória e assumiu um encargo de US$ 2 bilhões no terceiro trimestre, vinculado à resolução de problemas regulatórios e legais de longa data. Ontem o banco disse que espera ter despesa com perdas operacionais de US$ 3,5 bilhões no quarto trimestre.