Quem é Marcio Pochmann, novo presidente do IBGE, e por que escolha causou tanta polêmica?

Ligação histórica do economista com o PT e críticas ao Pix e às reformas dos últimos anos fizeram com que nome dividisse opiniões

Marcio Pochmann é o novo presidente do IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de acordo com a nomeação publicada no Diário Oficial da União. O nome dele foi pauta das redes sociais após políticos e especialistas se dividirem a respeito da escolha. Mas quem é Marcio Pochmann e por que a sua escolha para o IBGE deu tanto pano para a manga?

Quem é Marcio Pochmann?

Marcio Pochmann é um economista de 61 anos, nascido no Rio Grande do Sul. Formado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele também é doutor em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Livros: o que pensa Marcio Pochmann

O economista é autor de dezenas de artigos e livros sobre economia. Em 2002, ele venceu o Prêmio Jabuti na categoria “Economia, Administração, Negócios e Direito”, com seu livro “A Década dos Mitos” (Editora Contexto).

Na obra, Pochmann denuncia o que chama de “verdadeira fantasia neoliberal”, em uma crítica às políticas de abertura comercial e privatizações adotadas nos anos 1990. Entre suas obras estão “O emprego na globalização” (2001), “Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social” (Boitempo, 2012), “O Mito da Grande Classe Média” (Boitempo, 2014) e “O neocolonialismo à espreita” (Sesc SP, 2021).

Em livros, artigos e publicações nas redes sociais, Pochmann manifesta suas opiniões a respeito da economia brasileira. Ele é um crítico das reformas trabalhista (2017) e da Previdência (2019). Assim como um defensor de maior tributação sobre a renda, investimentos em industrialização e legislação trabalhista mais ampla, que contemple novas formas de trabalho, como os aplicativos.

Com a indicação ao IBGE, uma das falas de Marcio Pochmann que repercutiu nos últimos dias é a de uma participação do economista em audiência pública no Senado em 2008. Na oportunidade, Pochmann propôs um imposto de renda progressivo que pudesse chegar a uma alíquota de 60% para os mais ricos, como forma de reduzir as desigualdades.

Marcio Pochmann e o Pix

No seu perfil no Twitter, o economista fez uma série de críticas ao Pix. Em outubro de 2020, ele argumentou que o sistema de pagamentos “não se preocupa com a produção, mas com a circulação do dinheiro”.

“A nova operação bancária reduz o tempo de circulação do dinheiro e aumenta mais a movimentação bancária”, criticou Pochmann, que também colocou em dúvida então a manutenção da gratuidade do sistema. Ele temia que o Pix fosse base para a instituição de uma tributação sobre movimentações financeiras.

‘Economista do PT’

Marcio Pochmann é tido muitas vezes como uma espécie de “economista do PT”, em razão das suas relações de proximidade com a legenda. O que acontece é que no Brasil, partidos políticos mantém fundações de estudo e pesquisa. Assim, Pochmann presidiu por oito anos, entre 2012 e 2020, a Fundação Perseu Abramo, que é a entidade que cumpre essa função para o PT.

No período, o economista ainda disputou eleições pelo partido. Ele concorreu a prefeito de Campinas (SP) nas eleições de 2012 e 2016 e ao cargo de deputado federal no pleito de 2018, sem sucesso. Hoje, ele é presidente do Instituto Lula.

Pochmann exerceu cargos em administrações do PT. Entre 2001 e 2004, foi secretário de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade de São Paulo na gestão da então prefeita Marta Suplicy, à época no partido.

Ex-presidente do Ipea

Posteriormente, Marcio Pochmann presidiu o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) entre 2007 e 2012, nos governos Lula 2 e Dilma Rousseff. Sua passagem pelo Ipea foi marcada pela inclusão de outras áreas do conhecimento e críticas de parte dos economistas que atuavam no órgão à época.

Um ano após desembarcar no Ipea, Pochmann fez o maior concurso de que se tem notícia no instituto. Foram selecionados 62 técnicos de pesquisa de formação que escapavam à economia clássica, e incluíam cientistas sociais e sociólogos – o que mudaria o perfil da corporação, com efeitos que perduram até hoje.

O economista Paulo Tafner, que dirigia à época a área de Previdência do Ipea, afirma que durante a gestão de Pochmann textos críticos ao governo “dormiam” nas gavetas. “Os TDs (textos para discussão) simpáticos saíam em dias”, lembra.

Tafner está entre os pesquisadores que teriam perdido espaço no Ipea com a chegada de Pochmann. Além dele, nomes como Fábio Giambiagi, Régis Bonelli, Gervásio Andrade e Otávio Tourinho, considerados “neoliberais”, teriam tido destino semelhante.

Além disso, o economista reduziu programas de análise do cenário econômico e ampliou o espaço para temas ligados à ciência política, uma vez que a partir de 2009 estes estudos ganharam uma diretoria no Ipea, com pesquisas sobre o papel das instituições e da democracia.

A nomeação para o IBGE

Na segunda-feira (24), a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, divulgou que o nome de Marcio Pochmann estava “tirando o sono” da equipe da ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet. O IBGE está inserido na estrutura da pasta comandada por Tebet.

As divergências entre a equipe de Tebet e Pochmann, de acordo com Malu Gaspar, são de ordem econômica. Pochmann é professor na Unicamp, escola de linha econômica majoritariamente heterodoxa – que defende o aumento dos gastos públicos e a maior presença do Estado na economia.

A notícia provocou repercussão contra e a favor ao nome. Ele recebeu críticas de Edmar Bacha, economista do Plano Real e ex-presidente do IBGE, e defesa de nomes como a presidente do PT, Gleisi Hoffmann.

Na quarta-feira (26), o ministro-chefe da Secom, Paulo Pimenta, anunciou que Marcio Pochmann foi confirmado para presidir o IBGE.

Tebet: ‘Ele será bem-recebido’

Em entrevista após o anúncio, a ministra Simone Tebet afirmou que Pochmann será “bem-recebido” e que não vai prejulgá-lo. Tebet afirmou ainda que o presidente Lula não lhe fez nenhum pedido direto nestes seis meses no cargo e que, portanto, aceitaria a escolha feita por ele.

“A conversa será técnica e ele será tratado como técnico e será muito bem-vindo para nossa equipe e continuará no IBGE enquanto estiver atendendo os interesses da sociedade brasileira”, afirmou a ministra.

A Inteligência Financeira procurou Marcio Pochmann para uma entrevista, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Com informações do Estadão Conteúdo e da Agência Brasil