Investi meu FGTS na Eletrobras (ELET3, ELET6). E agora?

Apesar de desvalorizarem 30% desde a eleição de Lula, ações da Eletrobras têm perspectiva de alta e podem compensar o FGTS

Na esteira das eleições de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as ações de Eletrobras (ELET3, ELET6) acumulam queda. Isso preocupa os investidores que escolheram participar da oferta de ações usando o Fundo de Garantia ao Tempo de Serviços (FGTS).

Entre junho e julho, como parte do processo de privatização, a Eletrobras finalizou a oferta de ações via Fundo Mútuo de Privatização (FMP).

O produto foi disponibilizado por diversos bancos públicos e privados, incluindo a Caixa Econômica Federal, que distribui o FGTS.

Apesar da queda dos papéis ON e PN (ELET3 caiu 31,83% desde as eleições, enquanto ELET6 despencou 30,64%), especialistas dizem que a empresa tem boa perspectiva de melhora financeira e atentam ao prazo do investimento.

FGTS rende apenas 3% do ano; cenário de Eletrobras é favorável

A desvalorização das ações da Eletrobras na bolsa não devem perdurar por muito, apontam analistas ouvidos pela Inteligência Financeira.

Na visão do mercado, o ativo tem boa perspectiva de valorização à medida em que a companhia reorganiza a gestão e diminui custos operacionais.

Um indício é a concessão de ativos e reestruturação do quadro de funcionários realizado recentemente.

Desde janeiro, investidores pessoa física que aportaram o FGTS em fundos de privatização com ações em Eletrobras podem resgatar o valor correspondente ao rendimento e migrar para fundos de gestão ativa, onde um gestor monitora e reposiciona o investimento de acordo com o fluxo do mercado.

O movimento levou bancos a abrirem fundos de privatização de “carteira livre” no mercado. Esse tipo de fundo permite que o investidor use o FGTS para aplicar na renda fixa e, ao mesmo tempo, na renda variável, a depender da carteira de ativos do fundo. A gestão pode ser ativa.

Considerando que o rendimento anual do FGTS é cerca de 3%, o investidor faz bem em usar parte do benefício trabalhista para investir em um produto mais rentável, dizem analistas.

Eletrobras (ELET3, ELET6) pode ter retorno surpreendente

Para o chileno Carlos Herrera, estrategista-chefe da Condor Insider, o FGTS é uma “jabuticaba brasileira”. No exterior, não há benefício comparável que resulte em perda perante a inflação, que hoje é de cerca de 6% ao ano.

Por isso, aplicar o benefício em ações é recomendável na visão de Herrera. “Investir em ações é investimento de longo prazo, e Eletrobras tem grande potencial de melhora nesse tempo por questões de ineficiência que ainda assombram a empresa”, explica o executivo.

Mas esse retorno não é da noite para o dia. À época da oferta de ações, Herrera recomendou a maioria dos clientes para que depositassem o FGTS nos fundos em ELET3 e ELET6.

A estratégia do investimento é arrojada, mas, como aponta o estrategista-chefe, é uma aplicação que também requer pouca interferência do investidor.

Taxa de retorno pode chegar a 20% do VLP

Herrera estima que a Taxa Interna de Retorno (TIR) de investimentos da Eletrobras em 10 anos atinja 20% do valor patrimonial líquido (VLP). A TIR é uma das principais recitas de bolo para calcular se uma companhia de capital aberto tem um projeto viável e que justifique um investimento.

Outro ponto positivo à favor da Eletrobras é o setor em que a companhia opera. O ramo de geração e distribuição de energia é conhecido por ser um dos menos voláteis da bolsa, e Herrera aponta que uma distribuidora recém privatizada não costuma estar exposta a ciclos da economia brasileira, como Petrobras ou Vale.

“Distribuidoras não decepcionam ou entrega, muita surpresa nos resultados trimestrais. Normalmente você tem diferenças pequenas entre balanços. É nesse tipo de empresa que você deve investir no longo prazo”

Carlos Herrera, estrategista-chefe da Condor Insider

Ele destaca ainda que o setor de energia será essencial para o desenvolvimento da economia brasileira na guinada verde, em busca de uma matriz energética cada vez menos poluente.

“A Eletrobras é uma empresa que, em termos globais, é muito grande. O Brasil é relevante no cenário global e, no longo prazo, para o mundo. Vamos ter necessidade de aumento de energia elétrica”, diz o estrategista-chefe da Condor.

Risco de privatização e discursos de Lula

Os discursos de Lula a favor da reestatização da Eletrobras incomodam o acionista e o trabalhador que investiu via FGTS, mas nem tanto a Faria Lima.

Ao avaliar a possibilidade de o governo retomar controle como acionista majoritário, um analista de um grande banco da Faria Lima disse que “dificilmente volta-se atrás” na privatização. Apesar do burburinho do governo, ele afirma que o mercado financeiro não precifica isso na queda de Eletrobras.

Na visão de Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, o governo está mais preocupado em encontrar novas fontes de receita do que gastar com a reestatização de Eletrobras, que não seria um processo barato.

Afinal, Lula precisaria enfrentar uma possível “poison pill” — uma cláusula de contrato que é ativada contra aquisições hostis — ativada pelos acionistas da distribuidora.

Se Lula tentasse reestatizar a Eletrobras, “seria um tiro no pé”, diz Herrera. “O ruído que um processo desse tipo geraria em termos internacionais e no mercado doméstico seria extremamente alto. O setor elétrico é extremamente importante ao país, e precisa investir mais em distribuição e crescer acima do PIB, por isso investimentos privados são essenciais.”

Sacar FGTS de Eletrobras depende do perfil do investidor

Apesar de ser um investimento de longo prazo, os investidores que observaram a derrapada da Eletrobras se desesperaram.

No momento de baixa, contudo, não é aconselhável que todos os investidores abandonem a posição em Eletrobras. Cruz, da RB Investimentos, recomenda que investidores mais conservadores ou moderados não migrem o FGTS para fora do FMP de Eletrobras.

No momento, outros tipos de fundo fora da renda fixa não têm uma performance muito positiva em um cenário de juros altos e inflação persistente.

“Meu receio é que o investidor fique mudando [de fundo] e tome decisões que machuquem a renda. Movimentar a aplicação muito costuma não ser positivo”, explica Cruz. “Fundos multimercado neste ano estão mais de lado, o que está indo melhor é a renda fixa”, complementa.

A migração do FGTS é, na verdade, uma medida que Cruz aconselha apenas aos investidores de perfil mais arrojado. “São pessoas que já entendem o que vai acontecer, e estão confortáveis em ter prejuízo no curto prazo.

Caio Camargo, especialista em investimentos do Itaú, faz coro a Cruz e vai além: caso migre o FGTS, o investidor deve analisar e estudar o Fundo Mútuo de Privatização para o qual vai transferir a aplicação.

Depende muito de como o investidor planeja usar o FGTS. “É importante sempre analisar o risco da carteira. Quanto mais risco, maior o retorno esperado. Mas se a pessoa quer usar o FGTS para comprar uma casa, por exemplo, é melhor ficar na renda fixa”, afirma Camargo.

Para objetivos de curto prazo, é melhor abrir mão do FGTS em ações Eletrobras. Mas se o investidor quer focar no longo prazo, na construção de patrimônio, analistas dizem que o retorno pode chegar a 15% em 10 anos.