Camelo ou Unicórnio: quem você é nas finanças pessoais?

Saiba se sua situação financeira aguentaria uma ‘recuperação judicial’

Nos últimos meses, aumentaram as notícias sobre empresas passando por algum tipo de reestruturação, começando pelas startups.

No varejo, um dos segmentos mais atingidos, a combinação de alta dependência de capital de giro e juros mais altos (que aumentam o valor das dívidas enquanto reduzem a demanda dos clientes) se torna explosiva.

Surpreendem não apenas os nomes das empresas que entraram com o pedido de recuperação judicial, mas também a quantidade, em tão pouco tempo, e a velocidade entre quando tudo está bem até não estar mais.

No mundo das startups, pode até não parecer, mas o problema é similar: por muito tempo, os estímulos a empreendedores digitais eram ligados a crescimento rápido e aquisição de clientes, em uma visão de que quem tivesse a maior base de usuários de um mercado se consolidaria e, aí sim, poderia pensar em gerar lucro. “The winner takes it all” (o vencedor leva tudo).

Essa estratégia, oposta aos preceitos da administração clássica, só é viável se houver uma condição específica: fácil acesso a capital de risco.

E os empreendedores que foram formados nesse ambiente cheio de liquidez se assustam ao perceber que a estratégia de queimar caixa está com os dias contados, dando espaço à sempre bem-vinda geração de receita.

Essas companhias aprenderam da forma mais dura possível uma realidade que muitas vezes negligenciamos: dinheiro acaba.

Você vive de queimar caixa?

Com o assunto em destaque, naturalmente aumenta a preocupação dos investidores com as condições de mercado. Mas e a preocupação com a sua própria capacidade de não enfrentar uma quebra?

Em um estudo já não tão recente, o Banco de Desenvolvimento da América Latina concluiu que 53% dos brasileiros não conseguem se manter por mais de três meses se perderem sua renda.

Essa é a versão da recuperação judicial para a pessoa física. O que acontecerá se você ficar desempregado?

Em momentos assim, ter uma reserva dedicada às emergências ganha relevância. Por padrão, consuma-se indicar que ela seja equivalente a 3 a 6 meses da renda, numa lógica de apoiar em uma eventual necessidade de transição de emprego.

No entanto, cabe avaliar as condições de empregabilidade do mercado em que você está atuando: se recolocar será fácil ou não?

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Outra sugestão é usar investimentos fáceis de resgatar e com baixo risco. Isso porque tudo o que não queremos é que, em uma condição pessoal difícil, a nossa carteira de investimentos esteja enfrentando uma crise, também.

Mas, para investidores que têm reservas financeiras robustas, esses critérios se flexibilizam mais: você tem capacidade de planejar os próximos resgates em sua carteira, mantendo sua diversificação e sem ser forçado que realizar resultados em investimentos que ainda não estão maduros?

Qualquer que seja a sua realidade, estamos passando por um momento de ajustes à frente. Avalie se sua carteira de investimentos e suas reservas permitem se manter na pista no longo prazo. Mesmo uma carteira robusta, mas pouco líquida, pode se tornar um grande problema para o fluxo de caixa em momentos de necessidade.

Por muito tempo, as startups de sucesso foram chamadas de Unicórnios: empresas incríveis, quase fantásticas, que chegavam a uma estimativa de preço (valuation) de mais de US$ 1 bilhão.
Agora, esse mercado entendeu que o maior potencial do mundo não representa nada, se não houver capacidade de continuar dia após dia.

Saíram os Unicórnios, entraram os Camelos: animais que se destacam pela capacidade de estocar reservas (de água) e percorrer grandes distâncias mesmo no cenário mais árido.

Olhe suas reservas financeiras de frente e responda: sua vida financeira está mais para Unicórnio ou para Camelo?

Por Gabriel Padovesi, CFP e colunista íon. Artigo originalmente publicado na coluna ‘Sinapses’, no Feed de Notícias do íon Itaú. Para ler este e outros conteúdos, acesse ou baixe o app agora mesmo.