Racismo no futebol e os ataques a Vinícius Junior: clubes têm que dar um basta

Desde domingo temos visto reações bastante duras nas redes sociais e na imprensa internacional a respeito do ocorrido - e isso vai respingar no dinheiro

No final de semana não tivemos futebol. Afinal, o futebol morre um tanto cada vez que vemos comportamentos como aqueles vistos em Valência, na Espanha. Isso porque atacaram diretamente Vinícius Júnior (ou Vini Jr., como é popularmente conhecido), atleta do Real Madrid e da Seleção Brasileira.

A essa altura do campeonato, todos já devem ter sido impactados pelas cenas da torcida do Valência o insultando com coros de ofensa racista. E,que foram de certa forma aceitos pelos atletas do clube espanhol, uma vez que não vimos reações contrários a esse comportamento asqueroso.

Mas, não bastasse isso, a reação do brasileiro culminou com sua expulsão de campo, numa atitude da equipe de arbitragem que consolidou aquele momento como algo para ser lembrado como um domingo de vergonha.

O posicionamento do presidente da LaLiga

Se tivéssemos parado por aqui, já seria mais que suficiente para uma reação enérgica contra quem propiciou tais cenas. Mas eis que surge Javier Tebas, presidente da LaLiga, a liga de clubes que organiza o campeonato espanhol, atacando as reações de Vinícius Júnior após o episódio.

Como que reforçando a ideia de que Vinícius Júnior exagerava nas reações aos racistas que o insultam há muito tempo. Sim, pois não foi um ato isolado de um grupo de imbecis, mas trata-se de um comportamento recorrente nas partidas em que Vini Jr está em campo.

Trata-se de um caso óbvio de tentativa de calar o talento a partir de insultos vindos de fora de campo, mas corroborados pelos adversários, que nada fazem para evitá-los.

Desde então, a LaLiga tem sofrido inúmeras críticas em relação ao comportamento visto naquela partida, como também às palavras de seu presidente. E, essencialmente, à falta de atitude em relação à recorrência dos insultos racistas aos quais Vinícius Júnior vem vergonhosamente sofrendo.

Tratamos Tebas e a LaLiga como exemplos de boa gestão ao longo do tempo. Afinal, um campeonato que se sustenta pela presença de Real Madrid e Barcelona, e em menor escala pelo Atlético de Madrid, que viu por inúmeras temporadas presenças mágicas em campo de Zidane, Ronaldo, Roberto Carlos, Messi, Cristiano Ronaldo.

Uma competição que desde a temporada 2004/2005 só vê três clubes campeões – os citados acima – e que, num momento de fragilidade, onde vê competições concorrentes como a Serie A italiana e a Bundesliga retomarem espaço de interesse junto ao público, consegue insultar aquele que é seu maior talento atualmente.

Faltam ações

O mundo não tolera mais comportamentos como os que foram vistos ao longo da temporada na LaLiga. Pior que o comportamento é a falta de ações.

Por algum momento vimos insultos racistas na França e na Itália, mas as reações das ligas e federações locais foram sempre rápidas e na direção de coibir esse comportamento, e nunca tentando relativizá-lo.

Motivo? Além do óbvio aspecto humano, há o financeiro. Patrocinadores e público em geral não toleram esse tipo de comportamento.

Vai respingar no dinheiro

Tanto é que desde domingo temos visto reações bastantes duras nas redes sociais e na imprensa internacional a respeito do ocorrido. Isto é, cobrando atitudes não apenas da LaLiga, mas também dos patrocinadores, que associam seus nomes a um comportamento inaceitável. E isso vai respingar no dinheiro.

Os clubes da LaLiga faturaram em 2021, último ano disponível no relatório UEFA Benchmark 2023, € 2,99 bilhões, compostos da seguinte forma:

  • Direitos de TV: € 1.559 milhões;
  • UEFA: € 420 milhões;
  • Publicidade: €851 milhões;
  • Outros: € 108 milhões (inclui bilheteria).

Como são dados de 2021, ainda havia efeitos da pandemia nas bilheterias, por isso o valor seria perto de € 400 milhões superior se considerássemos o público nos estádios. Ou seja, mais de R$ 2,14 bilhões.

Agora, imagine que os patrocinadores da LaLiga resolvam fazer como tantos outros que se deparam com parceiros que tratam mal temas que são caros à construção de um mundo menos desigual, e resolvam deixar a competição. Trata-se de impacto direto na publicidade.

Depois, das receitas com direitos de TV, existe cerca de € 750 milhões que são direitos internacionais. E se os detentores resolverem rescindir os contratos por não concordar com a postura pouco efetiva da LaLiga em relação ao tema racismo?

E como ficam os atletas pretos que recebem propostas de clubes espanhóis? Qual a segurança que eles têm de que serão recebidos e aceitos como qualquer outro? Certamente ninguém quer privilégio, apenas igualdade.

O que traz resultados?

Menos dinheiro, rejeição de atletas, menor capacidade competitiva. Numa indústria cujo objetivo é apresentar o melhor espetáculo e atrair mais atenção que o concorrente, adotar uma postura justa e exemplar conta a favor e traz resultados.

Veja, não é uma questão de se posicionar contra o racismo, mas de ter uma postura efetivamente contra.

Campanhas são importantes, patchs e selos ficam bonitos nas redes sociais, mas sanções duras contra clubes, atletas e torcedores que se comportam de maneira racista deveria ser a tônica de um posicionamento antirracista na indústria do futebol.

Porque ontem foi a França, anteontem a Itália, hoje é a Espanha. Temos casos recorrentes no Brasil e na América do Sul.  Basta.

O futebol tem a chance e a obrigação de ser um meio propagador do respeito. Para que todos sejam tratados com a dignidade óbvia e necessária.