Santander elege alta renda como motor de crescimento no Brasil

Banco tem reduzido participação em alguns negócios ligados ao financiamento do consumo, mas avança em públicos selecionados

O Santander (SANB11) vai apostar em clientes de alta renda e em nichos do agronegócio para retomar o ciclo de crescimento rentável no Brasil, sinalizou o presidente-executivo do banco no país.

“Decidimos focar na alta renda”, disse Mario Leão a jornalistas durante apresentação dos resultados do segundo trimestre.

“Nossa rentabilidade agora vai se recuperar com menos crédito para baixa renda”, acrescentou Leão, explicando os caminhos que o Santander Brasil planeja buscar para elevar sua rentabilidade nos próximos anos.

Os comentários revelam uma virada de estratégia na franquia do espanhol Santander no Brasil, após por vários anos a instituição ter se concentrando no financiamento ao consumo.

Isso aconteceu na esteira de uma concorrência mais pesada de bancos digitais, como o Nubank, que atingiu 80 milhões de clientes recentemente, tomando do Santander a posição de quarto maior banco do país.

Além disso, há quase dois anos, o Santander vem sofrendo os efeitos negativos de uma aposta ousada no pós-pandemia.

Como resultado da rápida elevação dos juros no país para combater a inflação também alta, o Santander vem registrando constante aumento das provisões para cobrir perdas com calotes.

Como consequência, a lucratividade caiu praticamente à metade.

O balanço do banco

Mais cedo nesta quarta-feira, o banco informou que seu lucro de abril a junho somou R$ 2,3 bilhões, 45% a menos do que um ano antes.

E o próprio Leão admitiu que a rentabilidade sobre o patrimônio (ROE), que caiu 10 pontos percentuais de 2022 para 2023, não deve tão cedo voltar aos níveis anteriores.

Nova abordagem

Há meses, o Santander já vem dando passos nesta nova direção no Brasil.

Em março, o banco vendeu 40% do portal digital de financiamento automotivo Webmotors para a Carsale por R$ 1,24 bilhão.

Nesta semana, acertou a transferência da operação de seu negócio de cartões de benefícios Ben para a Sodexo, por 25 anos. O valor da transação não foi revelado.

Simultaneamente, o banco aceitou perder participação no mercado de cartões no primeiro semestre. Outros movimentos em negócios nos quais o banco têm participação podem estar por vir, indicou Leão.

“A gente vai começar a rever algumas participações que o mercado não avalia adequadamente”, disse o executivo, sem dar detalhes.

Ao mesmo tempo, o banco reforça planos para o público de alta renda, para o agronegócio e para pequenas e médias (PMEs).

A meta do Santander é atingir 1 milhão de clientes na sua franquia de alta renda, Select, no fim do ano. Atualmente, são cerca de 900 mil.

Também de olho nesse público, acertou em junho a compra do restante da corretora de investimentos Toro, na qual já detinha 62,5%.

“E planejamos nos próximos meses lançar conta internacional para os nossos clientes”, contou Leão.
O movimento vai na direção de outros grandes bancos comerciais. O Itaú Unibanco oferece conta internacional por meio da Avenue.

A XP também já tem seu produto neste nicho. BTG Pactual e Bradesco anunciaram recentemente planos de fazer o mesmo.

Nichos

Em outra frente, o Santander quer acelerar sua carteira de crédito para o agronegócio, passando de R$ 42 bilhões no fim de junho, para R$ 50 bilhões até dezembro.

Em outra frente, o banco quer dobrar seu negócio de pequenas e médias empresas (PMEs) em três anos.

Leão disse que o Santander não vai abrir mão do financiamento ao consumo. Mas agora, completou, o banco será mais criterioso sobre em quais mercados vai apostar.