SAF do Vasco: o que quase ninguém viu

O que se passa no Vasco é um alerta para todo o mercado: a SAF sozinha não resolve nada

O futebol não é uma indústria fácil. Na realidade, nenhuma é, pois todas têm suas características, idiossincrasias e riscos. Só que a maioria das indústrias tem métodos, estruturas, cadeias produtivas estabilizadas. Assim como o agro precisou passar por um processo de profissionalização, o futebol ainda está algumas casas atrasadas nesse tabuleiro. A relação Vasco da Gama e 777 Partners que nos diga. E o assunto desta coluna, então, é a SAF do Vasco.

O que aconteceu com a SAF do Vasco?

Na semana que passou, a associação Vasco da Gama conseguiu uma liminar na Justiça transferindo a gestão do futebol da Vasco SAF para suas mãos. Assim, retirou poderes da 777 Partners, acionistas majoritária, com 70% da SAF.

A Associação tem os outros 30%. A partir desse fato, a coluna vai abordar alguns riscos de operar Futebol no Brasil, e como mitigá-los. Olho no lance!

A primeira coisa que precisa ficar clara é que o futebol é um negócio que envolve diversos stakeholders com agendas diferentes.

A associação e os torcedores querem resultados rápidos; os torcedores organizados querem privilégios; os acionistas privados nem sempre sabem o que querem; a mídia sabe pouco sobre a gestão de um clube e fala o que o público quer ouvir.

Tudo porque o futebol lida com a paixão, que nem sempre tem uma relação amistosa com o racionalismo. Reconhecer o território e saber agir nesse ambiente é o primeiro passo no processo.

Futebol é investimento de longo prazo

Um projeto adequado de investimento em futebol deve partir da premissa de que é de longo prazo, e que seu desenvolvimento será lento e gradual.

Ainda mais em estruturas arcaicas, deterioradas, inchadas como vemos em boa parte dos clubes do Brasil, mas não só. Na Europa também tem muito clube sendo gerido “artesanalmente”.

Pensando apenas no processo de reestruturação de um clube, isso não se faz do dia para a noite, e toma muito tempo e dinheiro. Seja por investimento físico, seja por investimento humano.

Por mais que tenhamos evoluído, ainda não há tanta gente assim preparada para gerir clubes de futebol. Novos e promissores profissionais não entendem da indústria, enquanto os mais experientes carregam vícios que precisam ser quebrados. Encontrar o equilíbrio é difícil. E não só na administração, mas também na gestão esportivo e técnica.

Eficiência no futebol

É preciso uma visão sustentável. Financeiros raramente são ouvidos nos clubes, em detrimento de gastanças desenfreadas no futebol.

Tudo tem que operar em conjunto, com um tom claro de eficiência: busca de mais receitas, controle de custos, gastos que tragam retorno técnico e financeiro. E longo prazo. Então, acerte o seu aí, que eu arredondo o meu aqui.

Implantar uma nova cultura que permeie o clube não é fácil. Mudar missão e valores, criar uma visão corporativa, pensar, implantar e desenvolver um DNA esportivo, e encontrar profissionais aptos a tudo isso leva tempo.

E precisa de gente capacitada colocando em prática. O que nos traz outro desafio: o perfil dos novos donos de clubes.

SAF do Bahia

Quando fizemos o estudo de análise de mercado para auxiliar o EC Bahia a tomar a decisão de se transforma rem SAF ou não, nossa recomendação foi que, caso o processo de criação da SAF fosse adiante, o melhor seria buscar um parceiro estratégico. Assim, ele poderia operar o futebol e aportaria tecnologia e conhecimento, evitando, então, o investidor financeiro.

O motivo é claro: um investidor financista nem sempre está apto a tomar as decisões corretas, por estar longe demais do negócio. Todo mundo acha que conhece futebol, mas a realidade é que não conhecem nada. O financista, então, acabará se apoiando nos profissionais errados.

No final, o Bahia recebeu o City Fiitball Group, o Cruzeiro recebeu o Ronaldo, e Vasco e Botafogo estão nas mãos de financistas. Pelo amor dos meus filhinhos!

Como é nos EUA

Se aqui estamos falando da SAF do Vasco, vamos ver o que acontece nos EUA.

O perfil dos financistas americanos é sempre de growth: compra um ativo alavancado, acelera, compra outro, acelera, mais um, acelera, e depois empacota tudo e abre capital.

Funciona em algumas indústrias, mas não no futebol, onde o processo de organização é lento, como comentei. Ainda mais num projeto de MCO, que pretende agrupar diversos clubes de ligas e culturas diferentes sob o mesmo guarda-chuva.

Depois de um ano e meio do projeto que estamos desenvolvendo na Convocados Consultoria, só agora temos segurança de seguir para um próximo clube, tamanha as dificuldades de (re)organização e gestão.

Imagine num clube grande, com dívidas imensas, num país onde elas custam pelo menos 10% ao ano, com história e torcida apegada a ela.

Desandou a maionese

O caso da 777 Partners é assim. A todo momento uma aquisição alavancada de clube em dificuldade, com enorme demora na construção de uma governança multiclubes, e sem o apoio correto nos países.

Demoraram para acertar o Genoa na Itália, e não conseguiram se organizar nos demais clubes, além de todas as desconfianças sobre a própria companhia. Talvez não dê tempo para a tal “saída a mercado”. Desandou a maionese.

Vale a mesma atenção com a Eagles que controla o Botafogo. Fica a dica.

Enquanto, a associação Vasco da Gama, que deixou o clube numa situação de penúria financeira, de infraestrutura e esportiva – não esqueçam dos sucessivos rebaixamentos – volta à tona, mas sem colocar a mão no vespeiro. E a SAF do Vasco?

Pedrinho, atual presidente do clube, deu uma entrevista sensata ao GE, e fica claro que a situação atual é insustentável, mas seguirá insustentável sem um novo acionista com dinheiro no lugar da 777 Partners.

Difícil é encontrar o perfil correto, pois há poucos estratégicos no mercado, a situação financeira segue estrangulando a estrutura, aportes necessários inviabilizam retorno do investimento para um financista.

Qual é a solução?

A solução talvez seja o modelo “SAF Mineira”, através do qual um torcedor rico resolve colocar dinheiro e ser dono do clube. É mais um hobby que um negócio, como vimos com o Atlético Mineiro e agora com o Cruzeiro.

Só a SAF não resolve

Tempo. Não há projeto de futebol que se resolva em dois ou três anos, mas em 10 é possível. O que se passa no Vasco é um alerta para todo o mercado: a SAF sozinha não resolve nada. É preciso que haja um projeto sério e estruturado tocado por profissionais. Nem todo acionista será bom para o clube, a responsabilidade é de todos na associação. Ninguém chega a uma situação como a do Vasco por acaso. Pelas barbas do profeta!

PS: Deixei soltas algumas frases do saudoso Silvio Luiz, que assim como Apolinho e Antero Greco deixam mais tristes o futebol com suas partidas. Fazem parte da construção da cultura do futebol brasileiro como o conhecemos hoje, e deixarão suas marcas para sempre.