Queda da Bolsa sempre acompanha aumento de gastos públicos… Será mesmo?

Veja a evolução dos gastos públicos nos últimos anos e a comparação com o desempenho da Bolsa nesse mesmo período

O Ibovespa, principal índice de ações do Brasil, quase bateu 120 mil pontos neste mês – mas tem sofrido uma reviravolta dramática nos últimos dias. Na quinta (17), no auge da repercussão sobre a política fiscal do novo governo, o índice chegou a menos de 108 mil pontos e a queda da Bolsa de Valores tem sido associada à perspectiva de aumento de gastos públicos.

As análises do mercado apontam quase sempre para uma suposta irresponsabilidade fiscal, relacionada a essa expansão de gastos proposta pelo novo governo. Dito isso, vale lembrar que o governo Lula, que assume a presidência em 2023, pretende elevar em R$ 200 bilhões os gastos. O valor seria destino para bancar programas sociais e o aumento do salário mínimo, além de colocar o Bolsa Família fora do teto, permanentemente.

Gastos públicos no governo Bolsonaro

Contudo, os históricos de desempenho da Bolsa de Valores e de aumento de gastos públicos apontam que, nos últimos anos, o mercado foi bastante tolerante com aumento de gastos. Inclusive, com o rompimento da chamada regra de ouro da política fiscal, que é o teto de gastos.

Um levantamento feito pelo pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE) Bráulio Borges apontou que, só no mandato de Jair Bolsonaro, os gastos somaram R$ 794,9 bilhões de 2019 a 2022.

De acordo com o levantamento de Borges, a flexibilização da regra do teto de gastos começou já no primeiro ano do governo. Afinal, em 2019, foram R$ 53,6 bilhões gastos fora do teto. Posteriormente, em 2020, o valor explodiu por conta da pandemia de covid-19. Portanto, R$ 507,9 bilhões foram gastos fora da regra ao longo de todo aquele ano. E em 2021, foram mais R$ 117,2 bilhões.

Neste ano, a expectativa é que os gastos para além do teto sejam ainda mais altos e fechem em R$ 116,2 bilhões, segundo o economista.

Trajetória da dívida pública

Em linhas gerais, a trajetória da dívida pública brasileira desde 2015 tem sido crescente.

A dívida pública brasileira estava em 66,5% do PIB (Produto Interno Bruto) em dezembro de 2015. Isto é, alguns meses antes do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, conforme dados do Banco Central.

Em dezembro de 2017, com Michel Temer há mais de um ano e meio no cargo de presidente, a dívida pública já havia passado para 73,7%. Ao final daquele mandato, em dezembro de 2018, a dívida havia crescido mais, batendo 75,3% do PIB.

Sob Bolsonaro, a dívida pública chegou a bater 89% do PIB em fevereiro de 2021. Mas hoje ela está em cerca de 77% do PIB.

Relação da dívida com o humor do mercado

Dados históricos do Ibovespa dizem que a dívida pública não foi decisiva sobre o humor do mercado nos últimos anos.

Em 2017 a dívida começou a registrar uma trajetória ascendente mais acentuada. Da mesma maneira, a Bolsa saiu de 59.589 pontos no fechamento do primeiro pregão daquele ano para 76.402 pontos no fechamento derradeiro. Isso significa uma valorização de 28% no período.

Ao final de 2018, ainda com a piora fiscal, a Bolsa continuou subindo. O Ibovespa bateu 87.887 ao final daquele ano, incremento de 15% sobre o índice em 12 meses.

Entre janeiro e dezembro de 2019, a dívida pública estabilizou. Houve apenas uma pequena queda, de 75,3% do PIB em dezembro do ano anterior para 74,4% do PIB em dezembro de 2019. Nesse período, porém, houve o primeiro ato de desrespeito à regra do teto de gastos. De acordo com Borges em seu levantamento, houve um estouro de R$ 53,6 bilhões.

Naquele momento, o estouro do teto de gastos não foi decisivo para emplacar um mau humor permanente no mercado. A Bolsa teve um desempenho ainda melhor do que vinha registrando, e fechou o ano no patamar de 115.645 pontos, uma valorização de 32%.

Durante o período mais crítico de ascensão da dívida pública, entre 2020 e 2021, a Bolsa registrou seu desempenho recorde. O Ibovespa bateu 119.017 no último dia útil daquele ano, valorização de 3%, e se manteve próximo dos 120 mil pontos até o início de setembro daquele ano, depois caiu. O Ibovespa fechou 2021 em 104.822 pontos.

Gastos eleitorais em 2022

Também o anúncio do aumento de gastos durante as eleições não impactou o humor do mercado decisivamente. Na semana em que Bolsonaro anunciou que iria ampliar o valor do Auxílio Brasil para R$ 600 e aumentar os gastos acima do teto, a Bolsa se manteve estável.

O presidente anunciou no dia 24 daquele mês que haveria o aumento de gastos para bancar o incremento no programa. No mesmo dia, a Bolsa subiu 0,60% e 2,12% no dia seguinte.

No dia 24 de junho, quando Bolsonaro anunciou o incremento no programa, o Ibovespa fechou em 98.672 pontos.

Ao longo dos meses seguintes, o índice da Bolsa subiu, chegando a bater 119.929 pontos no dia 21 de outubro, sustentando um avanço, mesmo diante do incremento dos gastos públicos.