Janela de transferência do futebol brasileiro: erros podem deixar sequelas financeiras

Todo ano os dirigentes dos clubes fazem tudo igual; será que não é hora de pensar diferente para evitar falhas básicas?

O futebol brasileiro é um museu de grandes novidades. Entra ano e sai ano, e vemos situações se repetirem de forma exaustiva. Cansativas, até. Isso porque, costumam ter resultados ruins, mas ainda assim os dirigentes optam por repetir a experiência, esperando resultados diferentes.

Estamos no meio da janela de transferências do futebol brasileiro, momento em que os clubes vendem e contratam atletas. Para clubes que estão bem-posicionados e com bom desempenho, o que se espera são movimentos pontuais, de ajustes. Seja para cobrir alguma saída indesejada, seja para ajustar uma ou outra posição.

Para clubes em situação de risco, ou que precisam dar explicações e satisfações aos torcedores, o que acontece é a velha tentativa de contratar atletas de nome, caros, e que geram retorno de mídia. Portanto, isso mostra que os dirigentes estão trabalhando e reforçando suas equipes.

Existe solução mágica?

Seguimos pensando em nomes, não em funções. Seguimos errando na essência. Inclusive, sempre haverá quem tem uma solução mágica para justificar a chegada de algum atleta que já esteve em alta no futebol mundial. As frases são sempre as mesmas:

“Se jogar 10% do que já jogou, sobra no Brasileirão”.

Mesmo que não jogue nem esses 10% nos últimos anos, em diversas ligas, e ligas cada vez mais frágeis tecnicamente. Aliás, são os mesmos que defendem que o Brasileirão é altamente competitivo e disputado. Mas ainda assim, um atleta que jogue 10% do que já jogou, sobrará em campo. Vai entender.

“O atleta vem de graça, e se sujeitará ao teto salarial do clube”.

Não existe nem almoço, nem atleta que chega “de graça”. Há comissões, luvas, adiantamentos. E, para encaixar no teto salarial, de duas uma: ou o atleta já está em aposentadoria, ou o teto é um pé-direito triplo.

“Haverá patrocinadores que ajudarão a pagar o salário”

E mais: “se vender ‘X’ camisas, já paga a contratação”. Patrocinador não paga nada, porque a maioria desses atletas tem algum histórico no futebol, mas não são vendedores que justifiquem aportes milionários de um patrocinador.

Pode até ser um mecenato, mas longe de ser um retorno de marketing. A frase das camisas é boa para gerar clique em notícias, porque já é óbvio que não funciona assim. Junte a essas frases o conceito de “Engenharia Financeira” para justificar a contratação. Expressão bacana.

“Estou muito decepcionado com o desempenho na temporada”

Este é outro clássico dos chamados executivos de futebol. Eles montam os elencos baseados em nomes e não em funções. E depois se dizem decepcionados.

Essas são algumas das frases clássicas do futebol brasileiro nos períodos de janelas de transferências. Mostram que as gestões seguem cartilhas envelhecidas, e que os dirigentes não aprenderam nada com o histórico do futebol. Mas também não esqueceram nada do que lhes foi ensinado por dirigentes arcaicos da nossa história.

Sequelas financeiras

Isso não significa que os clubes não devam buscar reforços de qualidade. Pelo contrário. O futebol vive de nomes e ídolos, e ter atletas qualificados e com um histórico de bom desempenho é ótimo para o produto.

Há casos recentes que mostram isso, como Hulk e Suárez. Ou mesmo Rafinha e Felipe Luiz no Flamengo. Mas são exceções (os dois primeiros) ou estavam enquadrados num contexto específico, no caso dos flamenguistas. Estruturalmente, há mais erros que acertos, e costumam deixar sequelas financeiras.

Os clubes brasileiros precisam aprender a trabalhar com elenco enxuto e bem distribuído. Precisam entender que o futebol dentro de campo é resultado de um processo que começa fora dele. O dinheiro é finito, e erros custam caro. Evitá-los faz parte do manual de boa gestão de qualquer empresa, e deveria ser aplicado ao futebol.

Erro zero não existe. Mas quanto mais estruturados estiverem os clubes na tomada de decisão, menor a chance de erros, especialmente os básicos.