Inflação: Cortes de gasolina, diesel e botijão de gás vão derrubar o IPCA?

A Petrobras anunciou reajustes de combustíveis nas refinarias a partir de quarta

Os recuos em preços de combustíveis anunciados nesta terça-feira (16) nas refinarias e distribuidoras pela Petrobras devem contribuir para reduzir a inflação mensal apurada pelos principais indicadores do país. No IPCA do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); e nos IGPs da Fundação Getulio Vargas (FGV).

No caso do IPCA, o anúncio da Petrobras vai gerar decréscimo total de cerca de 0,51 ponto percentual nas taxas de maio e de junho, juntas. Mas não deve alterar resultados de IPCA e de IGPs para taxa anual, de 2023.

Segundo o economista da fundação e analista de inflação responsável pelos IGPs, André Braz, a mudança na alíquota de ICMS para gasolina, a partir de junho, deve conduzir a um aumento de dois dígitos no preço desse combustível – que “compensaria”, no resultado anual inflacionário, o impacto benéfico, na inflação, das quedas divulgadas hoje.

A Petrobras informou quedas de 12,7% no preço do litro do diesel (R$ 0,44); de 12,5% no preço do litro gasolina (R$ 0,40); e de 21,42% no preço do botijão de 13 quilos (R$ 8,97) – nas refinarias e distribuidoras. As quedas valem a partir de quarta-feira, 17 de maio.

Ao comentar sobre os impactos desses recuos nos resultados das taxas inflacionárias, Braz frisou que esses são diferentes ao se projetar resultados para desempenho mensal e anual.

No mensal, no caso do IPCA, a redução em gasolina deve gerar decréscimos de 0,21 ponto percentual no total do IPCA de maio; e de 0,21 ponto percentual no IPCA de junho.

“O peso da gasolina é de 5% do orçamento, e no total do IPCA. A cada um por cento de queda, a gasolina recua 0,05 ponto percentual [no IPCA]” ele explicou.

“Mas não podemos considerar que essa queda de 12,5% será repassada integralmente na bomba [nos postos de gasolina]” disse, comentando que o recuo vale para as refinarias.

“Calculamos que chegará um recuo em torno de 8,5% nas bombas [ao consumidor]”, disse. “Então podemos ter um recuo de 0,42 ponto percentual no total do IPCA, sendo 50% disso em maio; e 50% em junho” disse.

Ao ser questionado sobre impacto na taxa anual do IPCA de 2023, Braz ressaltou que não se sabe qual será aumento exato no preço da gasolina, a partir de junho, devido à unificação de alíquota de ICMS para esse combustível.

O especialista lembrou que alíquota de ICMS de gasolina e de álcool anidro vai aumentar para R$ 1,22 o litro a partir de junho. “Eu estimo uma alta em torno de 10% [no preço da gasolina nas bombas por causa de ICMS] mas alguns analistas apostam em aumento de 12%, de 15%”, disse.

Assim, na prática, o recuo anunciado o preço da gasolina pode ajudar a “contrabalançar” o aumento esperado nesse combustível em junho; e não mexer tanto com projeção para IPCA anual de 2023.

“Eu acho que o IPCA ainda vai encerrar em 6% esse ano”, disse o técnico. “Tudo que acontece em gasolina acaba definindo o IPCA”, resumiu.

Mas a gasolina não é o único combustível a ajudar na formação do IPCA. No caso do botijão de gás, com peso de 1% no total do indicador, o impacto projetado pelo especialista é de 0,09 ponto percentual de decréscimo nas taxas do IPCA de maio e de junho, sendo -0,04 p.p. em maio e -0,05 em junho.

No caso do diesel, o especialista comentou que esse combustível pesa muito pouco no IPCA, apenas 0,25% do total do indicador.

“O impacto maior do diesel mais barato é indireto” disse, comentando que a medida ajuda a diminuir tarifa de transporte urbano e rodoviário, visto ser combustível desses dois modais, além de baratear fretes. Com isso, diesel mais barato ajuda a reduzir custo de produção, notou ele.

Novas projeções

A redução dos preços da gasolina, diesel e gás de cozinha anunciados pela Petrobras levaram a Warren Rena a revisar sua projeção de IPCA para 2023, de 5,70% para 5,50%.

Nos cálculos de Andréa Angelo e Vinicius Valentin, a queda de R$ 0,40 (12,6%) do preço do combustível nas refinarias foi maior que esperavam (5%). Sozinho, isso tiraria 0,23 ponto porcentual do IPCA de 2023.

No entanto, lembram, esse reajuste será praticamente anulado pela nova fórmula de cobrança do ICMS pelos Estados (ad rem), que passará a ser R$ 1,22 por litro no início de junho. Com isso, o efeito líquido da medida é uma queda de 0,03 ponto porcentual.

Angelo lembra que, além do corte maior que o esperado da gasolina, outro impacto deve vir do etanol, que acaba acompanhando a queda para se manter competitivo.

No caso do gás de cozinha, os economistas da Warren estimam que o corte de R$ 8,97 resulta em uma queda de 9% no preço final ao consumidor. Isso retiraria 12 pontos do IPCA no fim do ano.

Entretanto, eles contavam com uma redução maior neste item, de R$ 10, o que implica que a contribuição deste item para a projeção de fim de ano aumentou em 0,02 ponto.

A redução dos preços pela Petrobras também já era esperada pela MCM Consultores, que revisou na sexta-feira sua projeção para o IPCA em 2023 de 6,50% para 6,35%. Uma vez que as estimativas era bastante parecidas com o que foi anunciado, a projeção deve pender para algo perto de 6,30%, diz a economista Basiliki Litvak.

A consultoria projeta uma variação de 5,39% no preço para o consumidor final no caso da gasolina após o anúncio da Petrobras, além de 6,95% no caso do diesel e 8,24% no caso do GLP.

Somados, esses anúncios geram um impacto baixista de 0,40 ponto porcentual sobre o IPCA, sendo 0,27 ponto da gasolina, 0,02 do diesel e 0,11 ponto do botijão de gás.

Já na avaliação da XP Investimentos, a redução de tem poder de tirar cerca de 0,39 ponto porcentual da inflação este ano. Segundo comentário assinado pelo economista Alexandre Maluf, a redução da gasolina traz um impacto estimado na bomba de 0,32 ponto, divididos entre maio e junho.

A queda do preço do GLP tira outros 0,06 ponto, também divididos entre os dois meses. No caso do diesel, que tem menor peso no cálculo do IPCA, este impacto é de apenas 0,01 ponto.

Com a medida, as projeções da inflação para maio e junho caíram para, respectivamente, 0,26% e 0,33%. Já a projeção para 2023 “recuaria” de 6,2% para 5,8%.

No entanto, a casa ainda vai recalibrar suas projeções, dado que o anúncio da mudança da política de preços da Petrobras e o cenário mais benigno para o real o petróleo “tendem a tornar tais patamares de preços mais duradouros”, diz Maluf.