Inflação em 12 meses deve voltar a subir no 3° trimestre, aponta Banco Central

Relatório mostra que chance de IPCA furar teto da meta em 2023 é de 83%

O Banco Central informou em seu Relatório Trimestral de Inflação que projeta Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 0,87% para março, 0,63% para abril, 0,28% para maio e 0,29% para junho. Assim, a estimativa é de inflação de 3,79% nos 12 meses até junho.

Mas a autoridade monetária também alertou que a inflação acumulada em 12 meses “deve voltar a subir no terceiro trimestre, quando será retirada do cálculo a variação negativa do IPCA em igual período de 2022, decorrente das medidas de desoneração tributária”.

Também afirmou que, “no trimestre até junho de 2023, a média dos núcleos de inflação ainda deve permanecer acima do patamar compatível com o limite superior do intervalo em torno da meta”.

No trimestre encerrado em fevereiro, a surpresa inflacionária em relação aos percentuais previstos pelo Banco Central foi negativa em 0,42 ponto percentual.

Novo estouro do teto da meta

A probabilidade de o IPCA terminar 2023 abaixo do piso da meta é 0% e de ficar acima do teto é 83%, de acordo com as estimativas feitas pela autoridade monetária no relatório.

Para 2024, a chance de ficar abaixo é 6% e de ficar acima é 26%. Para 2025, 11% de ficar abaixo e 17% de ficar acima.

Esse cenário pressupõe taxa de juros extraída da pesquisa Focus. Já a taxa de câmbio começa em R$ 5,25, a média da semana anterior à reunião do Comitê de Política Monetária, e evolui de acordo com a paridade do poder de compra. Por sua vez, o “preço do petróleo segue aproximadamente a curva futura pelos próximos seis meses e passa a aumentar 2% ao ano posteriormente”.

“Além disso, adota-se a hipótese de bandeira tarifária ‘amarela’ em dezembro de 2023 e de 2024”, diz o BC.

As metas de inflação são de 3,25% em 2023 e 3% em 2024 e 2025. O sistema prevê intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais e para menos. Atualmente, a autoridade monetária mira 2023 e 2024 para conduzir a Selic. Mas, por causa das mudanças tributárias realizadas pelo governo Bolsonaro e pelo Congresso no ano passado, o BC optou neste momento por “dar ênfase” à inflação acumulada de 12 meses até o fim do terceiro trimestre de 2024, período para o qual projeta IPCA de 3,8%.

Quando a inflação anual fica fora do intervalo de tolerância, o presidente do BC precisa escrever uma carta aberta ao ministro da Fazenda explicando os motivos que levaram ao não cumprimento da meta e detalhando ações que serão tomadas para corrigir o problema.

As projeções apresentadas acima usam o conjunto e informações disponíveis até a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em 21 e 22 de março.

Impacto da crise bancária

O Banco Central afirmou, no RTI, que embora seja cedo para avaliar o impacto da crise bancária em países desenvolvidos sobre crédito, preços dos ativos, fluxos financeiros internacionais e economia real, “é evidente que os riscos baixistas para a atividade global aumentaram”.

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“Nas últimas semanas, o fechamento de bancos médios nos EUA e questionamentos sobre a saúde financeira de um banco globalmente sistêmico (G-SIB) na Europa trouxeram preocupações sobre a estabilidade financeira nos países avançados, com consequente aumento da aversão global ao risco e impactos sobre os preços de diversos ativos financeiros”, disse.

“Apesar dos esforços das autoridades em restaurar a confiança nos sistemas financeiros e evitar o contágio para outras instituições e outras jurisdições, a incerteza em torno da resolução total das desconfianças em torno do setor bancário ainda é elevada”, completou.

O BC repetiu que o cenário global se deteriorou ao longo do trimestre. “A sequência de choques globais dos últimos anos trouxe impactos econômicos profundos, e seus efeitos continuam se manifestando. A inflação mantém-se persistentemente alta mesmo ante o aperto monetário generalizado implementado pelos bancos centrais”, pontuou o relatório.

A autarquia ponderou que a política monetária opera com defasagens de tempo sobre a inflação e que grande parte dos efeitos da elevação dos juros ao redor do mundo “ainda está por se materializar”.

“O crescimento global vem desacelerando, mas ainda encontra sustentação em um mercado de trabalho em geral ainda aquecido, e, em vários países, o processo de retomada das atividades mais afetadas pela pandemia de covid-19 permanece em andamento, contribuindo para a pressão de preços no setor de serviços”, analisou.