Galípolo pode suceder Campos Neto na presidência do Banco Central?

Número 2 da Fazenda foi indicado por Haddad para ocupar a diretoria de Política Monetária

Indicado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para a diretoria de Política Monetária do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo comandava a secretaria-executiva da pasta desde o início do governo. Nos bastidores, a expectativa é que ele ocupe a presidência da autoridade monetária a partir de 2025, após o fim do mandato de Roberto Campos Neto.

Galípolo tem graduação em Ciências Econômicas e é mestre em Economia Política. Ele fundou, em 2009, a Galípolo Consultoria, da qual foi sócio-diretor até 2022. Também foi presidente do Banco Fator de 2017 a 2021 e é professor do MBA de PPPs e Concessões da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo em parceria com a London School of Economics and Political Science.

Ele é conselheiro do Conselho Superior de Economia e do Conselho de Infraestrutura, ambos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Como mostrou o Valor nesta segunda-feira, sua indicação .

Segundo o colunista Alex Ribeiro, o movimento de torná-lo primeiro diretor do BC para depois ocupar a presidência causou estranheza. Além disso, fontes ouvidas pelo jornalista apontaram seu histórico acadêmico como um fator de preocupação.

“Ele assina, por exemplo, com o economista André Lara Resende, um texto com propostas na linha da Nova Teoria Monetária (conhecida pela sigla em inglês, MMT). Há apenas dois anos, defendia em ‘lives’ uma política econômica não ortodoxa”, ressaltou a coluna.

Recentemente, Haddad discordou publicamente da ideia defendida por Lara Resende.

‘Sem preocupação’

O CFO do BTG Pactual, Renato Cohn, disse nesta segunda-feira que a indicação de Gabriel Galípolo não causa nenhuma preocupação e não muda as projeções do banco.

Cohn afirmou que, para a diretoria de Política Monetária, o mercado sempre espera um nome que entenda do operacional do BC, mas também tenha a vivência do dia a dia de operações de mercado.

“Ele atende aos dois quesitos. Não vejo com nenhuma preocupação, acho bastante positivo”, disse a jornalistas.

O executivo afirmou ainda que Galípolo já atua no Ministério da Fazenda e que tem havido boa interlocução da pasta com o BC.

Copom dividido?

A escolha de Gabriel Galípolo pode levar para o Comitê de Política Monetária (Copom) uma avaliação “diametralmente oposta” ao que a orientação “apropriada” de política monetária “deveria ser”. A avaliação é do o diretor do departamento de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos.

“Nós enxergamos espaço para um potencial aumento nos ruídos de comunicação no curto prazo”, escreve Ramos em inglês em relatório.

“Nós não ficaríamos surpresos se começássemos a ver decisões divididas do Copom e visões diametralmente opostas dentro do comitê a respeito do que a orientação apropriada [de política monetária] deveria ser.”

Ramos também afirma que “a percepção” de que Galípolo pode substituir o atual presidente do BC, Roberto Campos Neto, “tem potencial para gerar alguma fricção e inquietação dentro do Copom”.

Reação política

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), afirmou que enxerga Gabriel Galípolo como “um excelente quadro” para comandar a diretoria de Política Monetária do BC.

“Eu considero Gabriel Galípolo um excelente quadro da República. Hoje cumpre uma função importante na secretaria-executiva do Ministério da Fazenda, [tem] um excelente diálogo com o Congresso Nacional”, disse Pacheco, ao ser provocado a falar sobre o assunto pelo Valor após participar de um evento na Fiesp, em São Paulo.

“Então vejo como alguém com predicados próprios para ocupar essa posição”, acrescentou.

Pacheco fazia sua apresentação aos empresários no momento em que Haddad fez o anúncio. Ao elogiar o economista ante a pergunta da reportagem, o presidente do Senado afirmou que ainda não estava sabendo da indicação. E voltou a tecer elogios.

“Vejo com bastante otimismo, é um nome que agrada ao Senado Federal”, reiterou.

Haddad anunciou também que o governo indicará Aílton Aquino dos Santos à diretoria de fiscalização do BC, e que Dario Durigan será o substituto de Galípolo na secretaria-executiva da pasta.