Mansueto: sem estabilizar dívida, chance do Brasil recuperar grau de investimento ‘é praticamente zero’

Somente países desenvolvidos como Estados Unidos e Japão conseguem carregar o peso de uma dívida bruta que ultrapassa o tamanho da economia em um ano.
Não é o caso do Brasil, à medida em que os altos juros sobre a dívida somada à perda de confiança no País poderiam agravar o cenário de dominância fiscal.
Esta é a análise de Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro e economista-chefe do BTG Pactual feita em entrevista à Inteligência Financeira nesta segunda-feira (24).
O cenário de dominância fiscal vem sendo debatido por economistas e pelo mercado financeiro desde o início do ciclo de alta de juros retomado pelo Banco Central em setembro.
Em evento, Mansueto disse que, se o Brasil quiser ter chances de recuperar o grau de investimento concedido por agências de risco, deve “conseguir responder quando haverá estabilização do endividamento do país”.
Enquanto não der essa certeza, a chance de obter grau de investimento é “praticamente zero”, disse o economista.
Só país desenvolvido consegue carregar dívida alta, diz Mansueto
Somente países desenvolvidos como Estados Unidos e Japão conseguem carregar o peso de uma dívida bruta que ultrapassa o tamanho da economia em um ano, disse o ex-secretário do Tesouro.
O economista participou de evento ao lado de Armínio Fraga, ex-presidente do BC, Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, e da economista Zeina Latif.
“Dívida muito alta só carrega quem é país desenvolvido. Nações em desenvolvimento como o Brasil, com renda média alta, em geral têm dívida bem mais baixa”, disse. “No nosso caso, contudo, temos dívida muito maior que nossos pares emergentes”, completou.
Uma dívida no caso brasileiro se traduz em juros mais altos pela piora no balanço de pagamento do governo, colaborando para dominância fiscal. De acordo com o Tesouro Nacional, a dívida bruta do governo central deve chegar a 81,7% do PIB em 2026.
Já a Instituição Financeira Independente, órgão ligado ao Senado, projeta um patamar de 117% para a dívida bruta até 2034.
Mansueto: risco de dominância fiscal ainda existe
Dominância fiscal é, segundo economistas, um cenário em que o aumento dos juros seja insuficiente para controlar a alta da inflação. Ou seja, a política monetária perde a efetividade diante da política fiscal do governo.
Nesse caso, quanto mais sobem os juros, maior o percentual que o país precisa pagar sobre o serviço de dívida.
Neste cenário, segundo Mansueto, elevar os juros tem, na verdade, um efeito reverso sobre a inflação. Ou seja, ao invés de gerar expectativa de redução de preços, há um aumento nas projeções futuras.
“Nosso cenário se assemelha mais à Argentina”, disse Mansueto.
O cenário de dominância fiscal vem sendo debatido por economistas e pelo mercado financeiro desde o início do ciclo de alta de juros, em setembro de 2024.
Mansueto, no entanto, destaca que mesmo com risco de dominância, política do BC tem funcionado. Porém, para o economista, o risco de dominância fiscal existe.
O ciclo de alta dos juros, com a decisão mais recente do Copom para elevar a taxa a 14,25% ao ano, foi suficiente para estabilizar as expectativas de inflação, diz Mansueto. No Boletim Focus desta segunda-feira, as projeções do IPCA para 2025 recuaram
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