O Brasil está em deflação? Entenda o fenômeno e saiba como ele pode afetar os seus investimentos

IPCA foi de -0,08% em junho, menor variação para o mês desde 2017

O IBGE divulgou na última terça-feira (11) que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de -0,08% em junho. Ou seja, o país teve deflação no período.  

De acordo com o instituto, o índice ficou 0,31 ponto percentual (p.p.) abaixo da taxa de maio (0,23%). Essa foi a menor variação para o mês de junho desde 2017, quando o IPCA apresentou deflação de -0,23%.  

Mas, afinal, o que é deflação? Podemos afirmar que o Brasil está em deflação? E o que isso pode afetar os seus investimentos? Confira a seguir.  

Deflação e processo deflacionário  

Deflação, de acordo com os economistas, é um fenômeno que se caracteriza por uma queda, na média, nos preços de produtos e serviços mais consumidos em um país. Sendo assim, há preços que sobem mais, e outros, com queda maior, que fazem com que o índice fique no terreno negativo.  

Comemorada pelo governo, a deflação registrada em junho foi um efeito pontual. Para muitos economistas, o IPCA de junho nem pode ser considerado deflação, que seria caracterizada como queda generalizada de preços de produtos e serviços de forma contínua e por um período razoavelmente longo. Nesse sentido, o IPCA de junho trata-se de uma média que ficou no negativo.

Embora seja comum chamar o recuo pontual de índices de inflação de deflação, a queda somente em um ou dois meses não configura por si só um processo deflacionário. Além disso, não permite dizer que a deflação é uma tendência.

Entretanto, não há consenso entre os economistas sobre a duração de um processo deflacionário. É necessário tempo suficiente para que o fenômeno seja considerado tendência.

Vale destacar ainda que os recuos precisam também ser generalizados. Ou seja, devem afetar uma grande gama de produtos e serviços.

É importante frisar ainda que uma queda generalizada de preços por tempo indeterminado não é algo positivo para o país. Para os consumidores, deflação pode parecer uma coisa boa, afinal, estamos falando de redução de gastos e mais dinheiro no bolso.

Isso mostra, entretanto, que o poder de compra está reduzido, fazendo com que comerciantes e prestadores de serviços cortem seus ganhos para tentar estimular a demanda. Um dos efeitos da deflação acaba sendo o aumento do desemprego, por exemplo.

Deflação e investimentos

Antes de tomar qualquer decisão em relação aos investimentos atrelados à inflação, é importante lembrar que, nos últimos meses, a inflação vinha subindo. No ano, o IPCA acumula alta de 2,87% e, nos últimos 12 meses, de 3,16%, abaixo dos 3,94% observados nos 12 meses imediatamente anteriores, segundo o IBGE. Em junho de 2022, a variação havia sido de 0,67%.

De acordo com o IBGE, alimentação e bebidas (-0,66%) e transportes (-0,41%) foram os grupos que mais contribuíram para a deflação de junho, com impacto de -0,14 ponto percentual e -0,08 ponto percentual no índice geral, respectivamente.

Também registraram quedas os artigos de residência (-0,42%) e comunicação (-0,14%). Por outro lado, nas altas, o maior impacto (0,10 ponto percentual) e a maior variação (0,69%) vieram de habitação.

O resultado negativo de junho foi o primeiro em nove meses. Em resumo, essa queda de preços pontual não compensou as altas anteriores no custo de produtos e serviços.  

Tendência é duradoura?  

Os fatores que resultaram no IPCA negativo em junho são eventos não recorrentes. Segundo projeções da Rico Investimentos, o indicador deve registrar mais uma vez leve deflação no mês de julho. Porém, em agosto, o IPCA deve voltar a variar positivamente – ou seja, indicar aumento de preços.  

Portanto, de acordo com a corretora, o efeito negativo sobre a marcação dos títulos de renda fixa e dos fundos imobiliários de recebíveis indexados ao IPCA será temporário e não deverá ter um impacto significativo

O impacto na renda fixa

A inflação negativa traz impactos nos produtos de renda fixa atrelados ao IPCA. Títulos com índices de IPCA mais algum cupom (pagamento periódico de juros) são muito interessantes para proteção contra a inflação quando ela é positiva ou muito alta. Isso, contudo, tem um preço de risco, que é justamente a curva da inflação. 

Esse movimento pode acabar pegando de surpresa muitos investidores, que não esperavam retornos negativos nesse tipo de investimento. Sendo assim, vale lembrar que o impacto da deflação pode ser compensado pela variação na taxa de juros real. 

A taxa de juros real é a taxa de juros nominal ajustada pela inflação (taxa de juros menos a inflação = taxa de juros real), refletindo o retorno real do investimento. Essa taxa é determinada por movimentos de mercado e pode ajudar a mitigar a redução causada pela deflação. 

Deflação pouco expressiva 

De acordo com a Rico Investimentos, a deflação observada em junho foi pouco expressiva, principalmente se comparada ao mesmo período do ano anterior, o que significa que qualquer impacto nos títulos deve ser pequeno.  

Na avaliação da corretora, a deflação não foi uma surpresa – na verdade, foi mais branda do que o esperado pelos analistas de mercado.  

“Entendemos que esse movimento de queda no IPCA é temporário – ou seja, não deve persistir ao longo dos próximos meses, levando a uma situação de economia deflacionária. Pelo contrário, estimamos que a inflação permanecerá acima da meta do Banco Central nos próximos dois anos, o que mantém a importância desses títulos para a maioria dos investidores com objetivos de médio e longo prazo”, pontua a Rico Investimentos, em relatório. 

“Deflação clássica”  

Outro conceito importante é o de “deflação clássica”. Em 2022, o Brasil registrou três meses seguidos de deflação, entre julho e setembro.

O motivo foi principalmente a redução de impostos incidentes sobre produtos como combustíveis e energia, sem haver uma queda generalizada de preços. Isso caracterizaria o que muitos chamam de “deflação clássica”. 

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