Apesar da queda na renda média do trabalho, aluguel tem maior alta em seis meses

O aumento dos aluguéis acontece depois de a renda média do trabalho ter caído ao menor nível em 10 anos, segundo o IBGE

A inflação do aluguel calculada pelo Índice de Variação de Aluguéis Residenciais (Ivar), novo indicador sobre o tema da Fundação Getulio Vargas (FGV), ficou em 1,76% em agosto, ante 1,05% em julho.

Foi a mais elevada taxa desde fevereiro, quando o índice subiu 2,92%.

O aumento nos preços do aluguel acontece depois de a renda média ter caído 5,1% no segundo trimestre, segundo o IBGE, para o menor nível em 10 anos.

Queda na renda do trabalho

Sete estados brasileiros registraram queda na renda média do trabalhador no segundo trimestre de 2022, frente a igual período do ano passado: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina, Pernambuco e Sergipe.

As demais 20 unidades da federação tiveram estabilidade no rendimento médio real habitual dos trabalhadores, que considera a soma de todos os trabalhos, o que resultou no índice negativo, calculado a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Trimestral.

Atividade econômica e inflação motivaram aumento

Segundo o economista da FGV, Paulo Picchetti, responsável pelo indicador, a melhora na economia levou os senhorios a entenderem que havia maior margem para elevar o aluguel.

Ao mesmo tempo, o crescente interesse de uso do IPCA nos contratos, que mostra patamar elevado nas taxas acumuladas, ajudou a impulsionar o Ivar.

Na evolução do Ivar, todas as quatro capitais cujos contratos são usados para cálculo mostraram aceleração na taxa do índice, de julho para agosto.

É o caso de São Paulo, de 0,82% para 1,04%; Rio de Janeiro, de 0,39% para 1,15%; Belo Horizonte, de 2,49% para 3,10%; e Porto Alegre, de 1,07% para 2,63%.

“O que está acontecendo, de maneira geral, em todas as capitais, é que como tivemos uma migração de contratos para o IPCA [como indexador, em substituição ao IGP-M da FGV], componentes grandes desses números estão migrando para o IPCA em 12 meses”, afirmou o especialista.

IPCA em queda

O aumento no preço dos alugueis também vem num momento de inflação em trajetória de queda. A redução dos preços em energia e em combustíveis, de forte peso na composição do indicador, levaram a desaceleração e recuo na taxa mensal a partir de maio.

Mas, de acordo com o economista da FGV, não houve tempo hábil para que essas taxas menores derrubassem a taxa acumulada, com reflexo nos preços dos aluguéis – e, por consequência, no Ivar.

Em julho, resultado mais recente do IPCA, o indicador caiu 0,68%, mas a taxa em 12 meses até aquele mês ainda acumula alta de 10,07%.

Na próxima sexta-feira (9) será anunciado o IPCA de agosto – sendo que a prévia do indicador, o IPCA-15 de agosto caiu 0,73%, segundo o IBGE.

Perspectiva

O técnico não descartou desaceleração do índice até o fim do ano. Isso porque essas quedas, no IPCA na margem, podem ajudar a diminuir taxa acumulada do indicador – e, com isso, a reduzir variação do índice inflacionário, usado como indexador nos contratos de aluguel.

“Pelo lado da indexação, a tendência é desacelerar [o Ivar]” afirmou Picchetti. No entanto, ele faz uma ressalva. O indicador também é influenciado por ritmo de economia, e não é possível prever qual será cadência da atividade econômica, principalmente no último trimestre do ano.

“Começamos a ter revisão para cima do PIB em 2022”, disse, lembrando que isso ocorreu após anúncio de alta, acima do esperado do mercado, de 1,2% na economia do segundo trimestre ante o primeiro trimestre, na semana passada. “Mas também não é certo”, comentou.

Para o economista, é preciso esperar para ver qual seria trajetória do IPCA e da economia para melhor mensurar evolução futura do Ivar.

Substituto do IGPM

Divulgado pela primeira vez em janeiro, o Ivar passou a ser utilizado depois da disparada do IGPM, bem acima do IPCA.

O índice mensura evolução de preços de contratos de aluguéis em quatro capitais, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, e conta com série histórica iniciada em 2018, no caso de São Paulo; e a partir de 2019 para demais três capitais.

Com os dados originados dessas capitais, a fundação fez média ponderada para elaborar taxa total do indicador.

O IVAR abrange, em sua coleta, preços de contrato de aluguel de longo prazo efetivamente contratados, e é anunciado mensalmente pelo portal da fundação na internet. A primeira edição a ser divulgada do indicador foi referente a dezembro de 2021.

Informações de Lucianne Carneiro, do Valor.

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