Alerta da OCDE: dívida global bate recorde, mas não impulsiona investimentos

Os mercados de dívida bateram recordes nos últimos anos e foram importantes na recuperação da pandemia de covid-19 e na crise financeira de 2008.
No entanto, segundo o relatório sobre a dívida global 2025, divulgado nesta quinta-feira pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os recursos dessas captações não foram direcionados a investimentos de longo prazo, mas sobretudo para rolagem de outras operações financeiras.
Para a OCDE, as emissões soberanas serão necessárias para “financiar o crescimento de longo prazo”, enquanto “as empresas devem ser incentivadas a priorizar gastos que aumentem a produtividade.” A OCDE defende também que a transição energética entre nessa conta.
“As empresas usaram a era das taxas baixas para priorizar as operações financeiras, rompendo parcialmente o vínculo entre o investimento corporativo e a tomada de empréstimos”, aponta o estudo.
Dados do relatório
Segundo o relatório, a emissão de títulos soberanos nos países da entidade deve atingir o recorde de US$ 17 trilhões em 2025, acima dos US$ 16 trilhões captados no ano passado e dos US$ 14 trilhões do ano anterior.
Entre os países emergentes, o volume captado passou de cerca de US$ 1 trilhão em 2007 para mais de US$ 3 trilhões no ano passado.
O estoque de dívida desses emissores em circulação no mercado triplicou desde 2007, para quase US$ 12 trilhões em 2024.
O mercado de dívida corporativa, por sua vez, retomou o crescimento no ano passado, depois de somar US$ 12,9 trilhões em emissões entre 2009 e 2023 foi US$ 12,9 trilhões.
A OCDE destaca que o volume captado foi superior ao investimento de US$ 8,4 trilhões feito pelas companhias no período.
Estoque global de dívida em títulos corporativos chega a US$ 35 tri
No fim de 2024, o estoque global de dívida em títulos corporativos atingiu US$ 35 trilhões. Conforme o estudo, muitas captações nos últimos anos foram usadas para, por exemplo, refinanciamentos e pagamentos aos acionistas.
“Isso sugere que é improvável que a dívida existente se pague por meio de retornos sobre o investimento produtivo”, diz a OCDE.
Conforme o relatório, 42% da dívida soberana total e 38% da dívida de títulos corporativos em aberto devem vencer nos próximos três anos. E os custos, agora, estão mais altos.
Uma parte significativa já foi refinanciada com juros mais altos em relação às emissões originais.
Com isso, os índices de pagamento de juros em relação ao PIB aumentaram em cerca de dois terços dos países da OCDE em 2024 e atingiram 3,3%, um aumento de 0,3 ponto percentual em relação a 2023.
“Isso significa que os gastos com juros são maiores do que os gastos do governo com defesa.”
Títulos soberanos dos países da OCDE
A fatia dos bancos centrais em títulos soberanos dos países da OCDE, informa o estudo, caiu de 29% do total da dívida em aberto em 2021 para 19% em 2024, enquanto a das famílias foi de 5% para 11% e a dos investidores estrangeiros, de 29% para 34%.
“Se os níveis atuais de dívida forem mantidos, os investidores existentes precisarão comprar mais dívida ou novos investidores, provavelmente mais sensíveis a preços, precisarão entrar no mercado, o que poderia aumentar a volatilidade.”
Como cada vez mais é exigido dos governos prudência fiscal, reformas estruturais para impulsionar o crescimento e maior eficiência nos gastos, a OCDE avalia que será preciso usar os mercados de dívida da forma mais estratégica possível.
“As empresas precisam ser incentivadas a priorizar a tomada de empréstimos para gastos que aumentem a capacidade produtiva, a fim de garantir melhor a sustentabilidade de longo prazo de sua dívida.”
Além disso, a OCDE observa que o governo não conseguirá sozinho financiar a transição climática. Para a entidade, o potencial do setor privado para atuar na transformação é enorme, mas exige um rápido desenvolvimento dos mercados de capitais.
“As reformas da regulamentação financeira serão essenciais para liberar o potencial dos mercados de dívida para financiar a transição, especialmente para aprimorar o desenvolvimento do mercado de capitais nos mercados emergentes.”
*Com informações do Valor Econômico