Dá tempo de planejar a viagem de final do ano? Veja como preparar o bolso

Especialistas alertam: uma viagem financeiramente mal planejada faz o sonho virar pesadelo. Veja como evitar essa dor de cabeça

Entramos em agosto, as férias de julho já passaram e o Papai Noel começa a aparecer no retrovisor. Com isso, as festas de final de ano e a época em que muitos brasileiros escolhem para viajar também se aproxima. Mas como planejar uma viagem a essa altura do campeonato? Ainda dá tempo ou você já perdeu o bonde pra curtir as férias de bem com as finanças?

Para os especialistas ouvidos pela Inteligência Financeira, bem, você já está atrasado. Não é o fim da linha, mas vai ser necessário pesar bem para ver se vale a pena fazer uma viagem – de que tamanho – daqui a poucos meses.

“Se for uma viagem grande, que vai custar um dinheiro considerável e a capacidade de poupança dessa pessoa não for tão grande assim, sim, ela já está atrasada”, avalia Thiago Martello, planejador financeiro da Martello Educação Financeira. O especialista recomenda que o ideal para que uma viagem comece a ser programada é em torno de 1 ano antes da data de partida.

Isso não significa que tudo esteja perdido. A regra de ouro dos especialistas é que você vá com a viagem paga ao máximo e com os recursos que você vai precisar assegurados. Se os seus planos estiverem alinhados com o seu bolso, tudo certo.

“Vamos supor que a pessoa, por exemplo, consiga guardar R$ 300 por mês, em um total de R$ 1.500 daqui até o final do ano. Se o plano dela for pegar uma pousada no interior que vai custar R$ 1.000 com tudo dá tempo. Só que se a ideia for juntar R$ 1.500 e fazer uma viagem internacional de R$ 15 mil aí vai dar errado”, explica Martello.

Como planejar uma viagem do zero?

O educador financeiro explica que, para quem gosta de fazer turismo com frequência, a primeira coisa é criar o hábito de juntar dinheiro para viajar. Todos os meses, independentemente de ter uma viagem já contratada ou não, você reserva uma parte do seu salário para esse fim.

“Se você gosta de estar sempre viajando, a ideia é que você passa isso de uma forma perene, guardar um valor todo mês para viajar sempre”, explica Thiago Martello.

O objetivo aqui é viajar com tudo já pago e poder voltar de viagem já programando o próximo passeio, sem se desesperar na volta para casa. E isso vale tanto para viagens nacionais quanto para as internacionais, sendo que o tempo de economia e o tamanho do pacote que será contratado vão depender novamente das condições de poupança de cada um.

Juntar dinheiro para viajar

Antes de mais nada, é importante que essa economia não seja deixar o dinheiro parado na conta corrente ou debaixo do colchão. A dica é usar o tempo a seu favor, investindo o dinheiro em aplicações que tenham liquidez para o prazo em que você pretende usar esse recurso, deixando ele render sem ficar preso.

“Administrando bem o dinheiro que você está guardando agora, você consegue inclusive fazer uma viagem melhor lá na frente”, reforça o educador financeiro. Portanto, primeiro vem a reserva e depois a viagem, e não o contrário, explica o especialista.

Como planejar bem a data da viagem

Um agravante para quem quer planejar uma viagem agora é o fato de que, além de estarmos um tanto em cima da hora, também estamos falando de uma época em que muitas viagens costumam ficar mais caras. Se essa for a sua única opção, paciência, é ver se o destino desejado cabe no bolso na data possível.

“Falando do Nordeste, por exemplo. Se a pessoa planejar uma viagem para o mês de dezembro ela vai pagar cerca de 30% a mais do que pagaria se viajasse em setembro, por exemplo. Uma passagem do Sudeste para Salvador não costuma ser tão cara, mas se estivermos falando de ir para lá no Carnaval, aí sim, você vai ter que se preparar para gastar um pouco mais”, avalia Claudia Garcia, head de turismo da Frente Corretora.

Pagar à vista, ou ao menos antes de embarcar

Os especialistas não são unânimes a respeito de pagar ou não à vista as viagens. Reportagem recente da Inteligência Financeira registrou algumas dicas importantes, como você dar preferência para o pagamento à vista quando há a oferta de um desconto. Idealmente, igual ou maior a 10% do total da compra.

No entanto, o que os experts no tema concordam é que à vista ou à prazo o importante é você quitar o principal antes do embarque. Diferente de quando se compra um produto, a viagem traz consigo na hora H mais e novos custos, de transporte a alimentação e compras. Portanto é preciso estar ciente: se você parcelar para depois da sua volta, isso tudo vai se somar para você pagar ao mesmo tempo.

“Se você vai para uma viagem e parcela tudo, naturalmente você vai ter que esperar terminar de pagar essa para começar a planejar a próxima. Além disso, muita coisa pode acontecer no caminho. Você viaja, parclea por um longo período e aí Deus o livre você perdeu o emprego, por exemplo? A viagem virou um pesadelo”, comenta Thiago Martello.

“O melhor é já ter pago a hospedagem, a locação de carro, os tickets [de parques, por exemplo]. Ter lá só a despesa normal de alimentação é melhor”, avalia Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora. O especialista completa ainda que, na hipótese você viajar mesmo no final deste ano, vai encontrar uma pedreira na volta. “É preciso lembrar que os primeiros meses do ano são difíceis pro orçamento familiar. Temos IPTU, IPVA e rematrícula de escolas, por exemplo.”

Como planejar uma viagem internacional

Para o planejamento financeiro, não há uma diferença muito grande na lógica de fazer as contas para poder viajar se o destino é nacional ou é uma viagem internacional, uma vez que o crucial é fazer caber no bolso e evitar voltar com muitas pendências. Por outro lado, tem a questão da moeda.

Sabendo que o movimento da variação das cotações é difícil de prever, a recomendação dos especialistas é fazer o chamado câmbio médio. Ir comprando aos poucos para não ficar refém de uma cotação alta no momento da viagem, diluindo o risco ao longo do período que antecede a partida.

A especialista lembra ainda que nem sempre necessariamente vai ser vantajoso viajar com reservas em dólar e euro. “Se eu vou para o Chile, por exemplo, vou pagar caro no dólar aqui e a troca lá não vai ser vantajosa. É melhor eu procurar uma boa casa de câmbio e comprar o peso chileno, porque eu vou pagar caro, mas vai ser uma vez só”, diz.

Ela cita outros exemplos. “Austrália e Nova Zelândia são países com moedas estáveis e que se você for para lá com dólar não vai ser amplamente aceito. Na Europa, por exemplo, também não é em todo lugar que o euro vai funcionar”, completa Claudia Garcia.

Cashback de imposto para viajar

Uma forma de aproveitar melhor um bom destino também é procurar informações sobre benefícios tributários a turistas, como cashback de impostos. É o caso, por exemplo, da França e de outros países da União Europeia.

Na França, cada loja oferece um formulário específico a ser preenchido pelo visitante para obter o retorno dos impostos. Ou o turista preenche um formulário do Fisco francês caso tenha realizado compras acima de 175 euros em uma única loja.

“O cliente define se deseja receber o reembolso em espécie ou no crédito do cartão de crédito”, explicou Queli Morais, sócia de TAX da BDO, em entrevista recente à Inteligência Financeira.

Economizando com passagens aéreas e hospedagem

De acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, comprar passagens aéreas e reservar hospedagens com antecedência é sim uma dica de ouro. Isso acontece por uma característica do modelo de negócio desses dois setores, especialmente das empresas de aviação.

“As companhias trabalham planejando custos como as aeronaves, o combustível, os colaboradores. Então, quanto antes eles vendem passagens, mais eles têm a previsão sobre aquele voo. Então, quem compra um pouco antes acaba pagando mais barato como um benefício por estar ajudando, digamos assim, a companhia áerea”, explica Thiago Martello.

Outra ferramenta aliada do viajante são as milhas, os pontos acumulados nos programas de cartões de crédito. Além de ser um meio para a compra das passagens, Claudia Garcia afirma que muitas vezes eles podem ser até mais vantajosos para a contratação de outros serviços envolvidos na viagem.

“O que eu acho válido é comparar quanto se cobra com milhas versus o preço em dinheiro da passagem, para ver quanto os pontos do seu cartão estão pagando por real. Isso porque os programas de milha hoje não são mais restritos às passagens aéreas, uma das opções para usar os pontos pode ser a hospedagem, por exemplo”, diz a economista.

Os vilões da viagem: o cartão de crédito e os imprevistos

Acabamos de falar sobre as benesses que o cartão de crédito pode trazer para a sua viagem. No entanto, são benefícios dos gastos que você fez antes de embarcar. Portanto, sentou na cadeira do avião você precisa pensar duas vezes antes de pegar o cartão.

No ano passado, o governo anunciou que vai zerar até 2028 o IOF cobrado sobre transações com o cartão de crédito no exterior. Por outro lado, enquanto esse dia não chega, os brasileiros seguem pagando 5,38% de imposto sobre as compras feitas lá fora, o que pode encarecer muito a conta de padaria da conversão que você fez na loja enquanto comprava um produto.

Claudia Garcia, da Frente Corretora, lembra que é comum o brasileiro, quando volta de uma viagem em que você fez muitas compras, precisar parcelar a fatura do cartão de crédito. “Você compra lá fora uma bolsa que está mais barata do que aqui no Brasil. Mas quando você for colocar na conta do lápis o IOF e o parcelamento do cartão, você acabou pagando mais caro”, exemplifica.

Mesmo nas viagens nacionais, o cartão de crédito pode ser um risco, principalmente, como dissemos à cima, caso existam parcelas da viagem em si ainda a serem pagas no retorno do passeio. “O maior risco de uma viagem é você ter um imprevisto lá. Se você não tiver uma reserva, vai precisar parcelar o imprevisto. Se a viagem também estiver parcelada vai ser dívida em cima de dívida”