Lula chega à Espanha de olho no acordo entre União Europeia e Mercosul

No último compromisso em Portugal, presidente brasileiro foi alvo de protestos da ultradireita

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pousou em Madri por volta das 14h desta terça (9h no Brasil). Na capital espanhola, o petista participará de um encontro com centrais sindicais espanholas e irá ao encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Espanha.

Ao chegar à Espanha, Lula visitará não apenas o terceiro maior investidor direto no Brasil — o estoque de investimento espanhol no Brasil foi de US$ 50,5 bilhões em 2021, segundo a ApexBrasil — mas também o país que assumirá este ano a presidência do Conselho da União Europeia, em julho, e pretende impulsionar o acordo entre a União Europeia e o Mercosul.

Para o Brasil, segundo especialistas, a notícia é excelente porque aumentam as chances desse acordo ganhar tração, ampliando as exportações e importações entre os dois países.

Ao presidir o Conselho, os espanhóis querem estabelecer regras claras que garantam o compromisso das partes com o desenvolvimento sustentável. O objetivo é que o acordo esteja concluído até o final deste ano.

Anunciado em 2019, no governo passado, ele ficou travado exatamente pela política ambiental adotada por Jair Bolsonaro. O Brasil se tornou alvo de críticas pelo aumento do desmatamento ilegal, aumento de focos de incêndio na Amazônia e pela fala do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sobre aproveitar a pandemia para “passar a boiada” no relaxamento de regras ambientais.

O acordo Mercosul-UE é o maior tratado de livre comércio do mundo, englobando 32 países, com 780 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de US$ 20 trilhões.

Especialistas avaliam que, quando o acordo começar a rodar, os dois países poderão quintuplicar a corrente comercial. Para o Brasil, também será uma oportunidade de diversificar a pauta de exportações, que atualmente está concentrada em matérias-primas como soja, milho, café, minério de ferro.

A ApexBrasil já identificou oportunidades para ampliar a oferta de produtos Made in Brazil na Espanha nos setores de serviços, economia criativa, saúde, tecnologia e alimentos. No ano passado, as exportações brasileiras para a Espanha já deram um salto e chegaram a US$ 9,4 bilhões frente aos US$ 5,4 bilhões, em 2021. Foi um crescimento de 79%.

A Apex lembra que em 2019, o investimento espanhol no país alcançou US$ 81,4 bilhões, mas diminuiu em 2020 e 2020, possivelmente por conta da pandemia. Os números de 2022 ainda não foram divulgados, mas houve um grande volume de investimentos, diz a agência.

“Nos mais recentes encontros com empresários dos dois países, as autoridades espanholas se comprometeram ao máximo possível em avançar com o acordo UE/Mercosul”, diz Francisco Orjales, diretor da Expotrade, órgão colaborador oficial da Câmara de Comércio e Serviço de Madri no Brasil.

Orjales lembra que os espanhóis não são só parceiros comerciais e investidores do Brasil, mas estão integrados à cultura do país, com empresas estabelecidas por aqui há muito tempo. Ele cita exemplos como o Santander, terceiro maior banco privado do país, e a seguradora Mapfre, que é sócia do Banco do Brasil na oferta de seguros.

Orjales lembra que os negócios entre os dois países avançam, independentes do viés político. Mas ele lembra que Lula sempre teve boa relação com os espanhóis. O representante espanhol diz que, além do setor financeiro e de infraestrutura, a Espanha tem interesse em investir no Brasil em áreas como tecnologia, serviços e alimentos.

Entre as companhias espanholas que já investem há tempos no Brasil estão a petroleira Repsol, a operadora aeroportuária Aena, que tem grande presença no país e recentemente ganhou a concessão do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com lance de R$ 2,4 bilhões. O conglomerado Acciona, por exemplo, é atualmente o responsável pelas obras da Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo, mas está no Brasil há mais de 25 anos, atuando em obras como o Porto do Açu, no Rio de Janeiro, além da construção de dois lotes do Rodoanel Norte, também em São Paulo.

Um dos lances bilionários mais recentes feitos pelos espanhóis no Brasil veio da Neoenergia, empresa de energia controlada pela Iberdrola, em março passado. A empresa lançou o Complexo Renovável Neoenergia, pioneiro no país ao fazer a sinergia entre os ativos dos parques eólico e solar com a linha de transmissão e a subestação. O investimento total na cidade de Santa Luzia, no interior da Paraíba, soma R$ 3,5 bilhões. A energia gerada será suficiente para abastecer 1,3 milhão de residências por ano.

“A Iberdrola e a Neoenergia estão comprometidas com o Brasil. Projetamos investir R$ 30 bilhões nos próximos três anos, até 2025. E continuaremos neste ritmo de crescimento até 2030”, disse o presidente executivo da Iberdrola, Ignacio Galán, durante o lançamento do megaempreendimento.

Nas fusões e aquisições, o grupo espanhol Cobra, através da sua subsidiária Carmo Energy, anunciou a compra do Polo Carmópolis da Petrobras, em dezembro de 2021. A Carmo vai operar 11 campos de petróleo na cidade de Carmópolis, em Sergipe. O valor da transação foi de US$ 1,1 bilhão (cerca de R$ 5,0 bilhões). Trata-se do maior negócio da história do Brasil para ativos de exploração e produção de petróleo e gás onshore.

No setor de serviços, uma das mais recentes a chegar foi a consultoria espanhola How2Go. Sua especialidade é auxiliar na internacionalização de empresas. A How2Go já atua em países latino-americanos como México e Colômbia, mas o Brasil, maior economia da região, é visto como um dos principais catalisadores dos negócios na região.

O fato de o Brasil ter um grande mercado interno muitas vezes inibe empreendedores de tentar vender seus produtos e serviços no exterior, diz Marcelo Marcelo Vitali, diretor da How2Go no Brasil. É esse estigma que a consultoria quer quebrar.

“O Brasil é visto como o principal vetor de expansão em 2023. A How2Go pretende mediar mais de US$ 100 milhões em negócios no Brasil nos próximos dois anos”, diz Vitali.

Protestos da ultradireita em Portugal

Antes de voar para Madri nesta terça-feira, o presidente Lula foi alvo de protestos da ultradireita e aplausos de aliados ao discursar no Parlamento de Portugal, seu compromisso derradeiro do país.

O petista voltou a falar sobre a guerra na Ucrânia, após declarações controversas gerarem mal-estar diplomático nas últimas semanas, afirmando que “condena a violação da integridade territorial” do país europeu, mas que “é preciso falar de paz” e que “quem acredita em soluções militares para problemas atuais luta contra os ventos da História”.

De gravata amarela, Lula foi ao Parlamento no 49º aniversário da Revolução dos Cravos, que em 1974 pôs fim aos 41 anos de ditadura em Portugal — presença que há dias gera controvérsia entre os políticos portugueses.

O petista, que vestiu uma gravata verde e amarela e um cravo vermelho, disse sobre a invasão russa na Ucrânia:

“Condenamos a violação da integridade territorial da Ucrânia. Acreditamos em uma ordem internacional fundada no respeito ao Direito Internacional e na preservação das soberanias nacionais. A guerra não poderá seguir definitivamente.”

“As crises alimentar e energética são problemas de todo o mundo. Todos fomos afetados pelas consequências da guerra. É preciso falar da paz. Para chegar a esse objetivo, é indispensável trilhar o caminho do diálogo e diplomacia”, disse Lula.

Segundo Lula, “quem acredita em soluções militares para problemas atuais luta contra os ventos da História”, completando que “nenhuma solução de qualquer conflito, nacional ou internacional, será duradoura se não for baseada no diálogo e na negociação política”.

Os deputados do partido de ultradireita Chega entraram no hemiciclo depois da chegada dos presidentes Lula e Marcelo Rebelo da Silva, quebrando o protocolo da cerimônia solene de boas-vindas ao brasileiro. Depois, batiam na mesa toda vez que a maioria da Casa aplaudia o convidado — protesto sonoro que gerou incômodo visível nos ministros e membros da comitiva, levando-os a rebater com aplausos de pé e gritos.

A situação levou o presidente da Casa, Augusto Santos Silva, a pedir desculpas pelo “comportamento vergonhoso” da extrema direita: “Chega de insultos, chega de porem vergonha no nome de Portugal”, disse o parlamentar.

Mesmo após a repreensão, os parlamentares continuaram a segurar cartazes que incluíam frases como “Chega de corrupção” e “lugar de ladrão é na prisão” e bandeiras da Ucrânia. Em seus cumprimentos ao Parlamento, Lula classificou os protestos como uma “cena de ridículo” de pessoas “que não têm uma coisa boa para fazer”:

“Às vezes, lamento porque, quando as pessoas não têm uma coisa boa para fazer, para aparecer, fazem essa cena de ridículo”, disse o presidente brasileiro. “Quando essas pessoas [do Chega] deitarem a cabeça no travesseiro vão falar: que papelão nós fizemos.”

Lula originalmente havia sido convidado para participar da sessão principal da Casa no aniversário da Revolução dos Cravos. Em visita oficial ao Brasil em fevereiro, contudo, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, revelou que havia planos para Lula discursar no aniversário da Revolução dos Cravos, algo que nenhum chefe de Estado estrangeiro havia feito.

O ministro do Partido Socialista (PS), do primeiro-ministro e amigo de Lula, António Costa, fez o anúncio sem a decisão ter sido tomada em conferência dos líderes partidários do Parlamento, como determina o regimento da Casa. Isso por si só gerou raiva em setores mais conservadores de Portugal, mas as falas sobre a Ucrânia foram a gota d’água.

Durante sua passagem pela China e a breve escala nos Emirados Árabes Unidos, o presidente disse que tanto Rússia quanto Ucrânia são responsáveis pelo conflito, algo que despertou indignação na comunidade ucraniana e nos deputados da direita e da ultradireita. Perante a ira, Lula desistiu de participar da sessão principal, atendo-se à sessão solene de boas-vindas, onde apenas ele e o presidente da Casa, Santos Silva (PS) tiveram o direito a subir ao púlpito.

O repúdio à presença de Lula foi comandado pelo líder de extrema direita André Ventura, deputado do Chega. A foto de Ventura, inclusive, está acima de um outdoor instalado na frente do Parlamento, com a frase “Portugal precisa de uma limpeza” e figuras do establishment com os rostos marcados por “x”. A lado da placa gigante havia um pequeno cartaz contra o presidente brasileiro e a favor da Ucrânia.

Ventura tem grande apoio das forças policiais portuguesas e também soma simpatizantes brasileiros bolsonaristas ou que frequentam a igreja evangélica no país. Nos últimos dias, ele prometia o maior protesto de todos os tempos contra Lula no país. Apoiadores do presidente compareceram ao local em número similar, isolados por uma barreira de segurança e policiais.

Os órgãos de segurança mantiveram os manifestantes em duas ruas distintas para evitar possíveis conflitos, e Lula chegou ao prédio sob vaias e aplausos de ambos. Ao contrário de parte da comitiva, que acessou a rampa da entrada principal pela direita, onde estão os apoiantes do Chega, o carro de Lula chegou pela esquerda, próximo à rua que concentrava seus apoiadores, e foi recebido por Santos Silva.

Em seu pronunciamento antes de Lula, o presidente da Casa lembrou que Portugal foi um dos primeiros países com os quais o petista restabeleceu contato após ser eleito em 2022. E o primeiro da Europa a ser visitado pelo presidente, ainda sem sequer ter tomado posse — o petista fez uma breve escala em Lisboa em novembro, ao voltar da COP27, no balneário egípcio de Sharm el-Sheikh.

“Com você, Brasília volta a se abrir ao mundo. Quando alguns tentavam invadir as instituições democráticas brasileiras, soube defendê-las sem qualquer hesitação”, disse o parlamentar, ressaltando a defesa da democracia nos atos golpistas de 8 de janeiro.

Ao lado de Lula, Santos Silva defendeu a retirada das tropas russas do território ucraniano. Mas, assim como Lula disse em Portugal, disse que é hora de mais negociações e menos batalhas.

“Desde a primeira hora, e tal como Brasil, Portugal condena a agressão da Rússia. Precisamos falar mais de negociações e menos de batalhas”, disse o presidente do Parlamento.

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